Opinião

Cidadania... Educação para o quê?

Quanto de ideologia sempre se passou em aulas de História, Ciências da Natureza ou Português? Não tenhamos ilusões quanto a isso.

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Goncalo Dias

Nestes últimos dias, muito se tem falado de Educação para a Cidadania. As alusões ao que é, por direito, tarefa da família, aparecem em número crescente. A atribuição de papéis parece clara: a escola ensina, a família educa. Será que é mesmo assim? Será que é isto que acontece em todas as escolas de norte a sul do país? Dependendo dos contextos e dos momentos, não é fácil equilibrar entre educação e ensino.

O facto de a escolha da disciplina de Cidadania e Desenvolvimento poder ser facultativa faz que a abordagem de alguns destes temas possa nunca acontecer, nomeadamente pela família que decidiu não querer que os seus educandos a frequentem. Quem considera que a pode e deve ter sobre a sua alçada, numa perspectiva de abordar os assuntos contemplados no seu programa, porque se sente com preparação a vários níveis, para os explicar e discutir com os seus filhos, não se deve aborrecer que os professores o façam, pois terá essa capacidade de os enquadrar nas conversas familiares. Ou será que, com os medos de “lavagem ao cérebro”, os pais preferem não abordar qualquer desses temas?

Do meu ponto de vista, a questão resume-se à dificuldade em ser tolerante e ter abertura à diversidade. É difícil ensinar as crianças, adolescentes e jovens a pensarem, a observarem os vários pontos de vista e debaterem-nos; a confrontarem experiências que conhecem na primeira pessoa e outros exemplos ou hipóteses. É difícil falar sobre alguns assuntos sem emitir a própria opinião. Mas sempre assim foi, em diversas matérias, desde a ideologia política à religiosa. Desde a literatura que não se podia ler, àquela que é de leitura obrigatória, neste momento. A dificuldade em construir pensamento crítico, aceitar a diferença de pensamento e opção, continua a ser uma dificuldade de todos, incluindo pais e profissionais da educação.

Quem anda na educação há umas dezenas de anos tem bem fresco na memória o tempo em que tudo era tarefa da escola. Falo da educação rodoviária, ambiental, sexual, alimentar, entre muitas outras. Ouvia-se amiúde: “Mas não te ensinam isso na escola?” E todos nos recordamos dos professores dizerem, com angústia e preocupação, que não sabiam falar sobre determinados assuntos para além da sua opinião e vivência pessoal. Mas tinham de o fazer, ao seu jeito, com a sua ideologia. E quanto de ideologia sempre se passou em aulas de História, Ciências da Natureza ou Português? Não tenhamos ilusões quanto a isso.

A equidade que se pretende passa por equilibrar o sistema, onde as necessidades de cada turma, de cada escola, em colaboração com as famílias, vão sendo colmatadas na abordagem de temas que possibilitem às crianças e jovens construir o seu pensamento, confrontando os diferentes pontos de vista, e, com espírito crítico, ir fazendo as suas apropriações ideológicas, políticas, religiosas, filosóficas, culturais e ambientais.

Queremos um sistema educativo equitativo. Se esta equidade passa por colocar em opção aquilo que faz pensar, então não estamos a estimular o pensamento, reflexão, capacidade de elaborar uma ideia, organizar o pensamento, e muito menos a capacidade de fazer escolhas.

O conhecimento do contexto e do meio leva os professores a adequarem o tipo de abordagens que fazem. Podem e devem ser sempre desafiantes e ousadas, mas em graus apropriados ao grupo em concreto. E com a colaboração das famílias e outros intervenientes que saibam esclarecer convenientemente os assuntos em questão.

A escola foi sempre e é feita de ideologias porque é feita por pessoas. E as pessoas pensam e são relacionais, por definição. Sempre existiu o currículo oculto, que muitas vezes ensina mais do que as “papagaiadas” que os alunos ainda têm de debitar.

Não gostamos de tudo, queremos outras coisas. O equilíbrio que a equidade encerra em si mesma possibilita que a abordagem de muitos temas na escola possa ser uma alavanca para desenvolvimento do pensamento dos alunos, enquanto noutras escolas pode ser perfeitamente dispensável.

Termino a contar-vos uma história, na altura em que se discutia a liberalização do aborto, era eu directora pedagógica de um colégio católico, em Lisboa. Um pai e encarregado de educação agendou uma reunião comigo para me perguntar se eu podia assegurar que todos os professores do colégio eram católicos e contra o aborto. Porque ele era e não queria os filhos expostos a outras ideologias. Este pai sabia bem que as crianças não aprendem apenas com os ouvidos, mas que todos os sentidos contribuem para a construção do pensamento e que o exemplo de cada professor, de cada modelo, é um contributo para o desenvolvimento das crianças. Terminámos essa e outras reuniões percebendo que a diversidade enriquece e fortalece as nossas convicções, porque passamos a saber debatê-las e a justificá-las, tornando-as mais fortes. Correndo também o risco de as abandonarmos. Se assim acontecer, é porque não eram convicções. Eram crenças com pés de barro. Mantenho por essa família, passados bastantes anos, uma estima e amizade especial, fortalecida pela discussão franca de ideias e posições, encontrando o equilíbrio necessário para o bem dos seus filhos.

Para bem dos alunos e dos filhos, em primeiro lugar, e do sistema educativo, sejamos tolerantes e concretizemos a equidade que o sistema preconiza, sem falsas questões.