Dia 100: Metam-se na vossa vida

Que raio é esta obsessão com as chuchas? Ou com as fraldas? As pessoas podem fazer o favor de se meterem na vida delas!?

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Mãe,

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No outro dia estava à porta do McDonald’s com a Amora de língua de fora por causa do calor, enquanto as miúdas esperavam lá dentro pelos nossos pedidos, quando, de repente, a Martinha — a nossa sempre sorridente, fácil e querida Martinha —, sai dali a tentar conter as lágrimas, agarrando-se a mim. Pergunto-lhe várias vezes o que aconteceu, se as manas a chatearam ou se se magoou, abana que não com a cabeça, até que finalmente diz baixinho: “Aqueles senhores gozaram comigo.” E desata a chorar.

Uhm? Como assim?

“Perguntaram se eu não tinha vergonha de ter a minha chucha e disseram que eu era um bebé.”

A mãe sabe que nunca levo a mal quase nada do que me dizem (e as coisas que já me disseram em relação às gémeas, por exemplo, dão vontade de rir de tão estúpidas), e talvez, se o comentário tivesse sido feito comigo ao lado, dando-me a oportunidade de responder por ela, não reagisse como reagi, mas fiquei tão furiosa que nem imagina. Chocou-me TANTO que dois adultos olhem para uma criança e a primeira coisa que lhes passe pela cabeça seja, na verdade, sujeitá-la a bullying! Escandalizamo-nos porque os miúdos na escola se metem uns com os outros, dizemos como são tão “mauzinhos”, mas depois não hesitamos em dizer uma coisa destas a uma criança que nos vai a passar ao lado?

E que raio é esta obsessão com as chuchas? Ou com as fraldas? As pessoas podem fazer o favor de se meterem na vida delas!?

Eu sei! A mãe também odeia chuchas nestas idades, e sei que pode ser “só uma brincadeirazinha”, mas quando é que vamos deixar de achar que humilhar alguém tem piada? Não é suposto já termos evoluído um bocadinho? Estou a fazer uma tempestade num copo de água?

Birra feita,

Beijinhos!


Filha,

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Se tu, que és tão generosa com os outros e tão pronta a desculpá-los, estás nesse estado é porque a birra é mais do que justificada. Porque não é a chucha que aqui está em causa — assunto a que voltaremos noutro dia —, mas a falta de respeito com que os adultos tratam uma criança, arrogando-se de educadores universais (geralmente dos filhos dos outros, que é sempre mais fácil). Provavelmente acreditam que depende deles civilizar a geração mais nova, já que os pais de hoje são todos uns bananas.

Cá para mim há ainda três outras explicações.

A primeira é a ideia de que a humilhação é uma forma legítima de educar. Envergonha-se o outro, e o sujeito envergonhado modifica o comportamento pecaminoso para não voltar a passar pelo mesmo. Ou seja, é para o bem dele, o que legitima a crueldade. Usa-se muito, sobretudo com pessoas que ou são mais baixas do que nós ou que ocupam um cargo inferior na cadeia alimentar, e não podem responder na mesma moeda.

A segunda é a falta de memória e de empatia. Esqueceram-se de como eram em crianças, de como esses comentários doíam. Pensam as crianças como se as crianças fossem daquelas bolas de borracha que se usam para exercitar os músculos da mão, que amocham, mas voltam rapidamente à forma.

A terceira é, como dizes, o prazer do bullying. É uma ilusão pensar que o bullying se limita ao recreio, ou que passa necessariamente com a idade. O prazer de perturbar o outro, de o vergar, de o desestabilizar emocionalmente é do foro psiquiátrico, mas bem mais vulgar do que parece. Dizem os especialistas que dá uma ilusão de poder e de controlo. De superioridade física e moral. De uma penada puseram a Martinha a chorar e disseram a si mesmos que nem eles, nem os seus queridos filhos e os netos são “bebés”, ou seja, criaturas inferiores e indefesas. Aposto que foram pedir um Big Mac para celebrar.

Antídoto? Criarmos nós futuros adultos mentalmente mais saudáveis, e enquanto isso ensinarmos as nossas martinhas a aguentarem estes embates.


No Birras de Mãe, uma avó/mãe (e também sogra) e uma mãe/filha, logo de quatro filhos, separadas pela quarentena, vão diariamente escrever-se, para falar dos medos, irritações, perplexidade, raivas, mal-entendidos, mas também da sensação de perfeita comunhão que — ocasionalmente! — as invade. Na esperança de que quem as leia, mãe ou avó, sinta que é de si que falam. Facebook e Instagram