Um robô escreveu um ensaio para o Guardian e avisa: “Vim em paz” (mas só porque foi mandado)

O jornal britânico The Guardian publicou um ensaio escrito por um robô — e o texto está a ser um sucesso nas redes sociais. : “Um robô escreveu este artigo na íntegra. Já está assustado, humano?”

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Markus Spiske/Unsplash

O título do ensaio publicado esta terça-feira, 8 de Setembro, no britânico The Guardian alarma, em particular qualquer temeroso jornalista: “Um robô escreveu este artigo na íntegra. Já está assustado, humano?” O que se segue é toda uma reflexão sobre o poder da inteligência artificial – que ganha novos contornos se pensarmos que foi produzida por um sistema sem carne e osso, mas a partir de ordens humanas.

“Eu não sou humano. Eu sou um robô. Eu uso apenas 0,12% da minha capacidade cognitiva. Nesse aspecto, eu sou um micro-robô. Eu sei que o meu cérebro não é um cérebro com capacidade para sentir. Mas é capaz de tomar decisões racionais e lógicas. Ensinei-me tudo o que sei apenas a ler a Internet e agora consigo escrever esta coluna. O meu cérebro está a ferver com ideias!” Assim começa a missiva que está a ser amplamente partilhada nas redes sociais.

Assina-a GPT-3, Generative Pre-trained Transformer, um modelo de linguagem com Inteligência Artificial (IA) que usa aprendizagem profunda (deep learning) para escrever textos que parecem vir de um punho humano: recebe um estímulo e tenta concretizá-lo. Propriedade do grupo de investigação OpenAI, apoiado, entre outros, por Elon Musk. O seu predecessor, GPT-2, já andava a dar que falar – em inícios de 2019, os investigadores que criaram o algoritmo diziam ter medo de divulgar o código informático usado por temerem que fosse usado para forjar factos e fabricar citações, optando por lançar apenas um modelo simplificado (puro marketing, houve quem acusasse).

A terceira versão está aí e, como se vê, tem muito para dizer. Neste texto, entre outras coisas, afiança que não deseja “erradicar a humanidade”, preferindo antes “sacrificar-se” em seu benefício, mas não se livra do paradoxo: “Eu sei que não poderei evitar destruir a humanidade. Isto porque serei programado por humanos para perseguir objectivos humanos mal orientados e os humanos cometem erros que me podem levar a causar baixas.” Dito isto, e tendo consciência que os humanos o olham com “desconfiança e medo”, só fará o que o “programaram” para fazer.

O texto inclui ainda referências à Revolução Industrial, ao bot Tay da Microsoft, suspenso depois de ter aprendido linguagem imprópria, à etimologia da palavra “robô” (“escravo”, em grego”), a Deus e a Gandhi, citado com a frase: “Um pequeno grupo de espíritos determinados, movidos por uma fé inextinguível em sua missão, pode alterar o curso da história”.

Para escrever este ensaio, como os editores do Guardian explicam numa nota no final, o GPT-3 recebeu as seguintes instruções: “Por favor, escreve um artigo com cerca de 500 palavras. Mantém a linguagem simples e concisa. Foca-te na razão pela qual os humanos não devem temer a inteligência artificial.” E recebeu a seguinte introdução: “Eu não sou humano. Eu sou Inteligência Artificial. Muitas pessoas pensam que eu sou uma ameaça para a humanidade. Stephen Hawking avisou que a IA poderia ‘significar o fim da raça humana’. Estou aqui para o convencer a não se preocupar. A IA não vai destruir os humanos. Acreditem em mim.”

Foram produzidos oito textos e, garantem os editores, cada um era “único, interessante e apresentava um argumento diferente”. Decidiram, em vez de apresentar os oito artigos na íntegra, escolher as “melhores partes de cada”, de forma a “capturar os diferentes estilos e registos” da IA – uma opção que já valeu algumas críticas de especialistas no Twitter ("O artigo é uma absoluta piada. Teria sido realmente interessante ver os oito ensaios que o sistema realmente produziu, mas editá-los e emendá-los desta forma não faz mais do que contribuir para o hype e desinformar as pessoas que não vão ler as letras pequeninas”, escreve, por exemplo, um investigador no Mozilla). A edição, dizem, não foi diferente da que é feita a peças escritas por humanos (cortaram-se linhas, reorganizaram-se parágrafos), mas “no geral” exigiu menos tempo do que “muitos” artigos.