DRO DANIEL ROCHA
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DRO DANIEL ROCHA

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Um obrigado, em nome da geração rasca

Sei que num dia de Primavera, mais precisamente a 16 de Maio de 1994, um editorial mudou a minha vida. Mesmo não estando de acordo e precisamente por não estar de acordo.

Se calhar, precisávamos de um safanão, não sei, um par de tabefes para acordar, parar, aprender e crescer. Não sei. Estaríamos a brincar à democracia, a brindar à democracia, enquanto saíamos em peso para as ruas de todo um país contra as Provas Globais?

Não, não estávamos a brincar, era mesmo a sério. E no peso dos nossos números, a nossa força: cortámos avenidas, entupimos estradas, ensurdecemos moradores e televisões e não nos cansámos de tanto gritar e protestar.

Ficou para a história. No nosso caso, foi a primeira vez na rua. E nunca mais nos esquecemos, sentados no meio da Avenida da Liberdade apenas porque sim, por podermos sentar-nos no meio da avenida, no meio da liberdade de quem, pela primeira vez, é, ainda sem saber muito bem o quê.

Vozes? Vontades? Apenas ruído? De pouco interessa, depende do ponto de vista e se houve pontos de vista! A verdade é que, por um, dia fomos alguém contra um sistema de repente injusto ao subjugar toda uma geração a provas de carácter nacional a todas as disciplinas, sem ai nem ui, sem ouvir os jovens que um dia fomos ou então apenas aqueles de acordo.

E não em nome da exigência, não sejamos ingénuos, mas em nome da desigualdade ao cercear os sonhos de um futuro de canudo e vida na mão a todos os jovens, a todos os filhos e a todos os pais de uma nação inteira. O Governo era de direita, lembram-se? E a Ministra da Educação, a mesma a defender o fim da democracia por seis meses poucos anos depois.

Assim sendo, apesar da ausência de ideologias, como não protestar? E sim, fomos malcriados. Estúpidos? Também. E alarves, pois claro. Fomos vulgares, dissemos palavrões, muitos, fizemos gestos obscenos, ainda mais, provocámos, cuspimos, insultámos, ameaçámos, agitámos punhos e bandeiras, mostrámos o sangue e os dentes e fizemos um escarcéu de bradar aos céus.

Fomos jovens. E fomos contestatários. Na rua. Para todos verem. Porque outros jovens antes de nós, igualmente contestatários, assim nos disseram: os nossos pais, a geração de Abril. Se podíamos ter protestado de outro modo? Poder, podíamos, mas não seria a mesma coisa. Não teria havido televisões, ninguém nos teria ouvido, não teria havido um editorial, não se teria feito história.

E não, não gostámos do epíteto: geração rasca. Não gostámos das palavras, mais duras que o tal par de tabefes, e engolimo-las em seco quando, sem outra saída ou solução à vista, nos rendemos às provas globais. Estupefactos e sem reacção, perdemos esta batalha, mas nem por isso a guerra. A guerra ainda mal começara.

Adaptámo-nos. Aprendemos. Amadurecemos. Crescemos. Não nos esquecemos. Nunca. E do epíteto colado à testa fizemos a nossa força. Contra a vontade de muitos, entrámos para a universidade mais ao menos ao mesmo tempo das propinas, lá está, apenas ao alcance de poucos. Não é por acaso.

Inevitavelmente, e sem a lição aprendida, voltámos à rua como dantes, mostrámos o que não podia, mas pode, ser mostrado, fomos outra vez mal-educados e vulgares, mas não deixámos de segurar o canudo e a vida com as duas mãos. Hoje somos professores, dirigentes políticos, engenheiros, arquitectos, advogados, músicos, escritores, médicos, atletas, cientistas, doutorados.

E percorremos o mundo e as estrelas de bandeira erguida enquanto falamos com orgulho do nosso país, das nossas origens, da nossa saudade. E, ironia das ironias, em vez de renegar o epíteto de geração rasca, trazemo-lo tatuado no peito para que ninguém se esqueça. E, ironia das ironias, para geração rasca, não nos demos nada mal.

Se calhar precisávamos mesmo de um safanão, não sei, um par de tabefes para acordar, parar, aprender e crescer. Não sei. Mas sei. Sei que num dia de Primavera, mais precisamente a 16 de Maio de 1994, um editorial mudou a minha vida. Mesmo não estando de acordo e precisamente por não estar de acordo. Por tudo isto, um obrigado a Vicente Jorge Silva, em nome da minha geração.
 

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