Sono pode servir de “bola de cristal” para risco de Alzheimer

Um sono profundo, duradouro e reparador pode levar à redução dos níveis da proteína tóxica associada à doença de Alzheimer – a beta-amilóide, concluiu um estudo que acompanhou 32 pessoas ao longo de nove anos e que foi liderado por investigadores da Universidade da Califórnia, em Berkeley (EUA).

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Equipa de cientistas sugere que um sono profundo e restaurador pode retardar a doença Miguel Manso

A qualidade do sono pode estar directamente relacionada com o aparecimento e a progressão de Alzheimer, ao influenciar os níveis da proteína tóxica que lhe está associada – a beta-amilóide, revela um estudo liderado pela Universidade da Califórnia, em Berkeley (EUA). No estudo, que durou nove anos e foi agora publicado na revista científica Current Biology,  a equipa de investigadores combinou duas variáveis: a qualidade do sono nocturno de 32 pessoas saudáveis, entre os 60 aos 80 anos, e a acumulação no seu cérebro da beta-amilóide, o ingrediente principal das placas que se formam à volta dos neurónios e que são responsáveis pelo aparecimento e progressão da doença de Alzheimer.

“Descobrimos que o sono que está a ter neste momento é quase como uma bola de cristal a dizer-lhe quando e a que velocidade se desenvolverá a patologia de Alzheimer no seu cérebro”, afirma em comunicado Matthew Walker, professor de psicologia e neurociência da Universidade da Califórnia, em Berkeley, e um dos autores do artigo. Para a experiência, cada participante passou por uma noite de sono de oito horas, enquanto era submetido a uma polissonografia, um exame ao sono, que consiste num conjunto de testes que registam ondas cerebrais, frequência cardíaca, níveis de oxigénio no sangue e outras medidas fisiológicas de qualidade do sono. Nas 48 horas que antecederam o exame, todos os participantes abstiveram-se de cafeína, álcool e sestas diurnas e dormiram durante uma média de sete a nove horas em cada uma das duas noites.

Ao longo do estudo que durou quase uma década, os investigadores acompanharam, com intervalos de um ou dois anos, a taxa de crescimento da proteína beta-amilóide no cérebro dos participantes, utilizando a tomografia por emissão de positrões (PET), uma técnica de imagem médica recente que utiliza moléculas que incluem um componente radioactivo, derivado da glicose, de forma a detectar e localizar reacções bioquímicas associadas não só a doenças neurológicas, como também a doenças das áreas da oncologia e cardiologia. A partir daí, compararam os níveis de beta-amilóide dos indivíduos com os seus perfis de sono. 

Os resultados mostraram que os participantes no estudo que tiveram um sono mais fragmentado e menos profundo foram os mais susceptíveis de mostrar um aumento de beta-amilóide. Um aumento que não é possível quantificar, em valores médios, uma vez que os investigadores analisaram as oscilações na concentração de beta-amilóide a partir das imagens da PET. “Se o sono profundo e restaurador pode retardar esta doença, devemos fazer dele uma grande prioridade. E se os médicos souberem desta ligação, podem perguntar aos seus pacientes mais velhos sobre a qualidade do seu sono e sugerir o sono como estratégia de prevenção”, explica em nota enviada à imprensa Joseph Winer, autor principal do estudo e aluno de doutoramento do Centro de Ciência do Sono Humano da Universidade da Califórnia, em Berkeley.

Através da análise da qualidade do sono e sua repercussão nos níveis de beta-amilóide, os neurocientistas Matthew Walker e Joseph Winer encontraram, então, uma forma de estimar, com algum grau de precisão, o período em que é mais provável que a doença de Alzheimer atinja uma pessoa durante a sua vida. Quanto mais elevada for a concentração dessa proteína tóxica, maior é a tendência de uma pessoa desenvolver a doença. Como esclarece ao PÚBLICO Joseph Winer, “para que um sujeito passe de uma concentração de ‘zero’ beta-amilóide para uma acumulação substancial são necessários alguns anos. Estima-se que possa levar mais de 10 anos.”

​“Se o sono profundo e restaurador pode retardar esta doença, devemos fazer dele uma grande prioridade. E se os médicos souberem desta ligação, podem perguntar aos seus pacientes mais velhos sobre a qualidade do seu sono e sugerir o sono como estratégia de prevenção”, explica o autor principal do estudo.

Quanto aos próximos passos, os investigadores pretendem trazer para o estudo participantes que corram um risco elevado de contrair Alzheimer e implementar métodos que possam aumentar a qualidade do seu sono. Joseph Winer conta-nos que “a melhor maneira de melhorar a qualidade do sono é dando a nós próprios a oportunidade de dormir oito horas, sem recorrer a distracções, como smartphones, na hora que antecede a ida para cama. Se as pessoas tiverem dificuldade em dormir, recomendamos que falem com um médico especialista no sono ou outro profissional que possa fornecer ferramentas de tratamento para melhorar a qualidade do sono, tais como a terapia cognitiva comportamental para insónia.”

“De facto, se conseguirmos baixar o risco de Alzheimer, melhorando o sono, seria um avanço significativo e esperançoso”, conclui Matthew Walker.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) estima que, em todo o mundo, cerca de 48 milhões de pessoas sofrem de demência, número que tende a aumentar num futuro próximo. A doença de Alzheimer ganha destaque, ao representar cerca de 60% a 70% de todos os casos de demência. Em Portugal, estima-se que esta doença sem cura afecte cerca de 60 mil pessoas.

O Alzheimer é uma doença neurodegenerativa, que resulta na perda irreversível de células neuronais, devido à acumulação de substâncias tóxicas que impossibilitam a comunicação entre as diferentes áreas cerebrais. Esta doença surge, na maioria das vezes, após os 65 anos e caracteriza-se pela perda de determinadas funções ou capacidades intelectuais, como a memória, a orientação, a compreensão e a atenção. Depois dos 85 anos, a taxa de incidência é grande, com a doença a atacar metade da população.

Actualmente, não existe nenhum exame específico de diagnóstico, para além de testes sanguíneos, avaliações neuropsicológicas ou exames de imagem. Um diagnóstico que é ainda dificultado pelo facto de muitos dos sintomas precoces do Alzheimer poderem ser associados à velhice. Tratando-se de uma doença sem cura, o seu tratamento é feito à base de fármacos que atenuam os sintomas.

O psiquiatra e neuropatologista alemão Alois Alzheimer (que deu o nome à doença), identificou em 1906 as primeiras placas de beta-amilóide e de novelos neurofibrilares numa autópsia a uma doente. A placa tóxica conhecida como beta-amilóide, resulta da acumulação da proteína beta-amilóide no cérebro, formando depósitos sólidos. Esta acumulação acontece fora das células e muito antes de a doença dar sinal. Já os novelos neurofibrilares são formados pela proteína tau. Numa célula nervosa saudável, a proteína tau ajuda na formação de estruturas proteicas, chamadas “microtúbulos”, e que são essenciais para a comunicação entre os neurónios. Na doença de Alzheimer, a proteína tau deixa de funcionar correctamente, separando-se dos microtúbulos e criando formas desorganizadas que os obstruem. Um dos objectivos dos investigadores norte-americanos passa também por examinar a associação entre o sono e as alterações na tau.

Texto editado por Andrea Cunha Freitas

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