Crónica

O meu amigo Vicente

O que nos vai fazer falta, muita falta, é a tua imensa juventude. A tua capacidade de te indignares com o errado, o abuso de poder, a “safadeza”

Desta vez não tens razão. Tu que detestas distinções, honrarias, salamaleques e toda essa “tralha”; tu que recusaste medalhas, condecorações, homenagens e outras distinções, não tens razão para te aborreceres. Tudo o que agora escrevem e dizem de ti é justo, só peca por ser pouco. Foste o jornalista mais importante do último quartel do séc. XX. Criaste jornais e revistas que mudaram a paisagem mediática do país. Cunhaste expressões que fizeram história. Assinaste reportagens e entrevistas decisivas. Mantiveste durante décadas colunas e lugares de opinião que marcaram o que podíamos pensar sobre a realidade. Disseste-nos coisas que nos permitiram pensar e viver presentes antes inimagináveis.

Comecei este texto por te contradizer. Porque assim começou a nossa amizade. Uma brava discussão há 40 anos na reunião de redação semanal do Expresso! Sempre gostaste da contradição, do debate, de vozes autónomas. Não apenas por ser essa a matriz da nossa profissão, mas por convicção, por saberes que a vida entre yes men não tem graça nenhuma. Mas não vou escrever o teu obituário. Sobre ti teria tanto a dizer que seriam preciso muitos livros para o contar. Venho discordar. Como tu gostas.

Dirão agora que sem ti ficamos mais pobres. Eu digo que ficamos mais velhos. O que nos vai fazer falta, muita falta, é a tua imensa juventude. A tua capacidade de te indignares com o errado, o abuso de poder, a “safadeza”. A inquietação curiosa. O teu entusiasmo contagiante. A irreverência para desmontar falsas “respeitabilidades”. A radicalidade de pensamento. A acutilância arguta. O teu humor culto e cosmopolita. A tua inesgotável e sempre juvenil generosidade…

Sim, à dor da tua ausência que partilhamos com a tua querida família, os teus inúmeros amigos e quantos te respeitam e querem bem, junta-se essa falta, essa imensa falta. Nestes tempos cinzentos, de cálculo e medo, tão favoráveis à expressão de todos os egoísmos, nestes tempos que nos trazem velhos e cautelosos, que falta nos faz a tua irrequieta juventude!

Cada um nasce na sua circunstância própria. Muito raramente acontece a vida trazer-nos pessoas com quem estabelecemos laços mais fortes do que os de sangue. São amigos que se tornam irmãos. A mim aconteceu-me o Vicente.

Sugerir correcção