Investimentos do BES no sector financeiro “nem sempre eram devidamente suportados”

Antes da resolução em Agosto de 2014, enquanto era só Banco Espírito Santo, a instituição financeira investiu no BES Vénétie, nos seguros e no Moza Banco. Nem sempre com sustentação económica, diz o relatório da Deloitte

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Miguel Manso

Sem análise do valor de investimento e sem saber se foram realizadas em condições de mercado – são estas as algumas das falhas que a Deloitte encontrou em aplicações do BES até Agosto de 2014 no sector financeiro e em fundos de investimento, na auditoria especial que realizou aos actos de gestão entre 2000 e 2018. Três dos activos em causa provocaram perdas líquidas de cerca de 500 milhões nesse período.

No período anterior a 2014, escreve a auditora no relatório conhecido esta terça-feira, “os investimentos realizados em entidades do sector financeiro nem sempre se encontravam devidamente suportados, nomeadamente através de estudos de valor que sustentassem os valores de investimento”.

“Neste período foram concretizadas operações de investimento relevantes, nomeadamente no BES V [Banque Espírito Santo et de la Vénétie, em França], BES Vida [antes Tranquilidade e mais tarde GNB Vida], Moza Banco [em Moçambique], entre outros”, especifica a Deloitte.

Só nestes três investimentos, a Deloitte estima que tenha havido perdas líquidas para o BES/Novo Banco (acumuladas entre 2000 e 2018) de 501 milhões de euros: 380 milhões com o BES Vida/GNB Vida, 100 milhões com o BES V e 21 milhões com o Moza Banco, segundo os dados apresentados no relatório agora disponível.

“De salientar ainda”, sobre o mesmo grupo de activos, “a concretização de aquisições parciais do BES V e BES Vida a partes relacionadas do BES”, sublinha ainda a Deloitte. E, neste contexto, a Deloitte volta a fazer reparo à forma de gestão antes de 2014. “É de referir para todo este período a inexistência de uma análise, realizada por fórum independente, a transacções com partes relacionadas que confirmasse se as transacções se encontravam a ser realizadas em condições de mercado, e que não existiam conflitos de interesses aquando das respectivas deliberações, entre outros aspectos conexos”.

Nos fundos de investimento, também no período até 2014, a Deloitte não encontrou, sequer, suporte documental para a decisão do BES neles investir.

“Os investimentos realizados em fundos de investimento não se encontravam devidamente suportados, não tendo sido obtida documentação de suporte para a generalidade dos actos de gestão associados a determinadas subscrições de capital, nem documentação sobre o racional do investimento”.

Os fundo registaram perdas no período anterior e posterior a Agosto de 2014, sublinha a Deloitte, mas “determinados fundos de investimento actualmente detidos pelo Novo Banco eram utilizados como veículos em processos de reestruturação de crédito”, informação que “não se encontrava documentada nos diversos momentos de investimento nos fundos que actuariam desta forma”.

Os reparos vêm na auditoria especial que a Deloitte fez aos actos de gestão do BES/Novo Banco durante o período de 2000 a 2018, que o Parlamento disponibilizou esta terça-feira, no site oficial da Assembleia da República.

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