Cacela, a bela

“Nesta aldeia de Cacela, tudo parece possível de sonhar: as quimeras, as utopias, outras coisas mais simples e descomplicadas”. O leitor Luis Robalo partilha a sua experiência por este recanto algarvio.

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Está posta uma mantilha de luz incidente e intensa cobrindo o mar e a terra. Um dia de verão pleno, sem buliço, o calor abafa, as estações do ano não se contam em função dos prazeres e desprazeres, vontades e não vontades dos homens, simplesmente desfilam no seu decorrer habitual, umas seguindo outras até recomeçarem de novo.

O céu é mas não se apresenta azul, as terras nos verdes e castanhos que não se distinguem, as areias da cor única que têm e mostram, as águas, quietas, mansas, do infindo mar, nem em verdes nem azuis e muito menos plúmbeas. Tudo está coberto, abafado, por um manto dourado de luz.

A incidência compassada das marés define se os barcos, de escala humana, frágeis, flutuam nas águas-espelho ou na terra negra, lameiral, lodosa, útero exuberante do cultivo de ostras a ameijoas.

Na geometria matematicamente calculada deste povo árabe, as horas do dia e do tique-taque universal, ainda medida com instrumentos pouco mais do que rústicos, ampulhetas talvez, ditam com rigor preguiçoso as actividades dos homens, as profanas, as religiosas. Pesca e agricultura. Também, os momentos do descanso: para uns o nada fazer, para outros, muito menos em número e vontade, a poesia.

No cais, neste momento vazio e mudo do festim diário dos pescadores, Ibn Darraj al-Qastalli, poeta andaluz destes algarves, olha para as suas poesias a germinarem juntamente com os bivalves nas poças de água deste pantanal em ria baixa.

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Na aldeia, a vida borbulha dentro das casas. As mulheres nos seus véus negros, opacos, continuam prisioneiras, dentro e fora, que para elas é sempre dentro de casa.

As crianças, livres até deixarem a idade de serem crianças, brincam anarquistas, intermitentemente, aqui e ali, onde lhes calha brincar e serem eternas. Os homens, passeiam de mãos dadas, ou encontram-se contemplativos, encostados nas paredes amarelentas das casas com muito poucas janelas.

Atrapalho-me com o chapéu-de-sol, a mala térmica e a toalha de riscas garridas, e mais ainda com os chinelos de dedo, nada práticos. Desço a escadaria suave, junto ao cemitério na direcção da ria, que devo atravessar para chegar à praia. Cá em baixo no porto dos pescadores, saudo Ibn Darraj, sentado no murete que delimita o pequeno cais, absorto na sua pesca de palavras, nem me vê, nem me sente.

Vou gozar a praia, apanhar conquilhas que andam tóxicas, comer uma bola de Berlim, e sentir a imensidão do areal, mal possuído como homem da cidade, de um entendimento próprio do que seja a dimensão das coisas e dos objectos. Poderei vir a comer outra bola de Berlim.

Regresso no final do dia, cansado, mas preenchido por essa lassidão sensual do período de férias. Já não encontro Ibn Darraj a pescar rimas nas palavras.

O mais certo é ele ter abandonado este pouso há mais de mil e trezentos anos, e eu não ter dado conta. Estou de férias. Não deixo no entanto de estar convencido de o ter visto hoje de manhã e quase termos trocado conversa. Eu dei-lhe os bons dias, não me lembro se respondeu.

Nesta aldeia de Cacela, tudo parece possível de sonhar: as quimeras, as utopias, outras coisas mais simples e descomplicadas.

Em Cacela há poucos restaurantes, uma pequena fortaleza fantasma, uma igreja de portas quase sempre fechadas, o muro das fotografias e a Casa da Muralha, onde na sua açoteia suspensa nas essências etéreas dos paraísos, me despeço do sol todos os dias em que aqui estou e aguardo com a maior tranquilidade e prazer o anúncio da Lua cheia, num enorme laranja-vivo, a aprisionar as pregas do mar, reflectindo inflada de vaidade a sua luminosidade exuberante.

Nesta açoteia, neste farol imaginário em que sou faroleiro temporário, espero a visita do poeta andaluz Ibn Darraj al-Qastalli para desgarrarmos poemas nossos, enquanto sorvemos num prazer demorado uma amêndoa amarga com muito limão e gelo: sem dúvida a melhor bebida de verão.

Ao fim da noite já saudamos juntos - abraçados e um pouco trôpegos é certo -, a vida e os seus mistérios, com esta sensação um pouco estranha mas regeneradora, que podemos sempre ter, depois das férias, a possibilidade de um recomeço heróico das nossas vidas.

Entretanto, ele sussurra-me, ou é do vento que passa:

“Quando a aurora chega, dorme e guarda como avaro o seu perfume.
Quando cai a noite, espalha-o e exalta-o.”

Esta Cacela tão antiga e minha.

Luis Robalo, autor do blogue Redondo Vocábulo

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