David Lloberas
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Um catalão em Portugal, um ano na Lusitânia

Fala-se a mesma língua em Portugal e na Galiza? Esta era uma das perguntas que queria resolver ao longo do ano, se as duas falas ainda são inteligíveis entre si. E a conclusão à qual cheguei é que sim, mesmo falando de maneiras diferentes constituem um mesmo domínio linguístico.

Agora, umas semanas depois de ter finalizado um ano extraordinário, localizado exactamente a 1000 quilómetros em linha recta do sítio onde me senti como em casa, sem estar na minha casa, posso expor algumas das conclusões às quais chegou o catalão que escreve este texto depois de um ano de intercâmbio Erasmus em Portugal.

Em primeiro lugar, devo esclarecer o em Portugal. A precisão territorial que a minha formação requer ter-me-ia obrigado a escrever em Lisboa mas, pelo seguinte motivo, acho mais justo dizer Portugal: tive a imensa sorte de morar numa das residências universitárias dos Serviços de Acção Social da Universidade de Lisboa, o que me deu a oportunidade de conviver com estudantes de todas as partes (continente e ilhas, interior e litoral) do país, e, portanto, de ouvir diferentes sotaques, conhecer as diferentes realidades territoriais e perceber os planos de vida que cada situação permite.

Neste contexto, fico com a sensação de ter conseguido compreender bastante bem o que é esse pedaço da Península Ibérica chamado Portugal, ao mesmo tempo que tentava que esse pedaço do outro lado da Península composto pelos Países Catalães também fosse, pelo menos, conhecido. Tive a sorte de ter estado rodeado de colegas que, além de inquisitivos, são multifacetados e cultos. Foi fantástico terem-me apresentado as badalhoquices do Bocage, os filmes de Manoel de Oliveira e as canções do Variações, ao mesmo tempo que eu explicava que o all i oli não é um molho turco, ficava surpreendido com o facto de a série Merlí ser tão conhecida no estrangeiro, ou mostrava a nossa tradição de fazer castells. Também gostei de poder ter respondido a perguntas sobre a nossa história, a nossa condição de bilingues e, durante o mês de Outubro, sobre os protestos que aconteceram como resultado da sentença condenatória dos presos políticos catalães.

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Durante este ano em Lisboa, mergulhei profundamente na sua cena cultural e artística. A Gulbenkian e o Museu Nacional de Arte Antiga ao domingo, a Feira da Ladra às terças e sábados, e a programação do Cinema Nimas a cada dia. É deveras extraordinário poder ter visto filmes actuais como Parasitas e O Farol no mesmo cinema onde um mês depois retornavam ao grande ecrã a Laranja Mecânica e 2001 — Odisseia no Espaço. Mas tenho de dizer que achei um pouco estranho (e assustador) o facto de as pipocas doces terem tanto sucesso nos cinemas portugueses. Bom, ninguém é perfeito. Por outro lado, é preciso afirmar que, depois de tanto tempo sem teatro, a programação do Festival de Teatro de Almada ajudou a acalmar a sede que me tinham despertado as peças de teatro online disponibilizadas pelo Teatro Nacional Dona Maria II.

Aprender uma língua tão próxima é um processo semelhante ao de tirar a carta de condução: todos sabemos como funciona a estrada, mas para ser um bom condutor é necessário praticar. Surpreendeu-me terem uma canção de aniversário tão comprida — nós consumamos isso rapidamente, já que há pessoas que ficam envergonhadas no centro das atenções, e pessoas como eu, que são capazes de esquecer qualquer canção com mais de dois versos. Há ainda léxico potencialmente exportável dada a sua utilidade e simplicidade, visto que com uma só palavra conseguem expressar conceitos para os quais nós precisamos, no mínimo, de duas para o fazer: “o luar”, uma palavra muito poética, que nós dizemos “a luz da luar”; e “algures”, um homólogo genial das palavras “algo” e “alguém”, que têm equivalentes, tanto em catalão como em castelhano, ao passo que para a primeira, nos vemos forçados a articular algum lugar.

Fala-se a mesma língua em Portugal e na Galiza? Esta era uma das perguntas que queria resolver ao longo do ano, se as duas falas ainda são inteligíveis entre si. E a conclusão à qual cheguei é que sim, mesmo falando de maneiras diferentes constituem um mesmo domínio linguístico. É por este motivo que acharia interessante uma reciprocidade radiofónica e televisiva dentro da lusofonia ibérica, do mesmo modo que há tantos anos se pede esta reciprocidade audiovisual entre os diferentes territórios de fala catalã: Catalunha, o País Valenciano e as Ilhas Baleares. Sei que ultimamente tem havido produções luso-galegas, como as séries Vidago Palace (2017) ou Auga Seca (2020), ou que, num âmbito diferente, existiu a proposta do Liceo da Corunha em participar na liga portuguesa de hóquei em patins. Sigam nesse caminho, é sempre fixe ter os galegos por perto!

Em jeito de despedida desta etapa, fico com as bonitas paisagens sobre o Tejo que o percurso do voo de regresso me permitiu ver desde a janela do avião.

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