Mali e Maurícia – agitações com resultados distintos

A junta militar que tomou o poder no Mali no dia 18 de Agosto procedeu esta semana a importantes mudanças na hierarquia das forças armadas e serviços de inteligência no sentido de se consolidar. Do outro lado de África, no Índico, a ilha Maurícia continua a debater-se com os efeitos do desastre ambiental decorrente de grande derrame de petróleo na sua costa sul, gerando protestos até contra o Governo.

A Comunidade Económica dos Estados da África do Oeste (CEDEAO) tem vindo a negociar com o auto-designado Conselho Nacional de Salvação do Povo (CNSP), dirigido pelo coronel Assimi Goita, uma transição dirigida por personalidade civil ou militar na reserva. Os atuais detentores do poder pretendem uma transição de três anos, conduzida por eles próprios, enquanto a CEDEAO pretende no máximo um ano. 

Estas negociações são parte de um bloco. Movimentos tuaregues dispõem-se a falar com a junta imediatamente, propondo que as conversas decorram na estratégica cidade de Kidal, centro da região tuaregue maliana. Os referidos movimentos pretendem a aplicação de medidas de larga autonomia.

A oposição ao derrubado Presidente Ibrahima Boubacar Keita, agrupada na plataforma M-5, declarou apoio ao golpe mas reivindica papel mais importante na transição, alegando ter iniciado os protestos de rua contra Keita durante os meses anteriores. Um argumento mal recebido pelos militares, pouco dispostos a dividir o poder e que estão também a negociar com outras forças políticas parlamentares, incluindo o partido do Presidente afastado. 

O CNSP tem recebido vários embaixadores acreditados em Bamako e, apesar da tradicional influência francesa no Mali, atribui-se grande importância à conversa com o embaixador russo. Alguns dos oficiais autores do golpe estudaram em Moscovo e parecem interessados em equilibrar os relacionamentos exteriores do país. Há um precedente na República Centro Africana, país também em guerra, onde a presença russa cresceu muito na formação do novo exército e até na composição da segurança do chefe de Estado. Não é impossível mais uma luta de influência nos bastidores, entre a França e a Rússia, em África.

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Manifestação em Port Louis por causa do grande derrame petrolífero EPA/LAURA MOROSOLI

Só não há negociações com os movimentos jiadistas, ativos no Norte do país com irradiações para países vizinhos. Os militares asseguram que o golpe não impede o prosseguimento da guerra antiterrorista. A ONU tem forças importantes no terreno.

Um quadro geral visto na União Africana como de grande sensibilidade em matéria de segurança politico-militar.

Na ilha Maurícia o quadro incide na segurança ambiental mas ganhou altos contornos políticos, embora por vias democráticas.

O petroleiro japonês Wakashio, no dia 25 de Julho, encalhou nuns recifes a sul da ilha e derramou cerca de mil toneladas de fuel e diesel nas praias, de enorme valor num país onde o turismo é setor importante e que, devido aos baixos números de covid-19, procurava continuar a atrair turistas. Duas mil toneladas puderam ser retiradas do navio mas as operações foram muito demoradas, revelando falta de meios num país com altos índices de Desenvolvimento Humano e de governabilidade democrática.

Aliás, a autoridade portuária que saber quais são os locais de armazenagem dessas duas mil toneladas. 

O Governo do primeiro-ministro Pravin Jugnauth, hoje considerado como de centro-direita (apesar do seu partido ser dissidência de antigo partido de esquerda), afirma fazer tudo o que está a seu alcance e além, de preparar processo judicial contra o comandante do navio e respetiva empresa,  criou uma comissão especial de apoio financeiro às vitimas do desastre ambiental – habitantes da zona, pescadores, comerciantes das praias e hotéis. 

Mesmo assim, o assunto foi somado a outras reivindicações e alguns movimentos sociais tomaram a iniciativa, apoiada pela oposição parlamentar, de lançar uma campanha que já realizou uma manifestação massiva contra o Governo na capital, Port Louis. Segundo os organizadores, a manifestação teria contado com mais de cento e vinte mil pessoas, enquanto círculos governamentais falam, no máximo, em setenta e cinco mil.

Nesta campanha tem ganho mais dimensão o já conhecido ativista Bruneau Laurette e um seu adjunto, Sebastien Lenett. Declarou intenções de solicitar ao Presidente da República a demissão do primeiro-ministro, dissolver a Assembleia e convocar imediatamente eleições antecipadas. O Governo de Jugnauth julga tais pedidos como insignificantes.

Na União Africana, as diferenças na condução e resultados de ambas as agitações causam sorrisos. Num caso produziu-se um golpe de Estado com pretensões de poder por, pelo menos, três anos e, no outro, pedidos para eleições antecipadas.