Capriles diz que a agenda de Guaidó está “esgotada” e defende participação nas eleições venezuelanas

Ex-candidato presidencial e opositor do chavismo critica “governo da Internet” liderado pelo autoproclamado presidente interino da Venezuela e desafia-o a desistir do boicote às legislativas de Dezembro.

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Henrique Capriles foi derrotado por Hugo Chávez nas presidenciais de 2012 e por Nicolás Maduro em 2013 MIGUEL GUTIERREZ/EPA

O antigo candidato presidencial e figura de relevo da oposição ao regime chavista na Venezuela, Henrique Capriles, distanciou-se de Juan Guaidó e defendeu a participação dos opositores a Nicolás Maduro nas eleições legislativas de Dezembro.

Através de um vídeo publicado nas redes sociais, Capriles criticou a estratégia seguida por Guaidó – que quer boicotar a votação, por considerá-la uma fraude – e disse que a oposição não pode deixar os críticos do Presidente socialista “sem opção”.

“A oposição tornou-se demasiado previsível para Maduro. O que havia já se esgotou, a agenda que foi apresentada não deu resultado. Temos de abrir caminho”, argumentou Capriles, candidato derrotado nas presidenciais de 2012 (contra Hugo Chávez) e de 2013 (contra Nicolás Maduro).

“Ninguém está a dizer que vamos resolver a crise política e social com as eleições, mas aquilo que defendo é que, se não lutarmos, vamos arrepender-nos”, insistiu o dirigente político do partido Primeiro Justiça. “Não vamos deixar o povo sem opção. Não vamos oferecer a Assembleia Nacional a Maduro. Convoco as pessoas a mobilizarem-se”.

Apesar das enormes – e cada vez mais notórias – divergências entre os vários partidos e organizações que se opõem a Maduro e ao Partido Socialista Unido da Venezuela (PSUV), a tomada de posição de Capriles constitui um dos mais directos desafios a Guaidó, desde que o presidente da Assembleia Nacional se proclamou chefe de Estado interino, no início de 2019, com o apoio de países como Portugal, Estados Unidos, Brasil ou Reino Unido.

No vídeo publicado no Facebook e no Twitter, Henrique Capriles não se coibiu de criticar a estratégia e a postura do governo paralelo liderado por Guaidó, que diz viver quase exclusivamente da Internet e não apresentar avanços.

“Há uma desconexão maior entre a classe política e o povo que está nas ruas. As pessoas não criticam apenas o regime, também nos criticam a nós, na oposição”, alertou Capriles. “Não podemos continuar a brincar ao governo da Internet. Ou se é governo, ou se é oposição. Não se pode ser as duas coisas”.

Guaidó mantém posição

Citado pela Reuters, Juan Guaidó afirmou, no entanto, que o país precisa de soluções e não de “divergências bombásticas entre líderes”. E numa mensagem publicada no Twitter pela sua equipa de Comunicação, o político venezuelano insistiu no boicote às legislativas, por falta de transparência e de competição livre entre os partidos e o PSUV

“Temos muitas coisas por fazer e hoje, mais do que nunca, ratificamos a nossa posição de não participar na fraude de 6 de Dezembro”, proclamou Guaidó.

A decisão de boicotar as eleições foi tomada depois de o Supremo Tribunal de Justiça ter nomeado os membros da Conselho Nacional Eleitoral – uma competência da Assembleia Nacional, segundo a Constituição. 

O ministro dos Negócios Estrangeiros de Maduro, Jorge Arreaza, revelou na terça-feira, que o Governo venezuelano convidou as Nações Unidas e a União Europeia a “observarem e acompanharem” as eleições de Dezembro. Uma posição que pretende demonstrar que as críticas de Guaidó são infundadas.

Atascada há vários anos numa gravíssima crise económica, social e humanitária, que a pandemia da covid-19 veio aprofundar ainda mais, a Venezuela dá palco, há mais de um ano, a um braço-de-ferro entre Guaidó e Maduro.

Os dois líderes dizem deter legitimidade política para a governar, acusam o outro de “usurpação” e, por via disso, paralisaram ainda mais um país e suas instituições, já por si bloqueadas.

Guaidó e os seus aliados internacionais apontam o dedo ao chavismo, acusando o regime de apropriação total do aparelho económico, político e institucional do Estado, violação de direitos humanos, patrocínio de execuções extrajudiciais e afastamento e detenção ilegais de opositores.

Já Maduro e os seus apoiantes – que incluem, fora de portas, a Rússia, a China e a Turquia – dizem que Juan Guaidó é patrocinado pelo “imperialismo americano” e que tem como objectivo asfixiar a economia da Venezuela, abrir o sector petrolífero do país aos Estados Unidos e desmantelar o modelo socialista bolivariano que Chávez sonhou e concebeu.