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Filipe Ferreira

Tónan Quito leva-nos a encontrar Tchékhov no meio do nevoeiro

A rentrée teatral é ocupada em Lisboa e no Porto pelo gesto desmedido do encenador ao abordar, num só fôlego, quatro peças de Tchékhov. A Vida Vai Engolir-vos é uma experiência em que personagens e narrativas se diluem umas nas outras.

O jovem dramaturgo Tréplev crê que o tédio (ajudado pelos ciúmes) é o grande responsável pelo mau humor da sua mãe. Preparou um pequeno teatro para agradar à sua progenitora, mas não consegue afastar a sensação do quanto a senhora odeia uma peça que nem conhece ainda. Ao detalhar ao seu tio as razões que estarão na base da rejeição pela sua mãe, a famosa actriz Arkádina, Tréplev quase cava o próprio túmulo, ao mesmo tempo que, no arranque de A Gaivota, nos constrói uma pequena galeria de obsessões temáticas de Anton Tchékhov: está convencido de que Arkádina o odeia porque ele a lembra “constantemente que ela já não é jovem” (o drama do envelhecimento e a passagem do tempo), mas também porque ele não suporta o teatro das convenções, em que as pessoas “se esforçam por repescar uma moral qualquer nas cenas e nas frases mais banais” – o teatro, afinal, que trouxe glória à sua mãe –, enquanto ele escreve em busca de “novas formas” (a fricção entre o novo e o antigo).