Rui Gaudêncio
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Rui Gaudêncio

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Festa do Avante: duas EP solidárias

Seguindo o exemplo de milhares de camaradas, decidimos comprar duas EP. Afinal, e apesar da lotação máxima abaixo de 17 mil pessoas, as EP continuam a ser vendidas a bom ritmo. Assim, cada visitante da Festa não será apenas um mas muitos mil, como Abril, e na sua presença trará a vitória de mais uma Festa.

A decisão não foi apenas repentina, mas premente. Apesar da distância de 2000 quilómetros (estamos de volta a Londres e ao trabalho) que nos impede, ano após ano, de marcar presença na Festa do Avante, desta vez vamos comprar duas EP (Entradas Permanentes) para os três dias da Festa.

Nem podia ser de outra maneira. Basta olhar para as imagens recentes da Feira do Livro de Lisboa, onde milhares de pessoas passeiam livremente sem cumprir a distância mínima de segurança de dois metros, para compreender a hipocrisia diante dos nossos olhos: o problema não é a Festa, nunca foi, o problema é o PCP, o problema são os trabalhadores e os sindicatos, o problema é a luta por direitos e melhores condições de vida, a luta contra o monopólio das empresas, a luta contra a privatização do Estado, a exigência de melhor saúde, educação, habitação, liberdade e liberdade de expressão, igualdade racial, de género, orientação sexual e crença religiosa e custa-me tanto estar em pleno século XXI e ainda a lutar pelo óbvio.

Está tudo ligado e a Festa acaba por cumprir o papel da pequena aldeia gaulesa, hoje e sempre a resistir contra o invasor. 

Porque uma coisa é certa: enquanto existir uma aldeia gaulesa, existirá um invasor. E conquanto exista um invasor predisposto a atacar contratos de trabalho e a segurança laboral enquanto nos converte a todos em colaboradores sem outro direito para além de colaborar, haverá quem lhe resista.

É inerente, é inconsciente, é reflexo, é uma luta óbvia contra o desigual, contra o injusto, contra o favorecimento, o compadrio e o nepotismo. Em suma, é uma luta de classes e assim será enquanto as mesmas nos forem impostas.

Por isso, e seguindo o exemplo de milhares de camaradas, decidimos comprar duas EP. Afinal, e apesar da lotação máxima abaixo de 17 mil pessoas, as EP continuam a ser vendidas a bom ritmo. 

Assim, cada visitante da Festa não será apenas um mas muitos mil, como Abril, e na sua presença trará a vitória de mais uma Festa.

No fundo, tudo se resume a isto: a realização da Festa é a sua vitória. Apesar das restrições, apesar das exigências, apesar da campanha incessante dos meios de informação, apesar da hipocrisia, da ignorância e do medo.

Enquanto assim for, comprar a EP não é apenas um acto de solidariedade mas um dever e a confirmação da luta contra a maioria, contra o invasor, contra os romanos, em nome da resistência, hoje e sempre.
 

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