Macron no Iraque para apoiar “combate pela soberania”

Presidente francês anuncia em Bagdad iniciativa conjunta com as Nações Unidas de apoio aos líderes iraquianos.

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Emmanuel Macron e o Presidente iraquiano, Barham Salihat, numa conferência de imprensa em Bagdad EPA

A primeira visita de Emmanuel Macron ao Iraque, esta quarta-feira, é também a primeira de um chefe de Estado estrangeiro desde a nomeação, em Maio, de um novo primeiro-ministro, Moustafa al-Kazimi, na sequência do forte movimento de contestação que encheu em 2019 as ruas das principais cidades do país. “Falámos sobre segurança regional e agradeci o papel da França no combate ao terrorismo no Iraque”, afirmou o Presidente iraniano, Barham Salih, no fim do primeiro encontro do Presidente francês em Bagdad.

Macron tem como principal objectivo da visita “lançar, em conjunto com as Nações Unidas, uma iniciativa para acompanhar o reforço da soberania” de um país há anos encurralado pela rivalidade e pressão dos seus dois principais aliados, o Irão e os Estados Unidos. Uma realidade exacerbada por Donald Trump, e pela sua política de “pressão máxima” contra Teerão, e que pode estar prestes a sofrer alterações – o Presidente americano reafirmou recentemente a intenção de retirar os militares que permanecem no Iraque, entre perto de 5000 soldados e diplomatas americanos.

Em Janeiro, quando um ataque americano em Bagdad matou o general iraniano Qassem Soleimani, “número dois” do ayatollah Ali Khamenei e descrito pela CIA como o “homem mais poderoso do Médio Oriente”, Macron pediu “contenção” num conflito que se temeu poder ter consequência bem mais sérias no país e na região. Teerão respondeu na altura com ataques contra as forças americanas no Iraque. Na sequência desses ataques o Irão abateu, por engano, um avião ucraniano com 176 pessoas a bordo.

O “combate pela soberania do Iraque é essencial”, defendeu em antecipação da visita Macron, que aterrou em Bagdad vindo de Beirute (Líbano). Só essa luta, disse ainda o chefe de Estado francês, pode impedir que “este povo e este país que tanto sofreram não cedam à fatalidade, a ser dominado pelos poderes regionais e pelo terrorismo islamista”. “Há dirigentes e um povo que têm essa consciência e que querem tomar em mãos o seu destino. O papel da França é ajudar”, acrescentou.

Por razões de segurança não foram anunciados pormenores sobre a agenda de Macron. Sabe-se que será recebido pelos principais dirigentes políticos na capital e que, ao contrário do que tem acontecido com outros dirigentes estrangeiros, não irá a Erbil, a capital do Curdistão iraquiano.

Jihadistas franceses

Esta visita foi antecedida pela do seu chefe da diplomacia, Jean-Yves Le Drien, que em Julho esteve no Iraque a defender a necessidade de o país “se dissociar das tensões dos seus vizinhos”. No final da semana passada, foi a vez da ministra das Forças Armadas, Florence Parly, passar por Bagdad e por Erbil, onde recordou a importância de não baixar os braços na luta contra os jihadistas. “Estamos convencidos que o combate contra o Daesh não terminou. Estamos ao vosso lado”, disse.

Questionado ainda em Beirute sobre a presença de jihadistas franceses em prisões iraquianas, Macron repetiu que uma vez que foram estes “a escolher em liberdade partir para teatros estrangeiros e envolverem-se em actos de terrorismo num Estado soberano” faz sentido que enfrentem “a justiça nesse Estado”.

Dos 150 franceses detidos por pertencerem ao Daesh, quase todos se encontram em campos e prisões geridos por grupos curdos, no Noroeste. Há ainda 11 franceses em centros de detenção sob responsabilidade de Bagdad, lembram os jornais franceses. Todos foram já julgados e condenados à morte, o que chegou a provocar polémica em Paris com activistas dos direitos humanos e advogados a acusarem Macron de estar a “terceirizar” o julgamento de cidadãos franceses