Covid-19: OMS aconselha uso de esteróides apenas em casos graves

O novo guia da OMS sobre o uso de corticosteróides em doentes com covid-19 sublinha que estes fármacos não devem ser utilizados para tratar doentes que não estejam em estado grave. Estudo indica que podem reduzir o risco de morte até 20%.

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Os corticosteróides estão incluídos na lista de medicamentos essenciais da OMS e disponíveis em todo o mundo a um baixo custo REUTERS

A Organização Mundial de Saúde (OMS) recomenda, a partir desta quarta-feira, que os doentes que tenham manifestações graves da covid-19 sejam tratados com corticosteróides — tipos de esteróides anti-inflamatórios — uma vez que estes reduzem significativamente a taxa de mortalidade da doença.

Num documento de orientação para médicos e todos aqueles os que estejam envolvidos na tomada de decisões na área da saúde, publicado esta quarta-feira, a autoridade da saúde afirma que o facto de os corticosteróides serem medicamentos de baixo custo, serem fáceis de administrar e estarem disponíveis no mercado para tratamento de outras patologias teve influência nesta recomendação.

Ainda assim, nem todos os doentes diagnosticados com o novo coronavírus poderão tomá-los: diz a OMS que não recomenda a administração dos tratamentos em doentes que tenham apenas sintomas leves da doença e ainda menos naqueles que são assintomáticos. “Dadas a provas com certeza moderada de uma redução importante na taxa de mortalidade”, o painel concluiu que os doentes graves ou críticos com covid-19 devem ter acesso a tratamento com corticosteróides sistémicos. Por outro lado, o painel concluiu que nos casos de manifestações leves da covid-19 os dados actuais indicam que provavelmente não geraria benefícios e poderia causar danos. “Além disso, considerando a perspectiva da saúde pública, o painel alerta que o uso indiscriminado de qualquer terapia para a covid-19 tem o potencial de esgotar rapidamente os recursos e privar os doentes que realmente podem beneficiar das terapias”, lê-se no documento da organização.

Além da redução da taxa de mortalidade, estes medicamentos podem ter influência na necessidade e na duração de ventilação de um determinado doente, no tempo de hospitalização em enfermaria ou em unidades de cuidados intensivos do doente e no número de dias necessários para a “resolução” dos sintomas da doença. Os corticosteróides estão incluídos na lista de medicamentos essenciais da OMS e disponíveis em todo o mundo a um baixo custo.

Sete ensaios clínicos

A decisão da OMS foi baseada nas conclusões de uma série de ensaios clínicos realizados em grupos de pacientes a quem estavam a ser administrados estes medicamentos, análise que foi esta quarta-feira publicada pela revista científica JAMA (Journal of the American Medical Association). Os sete ensaios clínicos internacionais chegaram à mesma conclusão: o tratamento de casos graves de covid-19 com corticosteróides reduz o risco de morte até 20%.

A análise reuniu dados de ensaios em que a hidrocortisona, dexametasona e a metilprednisolona (três tipos de corticosteróides) estavam a ser administradas, estudos estes que tiveram lugar no Reino, Brasil, Canadá, China, França, Espanha e Estados Unidos. E concluiu que os medicamentos foram benéficos para os pacientes mais doentes, independentemente da idade, sexo ou número de dias em que a pessoa teve sintomas. As descobertas agora publicadas como um todo vêm reforçar os resultados já obtidos por um destes ensaios em Junho, quando um grupo de investigadores da Universidade de Oxford, no Reino Unido, anunciava ter encontrado as primeiras provas de que um medicamento podia ajudar no tratamento de doentes diagnosticados com covid-19. Este anúncio foi considerado histórico porque foi a primeira vez que investigadores provaram que existia um tratamento eficaz capaz de reduzir a taxa de mortalidade da covid-19.

Nessa altura, o grupo anunciou que a dexametasona, um esteróide com um baixo custo já usado para tratar outras patologias (distúrbios do sistema endócrino, reumatismo, artrite, doenças da pele, oftálmicas, gastrointestinais ou respiratórias), “podia ajudar a salvar vidas”.

Este estudo, que recebeu o nome de Recovery (Randomized Evaluation of COVid-19 thERapY, em inglês) foi estabelecido como um ensaio clínico feito de forma aleatória para testar uma grande variedade de tratamentos e medicamentos que poderiam ter influência na evolução clínica de doentes com covid-19. “Um total de 2104 doentes foi escolhido de forma aleatória para receber seis miligramas de dexametasona uma vez por dia (por via oral ou através de injecção intravenosa) e durante dez dias. [Este primeiro grupo] foi comparado com um outro de 4321 doentes escolhidos da mesma forma e que receberam apenas os cuidados habituais [de um doente com covid-19]. Entre os doentes que receberam os cuidados normais e durante 28 dias, a taxa de mortalidade foi mais alta do que no grupo que necessitou de ventilação (41%), intermédia nos doentes que necessitavam apenas de oxigénio (25%) e menor entre aqueles que não necessitaram de intervenção respiratória (13%)”, lê-se no documento divulgado em Junho.

O estudo da Universidade de Oxford é, inclusive, o ensaio considerado pela OMS para esta recomendação que teve a maior amostra de doentes e desde a altura da sua publicação, em Junho, que a dexametasona tem sido utilizada em vários países para tratar doentes com covid-19. Martin Landray, professor de medicina e epidemiologia da Universidade de Oxford que trabalhou no estudo da dexametasona e que desempenhou um papel importante na análise publicada esta quarta-feira na JAMA, diz à Reuters que os resultados significam que os médicos em todo o mundo podem usar estes medicamentos em segurança para salvar vidas. “Estes resultados são claros e imediatamente aplicáveis na prática clínica”, referiu.

"Incertezas constantes"

Apesar de recomendar a sua utilização, a OMS destaca, no documento, que há dados que ainda não são conhecidos sobre estes medicamentos. Da lista de dúvidas da autoridade da saúde fazem parte os efeitos a longo prazo dos corticosteróides, que a OMS garante que vão ser analisados em estudos futuros, as consequências destes fármacos na imunidade e no risco de reinfecção e também os efeitos que podem ter na replicação do SARS-CoV-2 no organismo.

“Os efeitos clínicos dos corticosteróides sistémicos em pacientes com manifestações não graves de covid-19 são desconhecidos e podem vir a ser estudados”, lê-se no documento, que menciona ainda que os benefícios de outras terapias utilizadas para tratamento da covid-19, como o remdesivir, devem também ser comparados com os efeitos dos corticosteróides.

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