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Pós-pandemia: “Será que os nossos filhos vão poder viajar como nós pudemos?”

©Paulo Nunes dos Santos
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O fotógrafo português Paulo Nunes dos Santos, pai de duas crianças, viveu um período de confinamento muito semelhante ao de outros progenitores em todo o mundo. Com uma diferença. Transportados por imagens slide projectadas por um velho Kodak Carousel — que Paulo resgatou de uma prateleira, onde cumpria, há quase 20 anos, função meramente decorativa —, o seu filho pré-adolescente e a sua filha de quatro anos "viajaram" até à Laguna Colorada, no deserto de Atacama, até à floresta amazónica, no Brasil, e até ao planalto boliviano. Tudo isto no vale dos lençóis, de olhos bem abertos, no conforto do seu lar, na Irlanda. 

As primeiras fotografias do projecto Home, que Paulo partilha agora com o P3, surgiram em Março de 2020, "durante uma sessão de música disco improvisada na sala de estar". "Os miúdos estavam a dançar ao som de LCD Soundsystem, com apenas a luz de uma disco ball", descreve, em entrevista pelo WhatsApp. "Resolvi posicionar o projector de slides e projectar umas imagens de uma viagem que eu fiz, ainda antes dos miúdos existirem, à Bolívia e ao Chile, há cerca de 15 anos." As crianças ficaram extasiadas com as imagens do deserto projectadas nas paredes e nos seus corpos e Paulo ficou "obviamente fascinado pelo efeito visual que se criou". Não tardou a perceber que tinha em mãos um possível projecto fotográfico, que se transformaria num jogo que envolveria toda a família num período de luta contra a monotonia.

"A Millie queria, à força, que os flamingos numa lagoa do deserto boliviano fossem projectados no quarto dela. O Oliver decidiu que uma imagem da floresta amazónica ligaria bem com o livro Deus das Moscas que estava a ler." As crianças interessavam-se pelos locais que estavam representados nas imagens e Paulo, um apaixonado pelas viagens, partilhava com eles os episódios que lhes estavam associados. "A viagem faz parte da pessoa que sou, hoje em dia", diz ao P3. "Quero incutir-lhes o desejo de viajar e conhecer novos lugares e culturas." Mas, num futuro pós-covid-19terão os mais novos possibilidades de viajar tão facilmente como teve a geração anterior? "Será que se sentirão seguros em viagem ou terão de experienciar o mundo através das páginas da National Geographic?"

Apesar da sua vasta experiência em zonas de conflito enquanto colaborador de vários jornais internacionais – como The New York Times, The Guardian e Al Jazeera –, Paulo nunca pensou vir a viver uma realidade semelhante a uma pandemia. "É quase como viver num filme apocalíptico", compara. "No início [... ], enquanto pai, comecei a sentir ansiedade relativamente ao futuro dos meus filhos. Se seriam forçados a uma vida de confinamento." Após os dois meses que dedicou ao registo de Home, a perspectiva tornou-se mais optimista. "Os miúdos ficaram ainda mais intrigados sobre os lugares que são, para eles, desconhecidos e houve um despertar do desejo de um dia poderem ver aqueles lugares com os próprios olhos. Estou certo que os meus filhos, e as gerações que se seguem, irão continuar com em busca de culturas e lugares diferentes."

Paulo e a família estão, presentemente, em viagem numa carrinha pão-de-forma, “de frente para Oceano Atlântico, na costa Oeste da Irlanda”. Não é, para eles, um lugar desconhecido, uma vez que residem na Irlanda. "Mas é certamente muito mais além do que há seis meses pensávamos ser possível.”

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