A ciência na pandemia

Em ciência também se erra. Por vezes, e isto pode parecer estranho, erra-se mesmo tentando “fazer tudo bem”, e há que o assumir e, sobretudo, explicar. E só se atua eficazmente com investimento sério, previsível, continuado e integrado em ciência, que cubra todas as áreas.

A atual pandemia teve o “mérito” de colocar a ciência no centro das atenções. Não só se multiplicaram intervenções de especialistas, como aumentou a consulta de informação científica por parte de cidadãos; algo muito positivo para um tema que tende a parecer abstrato. Para além de teorias da conspiração e tratamentos “miraculosos”, a questão que mais aflige quem me contacta tem a ver com discussões entre cientistas, que se digladiam na praça pública (de início entre os extremos de “é só uma gripe!”, e “é o Apocalipse!”), dirimindo argumentos, gráficos, equações e currículos. E todos eles, aparentemente, cheios de razão. Mas a ciência não devia ser sempre a mesma, “vocês” estarem todos de acordo?

De facto, o que não deve acontecer com a comunicação de ciência é o que acontece por vezes na comunicação política, económica, cultural ou futebolística. Onde se seleciona só o que “encaixa” numa visão particular, qualquer resultado é justificável a posteriori, e especialistas mudam de opinião sem explicar porquê, e esquecendo o que defenderam antes. Ou, ainda pior, defendem empenhadamente posições que a realidade já desmentiu.

Em ciência também se erra. Por vezes, e isto pode parecer estranho, erra-se mesmo tentando “fazer tudo bem”, e há que o assumir e, sobretudo, explicar. Porque a amostra era pequena, porque não se consideraram todas as variáveis (quase nunca é possível), porque o modelo tinha falhas, porque os resultados só eram válidos num contexto específico.

Quando falamos de pessoas é ainda mais complicado. Por exemplo, para testar uma nova terapia num modelo animal não só utilizamos seres vivos muito parecidos entre si (não é o caso de qualquer população humana relevante), como podemos dividi-los em grupos, tê-los num ambiente constante, só fornecer a terapia a alguns, observá-los 24 horas por dia, controlar totalmente o que comem, o que fazem, etc. Limitamos escolhas, para evitar que a experiência nos falte à verdade. Agora imaginem que era com pessoas. Ou propomos a experiência “lógica” e rapidamente percebemos da sua impossibilidade; ou nos frustramos com a dificuldade de lidar com seres complexos e autónomos, cujos diferentes hábitos e circunstâncias (culturais, sociais, económicos) podem alterar a experiência, mesmo aceitando participar nela com a maior boa vontade (e podem não aceitar, claro).

É nas fronteiras dessa incerteza que temos de trabalhar, e é sobretudo isto que explica que as “experiências” com a pandemia, focadas sempre num inevitável curto prazo localizado, sejam diferentes em países com meios similares. Essa caraterística pode até condicionar escolhas políticas, que se podem tentar “justificar”, utilizando a incerteza da ciência de certo modo contra ela. E não podemos só repudiar este tipo de comportamento, mas também perceber que para mobilizar uma ação imediata é importante um discurso convicto, enquanto o discurso científico (responsável) tende a ser prudente e de longo prazo. Temos é de ter toda a informação disponível de forma transparente e reconhecer de forma clara em cada momento o que sabemos e o que desconhecemos, o que podemos prever com maior ou menor confiança. No fundo, saber onde acaba a evidência científica e começa a opção política, a qual pode envolver outras preocupações (sociais, económicas), que cientificamente talvez parecessem secundárias.

Mas só se atua eficazmente com investimento sério, previsível, continuado e integrado em ciência, que cubra todas as áreas. E com uma educação que esteja ao mesmo nível. Sabemos muitos dos problemas que a humanidade enfrenta, mas pode aparecer de repente outro que põe tudo em causa, como sucedeu agora. A questão não se resolve com ações pontuais, compreensíveis do ponto de vista político (e voltamos à diferença entre uma coisa e outra), como abrir linhas de investigação só para a área específica que naquele momento nos aflige e obrigar toda a gente a trabalhar nela. Por mais importante que o problema pareça hoje, não só estamos a negligenciar outros, como é pouco provável que esta estratégia produza mais sinal que ruído. Porque a ciência não funciona assim, não é como contratar Ronaldo ou Messi e exigir (justificadamente) títulos logo a seguir. É investir na formação, dar condições e tempo aos juvenis, assumir que muitos deles ficarão longe da Liga dos Campeões e poderão não passar da competência profissional em divisões secundárias (onde convém que tenham carreiras...); mas onde contribuirão para uma sociedade mais capaz de reagir em situações como esta. O objetivo último deve ser esse, e se os resultados práticos deste tipo de estratégia podem não parecer aliciantes no imediato, o que temos de fazer é continuar a trabalhar para todos sermos cidadãos-adeptos de ciência, cada vez melhores, mais entusiastas, mais informados. E mais exigentes.

O autor escreve segundo o novo Acordo Ortográfico