O Presidente apanhado pela exaltação da crise

Com um telefone para reclamar a glória nas redes e lugar certo nos telejornais, não faltará quem tenha boas razões para tentar humilhar os políticos

Uma mulher exaltada apanhou esta sexta-feira o Presidente da República numa visita à Feira do Livro do Porto e desencadeou um episódio que dá que pensar. Não tanto por ser original, pelas suas palavras inflamadas, ou pelo facto insólito de não largar o telefone que supostamente usava para gravar a sua coragem ou a razão do seu protesto. Não tanto sequer pela perturbação que causou ao Presidente, forçando-o a um momento em que se mostrou visivelmente privado da sua capacidade de resposta. O episódio vale como prenúncio do que vem aí, quando a crise apertar ainda mais e o descontentamento larvar das redes sociais não couber nos canais tradicionais do protesto social. Já nem a bonomia e popularidade do Presidente-rei escapam à escalada de tensão social e política que se sente neste final de férias.

Uma cidadã com uma microempresa apanhada nas malhas da crise económica e forçada a viver com 300 euros por mês (a acreditar na sua versão) tem o direito à exaltação, ao protesto e à denúncia. Mas não foi por expressar uma realidade profunda que teve amplo destaque nas televisões. O episódio apareceu no horário nobre porque simboliza essa noção crescente de que nas sociedades democráticas está em curso um combate sem tréguas entre os deserdados e os políticos, aqui destituídos da dignidade dos seus cargos e do estatuto das suas funções.

Não sabemos se a história da mulher era verosímil. Não sabemos as razões que a levaram a querer filmar o monólogo com o Presidente. Como não temos razões para acreditar que fosse apenas a peça de uma engrenagem montada por um partido populista para incomodar o Presidente. Sabemos sim que, nestes tempos, é normal que uma pessoa perturbe a agenda do chefe de Estado, tenha direito à glória nas televisões e mereça ainda aplauso de alguns que, dizendo-se defensores da democracia, aplaudem incidentes que a degradam.

Marcelo não saiu bem do filme e isso ajudou a popularizar o momento. Mas até ele, o mais popular dos políticos, tem de se preparar para o que aí vem. Em breve, poderemos deixar de ter o privilégio de ver o chefe de Estado deambular livremente entre os cidadãos sem o aparato de segurança que conhecemos em outros momentos ou latitudes. A hostilidade crescente em relação aos políticos, não duvidemos, vai agravar-se com o agravamento das condições económicas. Com um telefone para reclamar a glória nas redes e lugar certo nos telejornais, não faltará quem tenha boas razões para tentar humilhar os políticos. A crise, a dignidade do Estado e a paz social têm dificuldade em viver juntas.