“Não tem piada”: pais do TikTok criticados por “brincadeira” com pessoas deficientes

A brincadeira consiste em mostrar fotografias de pessoas com deficiências aos filhos para os assustar.

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O objectivo da brincadeira é assustar as crianças com fotografias falsas dos seus novos professores Reuters/MUHAMMAD HAMED

A rede social TikTok está a ser criticada por permitir um desafio viral em que adultos se filmam a mostrar aos filhos fotografias e vídeos de pessoas com deficiências visíveis para os assustar. O objectivo da brincadeira, que é apelidada de “desafio do novo professor”, é convencer os mais novos que as pessoas nas fotografias lhes vão dar aulas.

As activistas pelos direitos das pessoas com deficiência Lizzie Velásquez e Melissa Blake, que estão entre os alvos da brincadeira, têm tentado alertar para o problema do jogo nas suas próprias redes sociais.

“Esta tendência de fingir que se está numa chamada de vídeo com alguém que tem uma deficiência, ou é um bebé, ou alguém com uma fotografia maluca não tem piada”, resume Lizzie Velásquez num vídeo publicado no TikTok e no Twitter. A norte-americana de 31 anos nasceu com uma rara condição genética (MFLS, ou síndrome de Marfan) que lhe dá uma aparência prematuramente envelhecida devido à perda de tecido adiposo e falta de gordura subcutânea.

“Ele tem uma cara assustada”, descreve Velásquez, sobre a reacção de uma criança ao ver a sua cara. “Se vocês são adultos e têm crianças nas vossas vidas, por favor não lhes ensinem que é normal ter medo de alguém que é diferente.”

Velásquez tornou-se conhecida em 2006, quando tinha 17 anos, ao ser apelidada da “mulher mais feia do mundo” num vídeo do YouTube. Desde então publicou vários livros sobre a tolerância e a sua experiência pessoal e trabalha para alertar para as batalhas e direitos das pessoas com deficiência.

“Os adultos que acham que não há problema, e pior… Os adultos que acham que isto tem piada deviam saber que é errado. Não há desculpas”, escreve, por sua vez, Melissa Blake num artigo de opinião publicado no site Refinery29.

Contactada pelo PÚBLICO, a equipa do TikTok disse que ia "investigar a situação”, mas não confirmou se a rede social já estava a par do jogo viral, nem se havia medidas para evitar a proliferação deste tipo de conteúdo.

"Não somos uma piada. Somos pessoas"

Não é a primeira vez que a rede social — actualmente no centro da guerra comercial dos EUA com a China — é criticada por não ser sensível a minorias. Em Dezembro, a aplicação de partilha de vídeos chinesa admitiu ter reduzido o alcance do conteúdo de alguns utilizadores para evitar bullying na plataforma. Incluir a sigla LGBTQ+, ser estrábico, mostrar sinais de deficiência visível, cicatrizes faciais ou sinais ou excesso de peso diminuía o número de utilizadores a quem os vídeos eram mostrados. O objectivo era evitar que vídeos que os vídeos de utilizadores de “risco 4” (que o TikTok define como “pessoas susceptíveis de bullying devido à sua condição física ou mental”) fossem visualizados por um grande número de pessoas — que os podiam criticar.

Na altura a empresa explicou que a abordagem foi “criada com boas intenções”, mas admitiu que não era a melhor solução.

Melissa Blake, porém, não culpa apenas o TikTok. A mulher, que nasceu com a síndrome Freeman-Sheldonm, uma perturbação muscular e genética que leva à perda auditiva gradual, escoliose e dificuldade de locomoção, culpa a falta de reflexão dos pais que usam a sua cara “para fazer os filhos chorar”.

“Esta brincadeira do TikTok só veio reforçar a importância da representação da deficiência”, escreve Blakle. “Temos de normalizar o acto de ver pessoas que não se parecem connosco ou com os membros da nossa família. Temos de ensinar à próxima geração que as nossas diferenças devem ser celebradas, não temidas ou ridicularizadas”, sublinha a norte-americana.

“As pessoas com deficiências não estão aqui para ser ridicularizadas. Não somos uma piada. Somos pessoas”, conclui a norte-americana.

Acrescentada resposta do TikTok

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