Opinião

A falácia do sucesso nas candidaturas ao Ensino Superior

O efeito desta política de facilitismo é, a prazo, a desvalorização dos diplomas e a valorização das redes familiares e sociais (e políticas) de apoio. Baixa o peso do diploma e sobe o valor da “cunha”.

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Miguel Manso

Como lhe compete, o ministro Manuel Heitor congratula-se com o aumento do número de estudantes a chegarem ao ensino superior neste ano de COVID. Depois, envereda por uma narrativa muito criativa de justificações que vão desde o reconhecimento pelos jovens dos méritos de estudar até ao efeito do desemprego. Esta nuvem de fumo tenta encobrir a razão principal, o facilitismo dos exames do secundário. A pressão já visível nos últimos anos para que os padrões tradicionais fossem abandonados, aproveitou as condições especiais deste ano para ultrapassar tudo e dar prémio a todos.

Infelizmente, um prémio para todos é o mesmo que deixar de premiar quem merece e é esse o estado a que chegamos. Promete-se uma entrada no Ensino Superior equivalente a 90% da geração de 18 anos. Seria motivo de congratulação se o ensino secundário tivesse conseguido entusiasmar 90% dos alunos e se a nossa economia estivesse em condições de absorver 90% dos jovens em atividades associadas com um diploma de Ensino Superior. Infelizmente, nenhuma destas hipóteses é verdadeira e estamos a criar falsas expectativas numa geração que vai culpar-nos daqui a poucos anos pela enorme frustração que inelutavelmente vai sofrer. Estamos a incubar um aumento dramático da já elevada emigração qualificada jovem e a criar fortes desequilíbrios na sociedade. Vamos mostrar a esta geração que afinal não valeu a pena estudar e que melhor fariam ter-se inscrito e trabalhado no partido certo para subir na vida!

Teachers gave implausibly high predicted grades” era o título de um jornal inglês na semana passada. Em Inglaterra, o problema chega às primeiras páginas. Na ausência dos tradicionais exames finais, o acesso às boas universidades depende este ano das notas internas e os professores não se fizeram rogados, ofereceram notas muito acima do normal. O Governo ainda tentou corrigir a anomalia através de um processo de renormalização, mas cedo desistiu transferindo para as universidades o difícil trabalho de seleção daqueles que poderão acompanhar o nível de exigência dos cursos em que pretendem inscrever-se. Nas boas universidades, o número de entradas não subirá muito pelo que apenas os melhores lá chegarão. Só que o processo de seleção é mais difícil pela ausência de uma boa demonstração das suas competências atingidas e do seu potencial previsível.

Em Portugal, não só foi dado maior peso às notas internas (apesar da recorrente queixa das enormes desigualdades entre escolas, mesmo entre escolas estatais) como foram criadas regras especiais para garantir que todos tinham boas notas nos exames, apesar das falhas na sua preparação. E, finalmente, o ministro Manuel Heitor, pode regozijar-se com os resultados: 90.000 jovens chegarão ao ensino superior. Não, não teremos ainda 90% da geração a entrar imediatamente no Superior: andávamos pelos 40% e damos um passo seguro para forçar a promessa dos 60%. E isto seria muito bom se fosse o resultado de um processo sério de reforço da qualidade do Secundário e se o Superior fosse já capaz de absorver estes jovens em linhas de educação e formação suficientemente diversas e ajustadas às realidades da nossa sociedade. Mas nada foi feito neste sentido. Não se conhece um único impulso da política educativa para preparar os jovens para um ambiente de trabalho mais diverso e mais exigente. Não se conhece um único impulso para que as linhas de educação e formação no Secundário e no Superior sejam mais diversas sem deixar de ser exigentes.

A função do sistema educativo deveria ser a de apoiar todos os jovens a progredirem no sentido de atingirem o seu potencial e os preparar para a realização dos seus sonhos de vida num ambiente de crescente incerteza. É um caminho difícil, mas é crucial no mundo de hoje e ainda mais num pequeno país há demasiado tempo estagnado nesta margem atlântica de uma Europa em perda de influência. Não é com facilitismo que vamos lá. A aparente recompensa imediata virá a ter um sabor demasiado amargo para a geração enganada e aumentar os desequilíbrios sociais que forçam as migrações traumáticas.

Depois de cinco anos de políticas de facilitismo enganador, o próprio autor aparece agora a dissimular as razões do seu sucesso. Não, a subida do número de candidatos ao Concurso Nacional de Acesso para o máximo de sempre (em percentagem da coorte) não resulta principalmente do reconhecimento do valor do estudo nem do desemprego que espera estes jovens. É a simples consequência das ordens dadas ao IAVE (o instituto “independente” que elabora os exames e estabelece as normas de correção) para que “todos fiquemos bem”. Mas todos já sabemos que o slogan é enganoso: estes jovens estão a ser enganados e muitos ficarão mal.

O efeito desta política de facilitismo é, a prazo, a desvalorização dos diplomas e a valorização das redes familiares e sociais (e políticas) de apoio. Baixa o peso do diploma e sobe o valor da “cunha”. A promoção social pelo estudo é prejudicada, reforçando-se a garantia de sucesso aos mais bem ligados pela rede de “apoio informal”. Num país desigual, estamos a reforçar as condições para a transmissão desta desigualdade para as gerações futuras.

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