Demitiu-se o comissário europeu irlandês que violou regras da covid-19

Phil Hogan tinha uma das pastas mais importantes na Comissão Europeia, a do Comércio. Mas participou num jantar com 89 outras pessoas e mostrou não conhecer as regras de quarentena do seu país.

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"Não pus ninguém em risco", assegurou Phil Hogan Yves Herman/Reuters

O comissário europeu do Comércio, Phill Hogan, envolvido num escândalo por violação de regras da covid-19 no seu país, a República da Irlanda, demitiu-se nesta quarta-feira, cada vez mais pressionado a fazê-lo pelo Governo de Dublin. A decisão final, no entanto, caberia à presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen.

A demissão de Hogan constitui um grande golpe para a Comissão Europeia, uma vez que o irlandês era visto como um político experiente e influente, escreve o Politico.

Ursula von der Leyen vê-se agora obrigada a remodelar o seu colégio de comissários e não há garantia de que Dublin continue com a pasta do Comércio, o que enfraquece a posição do país nas negociações do “Brexit”. 

Hogan participou há uma semana num jantar de comemoração dos 50 anos do clube de golfe do Parlamento irlandês com 82 convidados, entre os quais o então ministro da Agricultura, Dara Calleary, que se demitiu do cargo na sexta-feira. Por juntar tantas pessoas, o jantar violava as restrições ao ajuntamento de pessoas, que tinham sido agravadas na véspera, para fazer face a um aumento do número de infecções pelo novo coronavírus.

Vários deputados foram castigados por terem participado na confraternização, um ministro demitiu-se, e Hogan foi criticado pelo próprio primeiro-ministro, Micheál Martin, e pelo vice-primeiro-ministro, Leo Varadkar, que é do seu próprio partido. A demissão de Hogan começou então a ganhar força, depois de, no sábado, Martin e Varadkar tem apelado ao comissário para que “considerasse a sua posição”.

Phil Hogan já pediu várias vezes desculpas, reconhecendo ter errado, mas nunca tinha posto a hipótese de se demitir. Só que numa entrevista à televisão nacional, na terça-feira, onde esperava desculpar-se e fazer as pazes com os irlandeses, demonstrou desconhecer que devia ter feito quarentena, quando regressou de Bruxelas para Dublin, a 31 de Julho. “Não pus ninguém em risco, já tinha feito um teste de despistagem da covid-19”, assegurou. As suas declarações acabaram por agravar a animosidade entre os seus compatriotas.

“Parece claro que foram violadas regras de saúde pública”, declararam Martin, Varadkar e Eamon Ryan, líder do terceiro partido da coligação governamental irlandesa, Os Verdes.

Durante o seu mandato enquanto comissário do Comércio, Hogan ficou ligado ao tratado de livre comércio estabelecido entre a UE e o Mercosul. Mas longe de o beneficiar, isso manchou a sua reputação entre os agricultores - no mandato anterior foi comissário da Agricultura -, que viram o acordo como prejudicial para a agricultura europeia. O anterior Parlamento irlandês chegou mesmo a sinalizar a sua oposição à ratificação do tratado com o Mercosul.

Phil Hogan ainda chegou a tentar uma candidatura à liderança da Organização Mundial do Comércio este ano, mas acabou por desistir, em Junho, invocando os seus compromissos com a União Europeia, particularmente nas negociações com a China, Estados Unidos e Reino Unido.

A candidatura não terá angariado grande apoio em Bruxelas, mas, perante a possibilidade da sua saída, especulou-se que a pasta do Comércio poderia ir para um país mais proteccionista, como França ou Itália, um debate que volta a estar em cima da mesa com a demissão de Hogan. 

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