Opinião

Antecipe-se ao Inverno que aí vem

A estação que se aproxima prevê-se desafiante e é fundamental planear agora a nossa saúde.

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"A humanidade sem um raciocínio sólido ponderado não tem sentido. Deixemos o medo e a ansiedade de lado" Francisco Romao Pereira

A pandemia afectou a saúde da população portuguesa em mais do que uma maneira.

Como sociedade e país fizemos um trabalho excelente no início da pandemia covid-19 em Portugal, ajudando a diminuir a sobrecarga do Serviço Nacional de Saúde e o impacto na população dos problemas de saúde associados à repentina propagação do vírus pelo mundo. A integração e dedicação dos diferentes profissionais de saúde, e não só, na luta contra este problema foi excepcional e os resultados notaram-se.

Mas associado a esse trabalho inicial está uma consequência não intencional: os doentes começaram a ter medo de ir ao hospital. Em alguns casos essa posição foi tão extrema que alguns preferiram sofrer em casa de patologias tratáveis. O medo que a pandemia gerou, impedindo as pessoas de procurar o adequado atendimento médico para determinados sinais e sintomas que requerem atenção imediata (como dor no peito) e o acompanhamento oportuno de doentes com patologias crónicas que necessitam de vigilância regular (como a hipertensão arterial e a diabetes), é por demais evidente e acima de tudo infundado.

O Inverno aproxima-se e prevê-se desafiante. Com a probabilidade real de virmos a ter um novo aumento no número de casos de infecção por covid-19 e a habitual maior prevalência das infecções respiratórias por outras causas (como a gripe sazonal) torna-se essencial preparar-nos agora para que o impacto na nossa vida, na sociedade em geral e nos cuidados de saúde seja menor mais tarde.

Não devemos descuidar a nossa saúde. Sabemos, por exemplo, que em determinados doentes a infecção por covid-19 tende a traduzir-se em doença mais grave por causa de problemas de saúde concomitantes crónicos que afectam o doente, como a Hipertensão, a Asma ou outros. É por isso crucial que esses mesmos problemas estejam adequadamente vigiados e tratados mantendo o doente um seguimento periódico com o seu médico e uma boa adesão à terapêutica. Só assim podemos de alguma forma reduzir a hipótese de doença grave em caso de contágio. Este é o momento de se antecipar ao inverno e dar à sua saúde a atenção que merece, através de rotinas de vigilância e prevenção que têm vindo a ser esquecidas ultimamente.

A redução global no número de doentes observados e é algo que me preocupa e que nos deve preocupar a todos. A verdade é que, de uma forma geral, tanto a nível nacional como mundial, se verificou uma quebra marcada no número de visitas às unidades de saúde por um qualquer motivo. A este facto junta-se, ainda, a redução acentuada na concretização de exames de diagnóstico, o que nos permite concluir que a população não está a cuidar da sua saúde nem a preparar o inverno que se avizinha exigente para todos nós.

Lembro-me do caso de um doente de 55 anos com “dor no peito há três dias” com irradiação para o braço esquerdo associado a dificuldade respiratória e que apresentava alterações eletrocardiográficas compatíveis com evento coronário agudo. Quando confrontado com o motivo pelo qual permaneceu tanto tempo em casa evitando a necessária observação e resposta médica atempada, respondeu-me que “tinha medo do vírus!”.

Os doentes estão com medo mas não só. Muitos optam por ficar longe dos cuidados de saúde para “não incomodarem” porque assumem que o médio está sobrecarregado. Uma doente sentia-se culpada por ir à consulta de vigilância da Hipertensão Arterial para a realização dos seus exames habituais: “Estamos a passar uma fase difícil onde os médicos arriscam a sua própria vida e eu venho aqui incomodar…até me sinto mal!”

Os demais problemas de saúde continuam a existir e devem ser tratados. Os profissionais de saúde estão aqui para garantir a adequada prestação de cuidados com a necessária protecção e precaução face ao possível risco de contágio. Assim sempre o foi e agora ainda mais. As unidades de cuidados de saúde adaptaram-se de forma rápida e eficaz face à actual pandemia, criando protocolos e circuitos adicionais capazes de garantir a segurança do doente e do profissional de saúde.

Pensar num ressurgimento do vírus e no regresso de restrições mais severas pode ser extenuante. No entanto devemos concentrar-nos naquilo que está sob o nosso controlo e felizmente há muitas coisas que podemos fazer para nos preparar e proteger melhor a nós e aos nossos entes queridos.

A vigilância e o controlo adequado da nossa saúde com o seguimento habitual com o nosso médico assistente e a realização atempada dos respectivos exames quando solicitados é fundamental. Recordo o caso de uma doente com mais de 75 anos que apresentava diminuição do apetite e perda de peso há mais de seis meses associado a icterícia (coloração amarela da pele) recente. A doente não realizou os exames pedidos no início dos sintomas e quando procurou novamente ajuda mais tarde foi-lhe detectada uma neoplasia do cólon já com metastização hepática. Diagnósticos atempados permitem-nos muitas vezes localizar lesões numa fase inicial para a qual temos na maioria das vezes tratamentos mais eficazes.

Optimizar a nossa saúde é a melhor forma de nos protegermos e de garantir um sistema imune capaz. Adoptar um estilo de vida mais saudável com os devidos cuidados alimentares, prática de exercício físico e ausência de consumos nocivos (como o tabaco) são medidas preventivas que devem ser adoptadas.

Outras passam por manter actualizado o boletim de vacinas e em especial a vacinação contra a gripe nos grupos de risco e nos grupos mais vulneráveis. Embora a mesma não o proteja contra o novo coronavírus pode reduzir o risco de hospitalização por um caso grave de gripe e evitar a sobrecarga dos cuidados de saúde. Socialmente devemos manter as recomendações difusamente divulgadas pela Saúde Pública até à data: distanciamento social adequado, uso de máscara facial, higienização das mãos e das superfícies de contacto, evitar tocar na cara, manter-nos actualizados e procurarmos ajuda especializada sempre que necessário.

Estas atitudes podem fazer a diferença individualmente e colectivamente. A humanidade sem um raciocínio sólido ponderado não tem sentido. Deixemos o medo e a ansiedade de lado e vamos viver juntos, preparados de forma sensata, mais responsável, sustentável e com esperança. Comece agora a preparar a sua saúde para o Inverno e tudo vai certamente correr bem.

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