“Novo capítulo” aberto sobre o programa nuclear do Irão

Primeira visita do director da Agência Internacional da Energia Atómica a Teerão redundou em conversações “construtivas”, afirma o Irão. Ricardo Grossi, que assumiu o posto no ano passado, garante que a sua visita não é “política”. Agência da ONU quer inspeccionar dois locais.

Ali Akbar Salehi e Roberto Grossi, depois da reunião
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Ali Akbar Salehi e Roberto Grossi, depois da reunião IRAN ATOMIC ORGANISATION HANDOUT/EPA

A primeira visita ao Irão do novo director da Agência Internacional de Energia Atómica (AIEA) parece ter corrido bem, tendo em conta a afirmação do responsável iraniano para a área nuclear, que apelidou as conversações desta terça-feira em Teerão como “um novo capítulo”. Ao mesmo tempo, Ricardo Grossi, sabendo como é delicado o momento, em que os Estados Unidos procuram por todos os meios prolongar o embargo de vendas de armas ao Irão que termina em Outubro, mesmo depois de derrotados no Conselho de Segurança, fez questão de sublinhar que a sua visita não é política.

“Não há uma abordagem política em relação ao Irão. Há assuntos que precisam de ser tratados… isto não quer dizer que exista uma abordagem política em relação ao Irão”, sublinhou Ricardo Grossi, o argentino que sucedeu a Yukiya Amano em Dezembro.

O impacto da primeira reunião de Grossi, com o responsável do programa nuclear iraniano, Ali Akbar Salehi, foi positivo. “As conversações de hoje foram construtivas”, disse Salehi. “Ficou decidido que a agência continuará a conduzir o seu trabalho de forma profissional e independente e o Irão, também, agirá no âmbito dos seus compromissos”.

Dois anos depois do Presidente Donald Trump ter retirado os Estados Unidos do acordo nuclear com o Irão, assinado em 2015, para impor novas sanções económicas ao país, e numa altura em que o Governo iraniano deu, no final de Junho, um ultimato aos países ainda signatários (China, Rússia, França, Reino Unido e Alemanha) para tentar salvar o documento, tendo em conta que estavam a poucos dias de exceder o limite de urânio enriquecido acordado.

Que o principal responsável do programa nuclear iraniano afirme, citado pela agência de notícias iraniana IRNA, que “um novo capítulo se abriu com esta visita”, mostra um primeiro impacto positivo, embora tudo esteja dependente das movimentações diplomáticas dos EUA. Trump, com as eleições à porta e as sondagens a colocá-lo distante de Joe Biden na corrida à Casa Branca, não parece interessado em compromissos.

Mesmo depois da derrota no Conselho de Segurança, em que conseguiu apenas que a República Dominicana votasse ao seu lado na proposta de prolongar o embargo de venda de armas ao Irão para lá de Outubro, os EUA não desistem de manter em vigor esse embargo que se vem renovando há 13 anos. E, para isso, não desdenha até de recorrer a uma cláusula do acordo nuclear com o Irão do qual se retirou em 2018. A cláusula permite às partes voltar a reinstalar as condições existentes antes de o acordo ser assinado.

Na segunda-feira, depois de um encontro, em Jerusalém, com o primeiro-ministro israelita, Benjamin Netanyahu, Mike Pompeo, o secretário de Estado norte-americano, afirmou que os EUA estão “determinados a usar todas as ferramentas” ao seu dispor para impedir que o Irão “tenha acesso a sistemas de armas avançados, sistemas de defesa antiaérea”. Uns dias antes, numa entrevista à CNBC, Pompeo reiterava: “Não vamos permitir que em Outubro deste ano, como o secretário [John] Kerry [chefe da diplomacia no segundo mandato do Presidente Barack Obama] fez com o seu insensato acordo nuclear, eles [iranianos] comecem a comprar e vender armas.”

Antes da reunião, a AIEA afirmou, em comunicado citado pelo site da CGTN, que o Irão espera que a agência da ONU “mantenha a sua neutralidade em qualquer situação e que se abstenha de entrar nos jogos políticos internacionais”.

Em Junho, o conselho de administradores da AIEA aprovou uma resolução elaborada pelos países europeus, onde pedem ao Governo iraniano que permita aos inspectores da agência aceder a dois lugares para ajudar a clarificar se aí se realizaram actividades nucleares no princípio dos anos 2000.

O porta-voz da Organização da Energia Atómica do Irão, Behrouz Kamalvandi, disse na segunda-feira ao canal de televisão Al-Aram, que o acesso a esses dois locais, um entre as províncias de Isfahan e Yazd e outro próximo de Teerão, poderá ser autorizado se a AEIA não exigir outras visitas.

“Para evitar que os inimigos explorem a situação… estamos a ver formas de minimizar as nossas preocupações e dizer ‘têm acesso, como podem ver não há nada’”, disse Kamalvandi. “Mas este assunto tem de ser resolvido de uma vez por todas”, acrescentou, “para que não peçam depois para inspeccionar noutro lugar da mesma forma”.

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