Como é que as relações românticas podem estar espelhadas nos genes?

Numa investigação científica com mais de 100 casais no Canadá observou-se que a variação num gene pode estar associada às dinâmicas de relações românticas humanas.

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Viu-se que uma variação num gene está relacionada com a demonstração de carinho nas interacções do dia-a-dia Michael Blann/Gettyimages

Que reflexos dos relacionamentos amorosos podemos ver nos nossos genes? Para ter uma imagem mais nítida dessa questão, investigadores do Departamento de Psicologia da Universidade de McGill (no Canadá) foram em busca desses espelhos e analisaram o comportamento e informação genética de casais. Acabaram por ver que variações no gene CD38 podem estar associadas a dinâmicas nos relacionamentos românticos humanos no dia-a-dia. Os resultados estão reflectidos num artigo científico publicado na última edição da revista Scientific Reports.

Para este estudo, a equipa coordenada por Jennifer Bartz analisou dados de 111 casais heterossexuais (222 indivíduos) na área da cidade canadiana de Montreal. Esses casais relataram o seu comportamento social, nomeadamente quando sorriam ou riam uns para os outros, quando faziam comentários sarcásticos, quando perguntavam se o parceiro queria fazer alguma coisa ou lhe davam algo. Também contaram qual a sua percepção do comportamento do seu parceiro e os seus sentimentos durante as interacções com ele durante 20 dias. Obteve-se ainda informação genética de 118 dos 222 indivíduos participantes no estudo – 65 mulheres e 53 homens.

Verificou-se então que uma variação no gene CD38 – a CD38.rs3796863 – estava associada ao comportamento comunitário dos indivíduos, o que inclui (por exemplo) a demonstração de carinho nas interacções do dia-a-dia. Já se sabia que o CD38 está envolvido na secreção de oxitocina (a chamada “hormona do amor”) e ao comportamento de apego nos roedores. Conforme se descreve no artigo científico, a investigação da oxitocina, sobretudo nos roedores, indica que esta hormona influencia uma série de processos comportamentais e cognitivos que sustentam os vínculos em geral, e as relações românticas em específico. Também há algumas provas de que a oxitocina tem um papel nos relacionamentos românticos humanos.

Mas voltemos ao que se soube agora sobre a tal variação no gene CD38 nos humanos. Essa variação tem duas variantes (ou alelos): a A e a C. Portanto, o gene pode estar presente em três combinações (ou genótipos) – a AA, a CC e a AC. Veio a observar-se que era mais provável que os indivíduos com o genótipo CC relatassem que tinham um comportamento comunitário maior com os seus parceiros do que os indivíduos com os genótipos AA e AC.

Também era mais provável que as pessoas com a combinação CC reparassem como os seus companheiros se comportavam em comunidade ou que tivessem sentimentos negativos, como a preocupação, a frustração ou raiva. Notou-se ainda que esses indivíduos contavam que tinham tido níveis mais elevados de “ajustes” nas suas relações, bem como nas percepções de qualidade do relacionamento.

Por fim, detectou-se que o comportamento dos indivíduos, a sua percepção dos comportamentos do parceiro ou os ajustes nas suas relações estavam relacionados não só com o genótipo da própria pessoa mas também com o do seu companheiro.

Por tudo isto, sugere-se que variações no CD38 possam ter um papel nos comportamentos e nas percepções que sustentam os vínculos nos humanos. Como este gene está envolvido na secreção de oxitocina, a equipa refere que esta investigação também apoia a afirmação de que essa hormona tem influência nos processos interpessoais que servem para manter as relações românticas próximas.

“Pela primeira vez, demonstramos que o CD38, um gene ligado à secreção de oxitocina e ao comportamento social nos roedores, também está envolvido na regulação do comportamento comunitário nas dinâmicas das relações românticas humanas como as que se desenvolvem na vida diária”, lê-se no artigo científico.

Gentiana Sadikaj, primeira autora do artigo, realça ainda ao PÚBLICO, que esta investigação é única porque é uma das poucas em humanos nesta área que aplicou uma abordagem com diferentes métodos para perceber o comportamento, a percepção e as interacções sociais no dia-a-dia, bem como estas são afectadas. “A forma como um indivíduo se comporta e quanta negatividade afecta a vivência com o seu parceiro deve determinar a qualidade da sua relação, e é isso que vimos nesta investigação”, nota a investigadora. “Este estudo dá-nos provas científicas sobre o envolvimento do CD38 na regulação de processos psicológicas que sustentam os relacionamentos românticos humanos.”

Insegurança num relacionamento

No mês passado, a equipa de Jennifer Bartz tinha publicado um outro artigo na revista científica Molecular Psychiatry sobre o papel da biologia na insegurança das relações amorosas. Ao analisar o que 100 casais heterossexuais de Montreal faziam durante três semanas, verificou-se que uma variante genética no sistema opióide (que está relacionado com a dor ou a recompensa) podia estar, em alguns casos, associada a sentimentos de insegurança em relacionamentos românticos.

E porquê tudo isto? Logo no início do artigo científico agora publicado, a equipa justifica toda a sua investigação dizendo que as relações mais próximas são essenciais para a saúde psicológica e física. “Qualquer relação caracterizada por interacções de zelo frequentes e persistentes devem ser capazes de satisfazer a nossa ‘necessidade de pertença’, mas os relacionamentos românticos devem ser especialmente influentes, pois são o relacionamento próximo mais relevante para a maioria dos adultos”, escrevem os autores, assinalando que ainda há muito para saber sobre os mecanismos biológicos por detrás das relações amorosas. E esta equipa quer continuar a desvendá-los.

Num dos seus próximos trabalhos investigará se o gene CD38 poderá ter influência na sobrevivência de um relacionamento romântico. “Percebemos que o CD38 estava associado à qualidade de uma relação romântica. Portanto, podemos esperar que poderá ter implicações na longevidade desse relacionamento”, conta Jennifer Bartz. Também está interessada em saber quais são as vias pelas quais o gene pode influenciar o resultado de uma relação, ou seja, as ligações do gene a funções do cérebro e ao comportamento.