Numa guerra que já leva nove anos, o Museu de Palmira perdeu 3500 peças

Autoridades sírias alegam que durante a ocupação jihadista da cidade greco-romana muitas obras do museu desapareceram e foram feitas escavações ilegais por todo o lado.

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soldados do exército sírio nas ruínas do Templo de Bel, um dos edifícios mais icónicos de Palmira Reuters/OMAR SANADIKI

No auge dos confrontos entre o Daesh e as tropas sírias, os jihadistas ocuparam a cidade greco-romana de Palmira, destino turístico por excelência, e transformaram-na num palco de destruição, dinamitando edifícios e executando opositores no seu monumental teatro. Foi assim durante dez meses a partir de Maio de 2015 e, mais tarde, por um período mais curto, quatro meses a contar desde Dezembro do ano seguinte.

As imagens que iam chegando ao Ocidente eram desoladoras, mas havia que analisar toda a informação com pinças, já que a sua origem era tudo menos independente – nalguns casos os vídeos brutais dos extremistas islâmicos decapitando pessoas e esculturas; noutros a máquina de propaganda do regime opressivo do Presidente Bashar al-Assad.

Com a chegada ao terreno dos técnicos da Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (UNESCO, na sigla inglesa) e de alguns jornalistas, como Carlos Spottorno e Guillermo Abril (reportagem publicada nas revistas dos diários espanhol El País e alemão Süddeutsche Zeitung), dissiparam-se as dúvidas. A guerra afectara profundamente este sítio arqueológico, um dos mais cenográficos do mundo, destruindo total ou parcialmente algumas das suas construções mais emblemáticas – o teatro, o tetrápilo (estrutura clássica com quatro portas ou portões), o monumental arco do triunfo e os templos de Bel e de Baal-Shamin – e deixando vestígios da violência que vão demorar a sair da pedra (se é que saem) e da memória (dificilmente): inscrições nos pórticos e nos arcos, balas espalhadas por todo o complexo, restos das cordas usadas para pendurar cadáveres nas colunas da grande avenida apoteótica de Palmira.

Com a guerra ainda sem fim à vista e perante a falta de dinheiro e de cooperações internacionais para restaurar todo o património da cidade, as autoridades sírias estão a mobilizar esforços com os recursos de que dispõem. No Museu Nacional de Damasco, os técnicos procuram devolver a dignidade a muitas das esculturas que as tropas sírias conseguiram fazer sair do Museu Arqueológico de Palmira, algumas escondidas em caixas de armamento, entre os dois períodos de ocupação da cidade pelo Daesh. 

Apesar de tudo, os jihadistas terão feito desaparecer 3500 peças do museu desta cidade que foi um importante centro de comércio da Rota da Seda e que, apesar de ter conhecido múltiplos conflitos ao longo da sua história milenar, é hoje um símbolo de convivência de culturas, de encontro entre o Ocidente e o Oriente. 

A informação foi avançada à agência de notícias espanhola EFE, em jeito de balanço, pelo director-geral de antiguidades e museus da Síria, Mohamed Hamud, agora que passam cinco anos sobre os primeiros bombardeamentos de Palmira. É também Hamud quem avança que o Daesh fez centenas de escavações ilegais e espalhou minas por todo este complexo arqueológico com 10 quilómetros quadrados que é património mundial. 

“Não houve nenhuns trabalhos de restauro significativos em Palmira” desde Março de 2017, altura em que as tropas de Bashar al-Assad recuperaram o controlo da cidade, reconhece Hamud.  Por “falta de recursos financeiros, logísticos e técnicos”, nada foi ainda feito para voltar a pôr de pé o arco, os templos ou qualquer outro monumento destruído pelos jihadistas. Qualquer obra de reconstrução consumirá elevadas quantias de dinheiro que a Síria, ainda mergulhada na guerra, não tem. 

Para já, a colaboração com os aliados russos e com o sultanato de Omã permitiu restaurar 70 pequenas peças, estando ainda o Museu Hermitage de São Petersburgo encarregado de fazer um levantamento do estado em que se encontra a cidade, usando tecnologia 3D.