Reportagem

Fazunchar, uma festa “de artes e gentes”, para voltar a cheirar a tinta em Figueiró dos Vinhos

A festa de arte urbana está de volta a Figueiró dos Vinhos. De 15 a 23 de Agosto, a vila enche-se de artistas e cores, e transforma-se “num palco de produção artística, como foi no tempo de José Malhoa”. Além dos murais espalhados pelas ruas, há residências artísticas e um piquenique comunitário.

Percorrer Figueiró dos Vinhos é encontrar tesouros ao cruzar cada esquina. Um mural ilustrado, uma pintura de museu reproduzida numa parede ao acaso, a imagem de alguém de costas. Estão escondidos por toda a vila e aparecem-nos sem estarmos a contar. São cortesia dos artistas convidados pelo Fazunchar que, pela segunda vez, leva a arte urbana à terra do pintor José Malhoa.

Organizado pela primeira vez em 2019, a festa “feita de artes e gentes” nasceu de um pedido do município à Mistaker Maker: transformar a localidade de Leiria “num palco de produção artística, como foi no tempo de José Malhoa”, e a “ser falada além dos incêndios”. Lara Seixo Rodrigues, organizadora do evento, aceitou o desafio, e é ela quem acompanha o P3 numa visita guiada pelas ruas de Figueiró dos Vinhos, enquanto conta a história de uma vila “com um património muito rico” e de um festival que veio abanar a rotina.

PÚBLICO -
Teresa Pacheco Miranda
PÚBLICO -
Fotogaleria
Teresa Pacheco Miranda

Que o diga o Sr. Francisco, ou Francisco Silva para as formalidades, que está a ver um José Malhoa gigante nascer na parede de sua casa pelas mãos de Draw&Contra. “É quase um fenómeno”, descreve. “Desde que aqui moro, nunca passaram aqui tantas pessoas.” E, dizem os artistas, o Sr. Francisco “já é como um pai”. Entre adivinhas, piadas e cervejas que continuam a sair da arca do figueiroense de 68 anos para os convidados-trabalhadores (o calor abrasador requer hidratação constante): assim tem sido desde 15 de Agosto, e deverá continuar até 23, data em que o Fazunchar termina. Até lá, o mural de José Malhoa deverá estar terminado e os andaimes que agora o cobrem terão desaparecido.

PÚBLICO -
Foto
Francisco Silva Teresa Pacheco Miranda

O mesmo acontece com os outros murais — sete, no total — que se juntam aos que já tinham nascido na primeira edição. Além de Draw&Contra, marcam presença este ano Tamara Alves, Dimitris Taxis, Doa Oa, The Caver, Adamastor e Mantraste. Aos poucos, Figueiró dos Vinhos vai ficando coberto de arte, espalhada por toda a parte e em diferentes escalas: não encontramos apenas murais de vários metros de altura, mas também pequenos apontamentos em paredes, portas ou caixas de electricidade. Sejam as ilustrações de artistas que, na edição anterior, reinventaram pinturas de José Malhoa, sejam as “pequenas pessoas” desenhadas por Helen Bur.

À programação junta-se também a residência de Surma que, esta sexta-feira, às 21h30, actua junto do mural de Tamara Alves. O concerto é limitado, devido à largura da rua onde vai acontecer, mas vai ser transmitido no Instagram. Nos dias 22 e 23, às 17h45, há visitas guiadas por Lara, para todos os que quiserem participar. A festa culmina com um piquenique comunitário, marcado para dia 23 às 12h30, para honrar a grande tradição de piqueniques da vila.

PÚBLICO -
Foto
Lara Seixo Rodrigues Teresa Pacheco Miranda

Fazunchar significa fazer. O termo foi retirado do laínte, “um dialecto local que os antigos comerciantes usavam nos mercados para poder negociar sem que ninguém entendesse”, explica Lara. “Significa acção, que é aquilo que estamos aqui a fazer.” E, mesmo em pandemia, não podiam deixar de realizar o evento. “Tem de continuar a haver uma produção de cultura e temos de continuar a trabalhar com a comunidade para que as pessoas não se fechem em si novamente.” É que agora que Figueiró voltou a encontrar a arte, não quer mais deixar de a fazunchar.

Sugerir correcção