Missão da ONU encontrou-se com Presidente deposto do Mali

Junta militar libertou dois ministros e reabriu esta sexta-feira as fronteiras do país. Um presidente de transição, “um militar ou um civil” será nomeado brevemente.

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Os militares revoltosos têm sido apoiados pela população e pelos partidos da oposição ao Presidente Keita LIFE TIEMOKO/EPA

A missão das Nações Unidas no Mali (Minusma) anunciou no Twitter que representantes seus se encontraram na quinta-feira à noite com o Presidente deposto Ibrahim Boubacar Keïta, no complexo militar de Kati, a 15 km da capital, Bamako. No mesmo dia em que o porta-voz da junta militar que tomou o poder anunciou, em entrevista à France 24, que em breve será nomeado “um presidente de transição” que poderá ser “um civil ou um militar”. 

O porta-voz da junta militar, o coronel Ismaël Wagué, tinha dito que seria implementado um “conselho de transição com um presidente de transição que vai ser um militar ou um civil”. “Estamos em contacto com a sociedade civil, os partidos da oposição, a maioria, toda a gente, para tentar implementar a transição”, disse. 

Na terça-feira, militares revoltosos tomaram conta de posições estratégicas do país, principalmente na capital, Bamako, e depuseram o Presidente Ibrahim Boubacar Keïta, obrigando-o a dissolver o Parlamento e a renunciar ao cargo. O golpe, que foi o culminar de uma crise política entre o chefe de Estado e a oposição, foi amplamente condenado pela comunidade internacional

No entanto, a posição é bem diferente no que às forças internas do país diz respeito. Nenhum partido condenou o golpe, nem mesmo o do Presidente, e esta sexta-feira a principal força política da oposição, o Movimento 5 de Junho, manifestou apoio aos militares revoltosos e pediu “um novo Mali”, deixando claro a sua discórdia com a Comunidade Económica dos Estados da África Ocidental (CEDEAO) que pediu o regresso do Presidente ao poder. 

Nas ruas, o ambiente parece ser de festa. Centenas de apoiantes dos militares revoltosos juntaram-se esta sexta-feira na Praça da Independência, em Bamako, e festejaram a queda do Presidente cantando, dançando e mostrando faixas a agradecer aos amotinados. 

“É uma cena de alegria. Deus tirou-nos das mãos do diabo, estamos felizes, apoiamos o nosso exército”, disse Souleymane, agricultor de 50 anos, à Reuters, sem querer dar o seu apelido. Alguns manifestantes mostraram descontentamento pela posição assumida pela comunidade internacional, vendo-se no entanto algumas bandeiras russas a esvoaçar entre a multidão, descreveu a Reuters. 

Para acalmar os ânimos e evitar tensões com o partido do Presidente, os militares libertaram dois principais responsáveis do executivo deposto. Um deles foi o ministro das Finanças, Abdoulaye Daffe, e o outro o secretário privado do Presidente, Sabane Mahalmoudou, ambos do partido do chefe de Estado.

“Forem libertados, mas não sei em que condições”, disse à Reuters o presidente do partido de Keita, Bocary Treta. 

A situação está a evoluir muito rapidamente no terreno e, na cena internacional, os contactos e movimentações também não param. Esta quinta-feira, uma equipa de direitos humanos da Missão Multidimensional Integrada das Nações Unidas para a Estabilização do Mali (Minusma), reuniu-se com o Presidente deposto Ibrahim Boubacar Keita, bem como com outros detidos no campo militar de Kati, a 15 km de Bamako, para saberem da sua saúde. 

E Stéphane Dujarric, porta-voz do secretário-geral da ONU, António Guterres, apelou na quinta-feira a que os direitos de todos os malianos sejam respeitados, “incluindo os do Presidente e dos membros mais importantes do Governo que permanecem detidos”.

As fronteiras do Mali, fechadas na altura do golpe militar, foram, entretanto, reabertas esta sexta-feira, como anunciaram os militares em comunicado lido pelo apresentador do telejornal da ORTM: “O Comité Nacional para a Saúde do Povo (CNSP) informa a opinião nacional e internacional da reabertura das fonteiras aéreas e terrestres a partir desta sexta-feira”.

O CNSP aproveitou para “assegurar as populações que todas as medidas de segurança foram tomadas para assegurar a livre circulação de pessoas e dos seus bens”.

Os Estados vizinhos do Mali, principalmente os que integram a CEDEAO, temem que este golpe de Estado mergulhe ainda mais o país no caos, já a braços com uma frágil situação económica e grupos armados a disputar a autoridade do Estado, principalmente jihadistas. 

No entanto, e apesar destas preocupações, os Estados Unidos, que condenaram o golpe de Estado, anunciaram esta sexta-feira que suspendem a cooperação militar com o Mali. Alguns dos militares que lideraram o golpe receberam treino das forças americanas, diz a Reuters. 

“Deixem-me dizer categoricamente que não haverá mais treino ou apoio às forças armadas malianas. Suspendemos tudo até podermos clarificar a situação”, disse o enviado especial dos EUA para o Sahel, J. Peter Pham, citado pela agência britânica.