Miguel Manso
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Miguel Manso

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Os últimos dias na terra

Enquanto olho o céu azul, não sei se a vinda pelo Natal é certa. Para já, não é, estando o retorno à Lusitânia adiado pelo menos até ao próximo Verão.

Este ano voltamos para casa mais cedo. Para a outra casa, lá fora. Este ano deixamos a casa mais cedo, esta casa onde mora o Sol e todos os abraços e beijos, todos os pais, irmãos e irmãs, o azul do céu mais perto e o mar a correr para nós. Não por querermos, mas porque a isso nos obrigamos, de modo a cumprir uma quarentena de 15 dias mesmo a tempo de voltar ao trabalho.

Assim o determina o Reino Unido, dono e senhor da Europa, apesar do maior número de infectados e mortos de todo o continente durante a presente pandemia. E não pela pandemia em si ou pelo risco de importar o vírus. O vírus já há muito está presente e bem presente na Grã-Bretanha, sendo o recrudescimento do mesmo fruto da incúria dos locais, sem para isso ser preciso a ajuda de quem vem de outros países. 

Não. A razão para estarmos de castigo em casa durante duas semanas não se prende, nem nunca se prendeu, com a nossa saúde ou a saúde dos outros. A razão é económica, bastando para isso somar 2 milhões de britânicos ébrios em Portugal a outros 18 milhões de britânicos ébrios em Espanha para termos 20 milhões de britânicos, ébrios pois claro, em solo britânico, a despender as suas libras para bem das finanças do Governo de Boris Johnson

Não obstante, à chegada a Portugal há três semanas, e apesar de a isso não estarmos obrigados por lei, insistimos em fazer uma quarentena de 15 dias em casa, tão perto, mas ao mesmo tempo tão longe de quem mais queremos, assim prescindido do tempo precioso que não temos quando passamos uma vida lá fora.

Contentámo-nos com os telefonemas da praxe, como se nada tivesse mudado, apenas os ares, literalmente, e a vista da janela, ao menos mais perto do mar. Por termos viajado de avião com dezenas de outras pessoas, independentemente das máscaras e dos cuidados, desconhecíamos à chegada se porventura seríamos um risco para os outros e parte da cadeia de transmissão. A jogar pelo seguro, confinámos voluntariamente, reduzindo a uma semana o tempo com a família antes da partida derradeira para 15 dias de quarentena antes do regresso ao trabalho em Setembro.

Agora que a nossa última semana chega ao fim já sabemos: o calor no Reino Unido acabou e à chegada espera-nos, pelo menos, uma semana de copiosa chuva, perdão, o típico Verão inglês. 

Ironia das ironias, nem sequer estamos obrigados a ficar em casa per se pois a polícia britânica desde Março grita a plenos pulmões não ter os meios para fazer visitas relâmpago a quem é suposto estar em confinamento. Conclusão, à chegada podemos fazer o que muito bem entendermos. O regresso 15 dias antes é só para mostrar o bilhete de avião no trabalho e de caminho assustar quem pretenda sair do país durante o período estival.

A verdadeira polícia serão os vizinhos, a denúncia, a bufaria e a discriminação contra quem vem de fora tirar trabalho aos britânicos. Enquanto olho o céu azul como se não houvesse outro céu azul, pelo menos desta cor não há, não assim, junto ao mar e a um rio cujos três quilómetros de largo iluminam a terra, a nossa terra, enquanto olho o céu azul, não sei se a vinda pelo Natal é certa. Para já, não é, estando o retorno à Lusitânia adiado pelo menos até ao próximo Verão.

Doze meses. Quando, há muitos anos, partimos de Portugal, jurámos nunca mais voltar. De então para cá nunca passámos mais de oito meses fora. Mas um ano inteiro e sem Natal não é uma medida de saúde pública, é uma declaração de guerra da parte de um Governo insistente em não ver o testar de populações inteiras, começando nos hospitais e a acabar nos aeroportos sem esquecer as escolas, como a única medida realmente eficaz enquanto se investigam e desenvolvem tratamentos e vacinas. E se a vacina é o Santo Graal, estou pelo menos esperançado na descoberta de tratamentos.

Até lá fica a certeza das injustiças e da má sorte de não sermos jogadores de futebol. Esses, ao menos, puderam jogar a final dos Campeões em Portugal sem uma quarentena à espera no regresso. Em nome da cultura, diz o Governo britânico, enquanto abre uma excepção.

Até lá fica a saudade que nos corta a todos ao meio. Contamos as horas para o fim dos últimos dias na terra. Os pés assentes na terra nunca partiram, ainda estão aqui a ver o mar. O resto dos nossos corpos? Está algures no céu, num avião a caminho de uma terra estranha. Mas todas as terras distantes são estranhas. E por mais tempo que passe nunca serão a nossa casa.

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