Luzes, câmara e não muita acção: Hollywood recomeça devagar em cenário de pandemia

O número de rodagens em Los Angeles, o epicentro da indústria audiovisual ocidental, ainda está a cerca de um terço do que seria normal.

Foto
O número de rodagens em Hollywood permanece anormalmente baixo mario anzuoni/reuters

O mercado interno norte-americano está ansioso por filmes novos para se entreter durante a pandemia da covid-19, mas a indústria de Hollywood mostra-se tímida a voltar a ligar as câmaras, mesmo com elencos em quarentena e inovações como cenas íntimas rodadas com manequins.

Apenas uma parte das produções cinematográficas e televisivas voltou às filmagens em Los Angeles e noutros pontos dos Estados Unidos, onde os casos de infecção pelo novo coronavírus estão a aumentar. Actores e equipas de rodagem não sabem quando é que os projectos em que estão envolvidos serão retomados, e há quem parta do princípio de que não voltará ao trabalho antes de 2021.

O condado de Los Angeles, sede dos maiores estúdios de cinema e televisão do país, deu em Junho luz verde para o recomeço das filmagens, ainda que com limitações de ordem sanitária. Os principais sindicatos emitiram um relatório comum de 36 páginas com as medidas de segurança a aplicar e os produtores acreditaram então que em Agosto vários plateaus estariam de novo em actividade.

Desde meados de Junho, o número de pedidos de rodagem na região de Los Angeles está a cerca de 34% do volume normal. A maioria deles destina-se à filmagem de anúncios ou a sessões fotográficas, de acordo com a organização local FilmLA, que espera assistir a uma reanimação da produção de ficção televisiva e cinematográfica em Setembro.

O actor Seth Rogen, que produz séries televisivas e filmes com o parceiro Evan Goldberg, admite que está a explorar a possibilidade de rodar no estrangeiro, por exemplo na Bulgária. “Não acredito que as rodagens possam acontecer em breve na América, pelo menos em termos com os quais eu esteja confortável”, disse este mês numa entrevista. “Estou a olhar para outros países que lidaram muito melhor com tudo isto e a pensar que talvez, se nos deixarem entrar, possamos lá filmar.”

Produção fora de portas

Umas quantas produções de grande escala foram, de facto, já retomadas fora de portas. A nova aventura da saga Mundo Jurássico, uma produção da Universal Pictures, está a ser rodada em Londres e o elenco da sequela de Avatar, uma grande aposta da Disney, está de volta ao trabalho na Nova Zelândia.

Para poderem recomeçar, os produtores têm de adaptar as normas definidas pela indústria às filmagens que têm em mãos, um processo mais demorado quando estão em causa grandes projectos. “Não é só acender um interruptor”, diz Duncan Crabtree-Ireland, chefe de operações e conselheiro jurídico do sindicato norte-americano de actores SAG-AFTRA.

O SAG-AFTRA já deu luz verde a mais de mil planos de regresso ao trabalho para projectos de cinema e de televisão, adianta, acrescentando que o actual nível de produção é “muito mais baixo” do que o normal.

O prolongamento da actual paralisação da indústria vai limitar a oferta de programação fresca que as estações de televisão e os serviços de streaming podem oferecer, numa altura em que muitos espectadores permanecem confinados em suas casas devido à pandemia.

O elenco da série da Amazon The Boys gravou um vídeo a alertar os seus fãs para o uso de máscaras, de modo a reduzir a expansão do novo coronavírus.

“Quer a terceira temporada de The Boys? Não nos deixam filmar enquanto não conseguirmos baixar os números”, diz o protagonista Jack Quaid.

Beijos com manequins

Algumas séries de televisão estão entretanto já em fase de rodagem, com medidas de protecção que incluem equipas mais pequenas, encarregados de segurança responsáveis pela monitorização das medidas de prevenção da infecção e soluções inventivas como o uso de manequins para as cenas de beijos.

Em Julho, o produtor Tyler Perry criou um “Acampamento Quarentena” no seu complexo de estúdios na Geórgia para poder filmar a série Sistas. Não se registou nenhum caso de infecção pelo novo coronavírus durante as duas semanas de rodagem, garante.

O gigante ViacomCBS, proprietário, entre outros, dos canais MTV e Comedy Central, está a montar plateaus fechados, os “COVID compounds” para isolar os elementos envolvidos em séries como RuPaul's Drag Race, diz Chris McCarthy, presidente das marcas de juventude e entretenimento da ViacomCBS. “Controlamos, testamos, e também contemos e mantemos toda a gente o mais segura possível”, continua.

Umas quantas produções reportaram ao sindicato SAG-AFTRA casos positivos de infecção, confirma Crabtree-Ireland, recusando-se a nomeá-las. Houve situações em que a rodagem foi temporariamente suspensa para rastreio dos contactos e outras medidas; noutras, a infecção foi detectada antes de a pessoa iniciar funções no plateau.

“Do nosso ponto de vista, é um sinal de que o sistema está a funcionar.”