Torne-se perito Crónica

Kamala Harris, filha da America Great Again

Agosto sem ser à la silly season pode ser boa altura para nos prepararmos para o que ele anuncia.

São de agosto dois momentos cruciais que ainda marcam o que hoje vivemos, o início da I Guerra Mundial e o fim da II. Aquela, declarada nos últimos dias de julho de 1914, decidiu logo no mês seguinte o que queria ser. Como Alexander Soljenítsin contou no romance Agosto, 1914, na batalha de Tannenberg a Alemanha acabou com o Império Russo. E assim se anunciaram os dias que abalaram o mundo (embora o kaiser ainda não soubesse do fim próximo do seu primo czar, nem o quisesse).

Depois dessa entrada estrondosa, todos os exércitos dos dois lados assentaram arraiais numa guerra paradinha, frente a frente. Cada um na sua trincheira, com as velhas armas e as modernas, as convencionais e as proibidas, com todo o tempo do mundo, dedicaram-se à matança, metodicamente. Vínhamos de La Belle Époque e ficámos a saber do que éramos capazes. Ficou-nos funda a memória da tragédia. E, em agosto de 1945, a II Guerra Mundial acabou de maneira fulgurante, dois cogumelos, duas cidades arrasadas. Ficou-nos a inevitabilidade do medo para sempre. Duas guerras, uma lição: não aprendemos nada.

Atenção ao que diz agosto, o que ele anuncia costuma ter seguimento. Tanto, que inventámos para este mês ele ser silly season, de notícias frívolas e levezinhas, só para nos esquecermos do pesado que também pode ser – Carnaval a preparar-nos para a Quarta-feira de Cinzas. Mas por vezes o ano vai tão 2020 que só os pobres de espírito têm paciência para a famigerada época leviana. Por falar nisso, esta semana, Trump datou, em discurso público, o fim da II Guerra Mundial a acontecer durante a I, como se a História, armada em capachinho cenoura, pudesse estar presa aos factos por ténues fios.

Estranho agosto sem os picos de tragédia que já foram os seus, em 1914 e 1945, mas também sem o uso livre da leviandade com que os outros agostos julgavam poupar-nos. Neste agosto o que explode não tem a maldade do Daesh, só tem a incúria burocrata dos governantes de Beirute. Por outro lado, em agosto de 2020 estamos confinados na incerteza, transformados em espumante barato e fanado de borbulhas. Que fazer com este mês? Pois aceitá-lo no que ele é, agosto sem notícias importantes e sem vontade de brincar, mas sempre mês a avisar. Então, aproveitemos o tão pouco que ele é, para cuidarmos mais e melhor do que ele anuncia.

Esta semana Kamala Harris foi escolhida para candidata a vice-presidente do Partido Democrata americano. Quem foi o candidato, nas eleições anteriores? Tom Caine. Perdão, Tom Kaine... Tim Kaine… isso. Ora isto podia ser tratado à la agosto, e como eu gostaria de dizer quanto gosto de uma cara forte e bela e de ver esta candidata dançar até sentada numa cadeira. Mas os tempos não estão para aí virados, e cito um clássico de quem tenho saudades, Barack Obama: um candidato a presidente tem de ter consigo “alguém com o discernimento e o caráter para fazer the right call”. Não é opcional, é mesmo obrigatório um candidato a presidente ter essa decisão certa (the right call) ou fazer o telefonema certo (the right call).

Um vídeo logo os mostrou, ao ticket Joe Biden-Kamala Harris, num telefonema entusiasmado. Os americanos, que podem ser pecos em muito mas não em vender sabonetes ou presidentes, fizeram logo um anúncio de campanha. “Antes de mais, a resposta é sim?”, lança Biden. “A resposta é absolutamente sim, Joe!”, diz Kamala. Barack Obama volta ao apadrinhamento da nova estrela, com estas palavras: “A sua vida é uma em que eu e tantos nos podemos rever: a história que diz não importar de onde vimos, como parecemos, o que rezamos ou quem amamos – há lugar aqui para ti.” Enfim, a América. A América mesmo, great again.

A América, pátria dos imigrantes. Mãe dos Exílios, como lhe chama o verso da judia de origem portuguesa Emma Lazarus cravado no sopé da Estátua da Liberdade. Great again, ou grande outra vez, como suspirariam os açorianos e os alentejanos há cem anos, quando com as leis restritivas de 1921 e 1924, os europeus do sul, ao contrário dos alemães e anglo-saxões, quase deixaram de poder entrar na América, espartilhados em quotas minúsculas. Em 1924, os portugueses que voltaram de lá já eram mais dos que podiam ir para a América. Equiparados, pois, aos jamaicanos e indianos que, esses, não tinham quota nenhuma. Essa América great again fez um parêntese até à década de 1960, quando voltou a ser pátria dos imigrantes, já incluindo negros e asiáticos, agora recordada por Obama.

Cito os portugueses, porque é para eles que escrevo (e nada como sentirmos ligeira febre para percebermos o covid do vizinho), e cito os jamaicanos e os indianos, porque essa foi a origem dos pais de Kamala Harris. Bem fez Barack Obama em lembrar a condição de filha de quem veio de não importa onde e, sem geração nacional de permeio, poder vir a comandar essa Nação – eis uma das grandezas da América.

Eis o que, sobretudo em mês tão pouco, nos apetece saudar. E, já agora, começarmos a saber de um assunto, Kamala Harris, de que mais vale aprender alguma coisa antes de sermos submersos em polémicas complexas. A californiana Harris é a primeira afro-americana (o seu pai é um mestiço da Jamaica) e indiana-asiática (a sua mãe nasceu em Chennai, antiga Madrasta, na Índia) candidata a vice na lista dos dois grandes partidos. São peso eleitoral diferente: o primeiro corresponde a 40 milhões de pessoas, cerca de 12 por cento dos americanos; o segundo, a 2,5 milhões, menos de um por cento. Sem surpresa, Kamala Harris e o seu partido sublinham mais o lado black da candidata do que a sua parte indiano-asiática (não confundir com os indiano-americanos, como se denominam os índios que já lá estavam quando Colombo arribou).

Afirmar-se black vai trazer um suplemento de ironia a este puzzle. O economista Donald Harris, pai de Kamala e professor jubilado da prestigiada Universidade de Stanford, mestiço jamaicano, escreveu no jornal Jamaica Global, em 2018, que um dos seus antepassados foi Hamilton Brown, dono de escravos com plantações na ilha da Jamaica. Num cemitério abandonado de Brown’s Town, cidadezinha fundada pelo talvez avoengo de Kamala Harris, lá está a lápide com letras comidas pela humidade caribenha: “Hamilton Brown –Died 1843”.

A extrema-direita americana já afia os dentes com esta partida da História em, talvez, conduzir a um antepassado escravocrata as raízes da primeira black candidata a vice-presidente americana. E como, apesar de tudo, estamos na silly season, o mais fecundo dos autores tuíteiros sobre o assunto é Dinesh D’Souza, indiano de origem goesa, brilhante e desonesto, trumpista assanhado. E se gostam de informações de proximidade, tenho outra: o prato preferido em Brown’s Town é callaloo. Evidentemente descendente do calulu angolano: peixe seco, óleo de palma e bata doce. Delicioso.

Como veem, graças a agosto estou a preparar-me para as eleições americanas de novembro.   

O autor escreve segundo o novo acordo ortográfico

   

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