Dar música ao vinho

O leitor Camilo Sequeira partilha a sua experiência na Quinta da Casa Amarela, no Douro: uma forma de valorizar outro tipo de turismo no território nacional.

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Dar de beber à dor é uma imagem de Portugal que ainda corre mundo dita por uma voz que faz parte do nosso imaginário próximo. Esta dor bebia-se com o vinho que foi alimento de muitos portugueses, novos e velhos, num passado igualmente próximo. Felizmente, este vinho português qualificou-se. Hoje é um outro símbolo do país que, como identidade, se revela nas artes mais diversas nacionais e estrangeiras: da literatura ao cinema, da política ao lazer, beber vinho de Portugal é um valor, uma prova de respeito pelo nosso saber fazer.

Actualmente há muitos produtores de vinho no nosso país e pode dizer-se sem receio que não há maus vinhos saídos das suas adegas. O que nos honra, nos dá prazer e, claro, orgulho.

Por isso, tem todo o sentido fazer turismo dentro de Portugal visitando estes espaços de invenção para vermos a paixão do produtor, o empenho do trabalhador e a alegria de todos os envolvidos na promoção das marcas ao partilharem com um estranho que os visita o seu encantamento com o que criam e que querem que seja vivido também por esse estranho.

Gosto de fazer estas visitas e gosto muito de perceber como a vida profissional destas pessoas é tão preenchida com uma paixão, a criação de um bem velho como a humanidade, que sabem ser motivo de prazer para o paladar e um enormíssimo prazer para a convivialidade, para a quebra de tensões, para a celebração do que quer que seja que a justifique. O gosto de beber vinho com outro mostra que respeitamos e apreciamos a presença desse outro e o reconhecemos como igual.

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Não sei se existirão muitas formas de partilha de um bem de acesso fácil com tanto impacto na construção de relações onde tudo se relativiza em função desse bem partilhado. Mas sei que a procura incessante dos produtores para melhorar esse milagre relacional não cessa. Por isso, proponho que quando se decidirem a aproveitar estes imensos espaços criativos que são as adegas, um prazer fácil de obter porque está perto, é barato e se encontra um pouco por todo o país, tenham presente a Quinta da Casa Amarela, no Douro, onde se produz vinho do Porto envelhecido “com música”. Sim, a quinta dá música ao vinho durante o tempo longo da sua evolução para melhor se transformar de produto de uva em verdadeiro manjar de deuses.

A música, sabemos todos, é uma linguagem universal. E o vinho, também o sabemos, é um prazer tão universal e tão antigo como a música. Por isso, casar duas entidades tão associadas à nossa identidade humana e ao ser-se português é um percurso do turismo nacional que tem de ser aproveitado e fruído muito para lá do dar de beber à dor.

Nesta quinta produtora de vinhos excelentes como o fazem muitas outras, darem música aos vinhos transforma-os de forma original e faz da visita à adega uma vivência íntima porque sentimos que os deuses que tanto apreciam esta bebida nos dão a mão para podermos ser, naquele momento, deuses como eles.

M. M. Camilo Sequeira

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