PGR angolana ordena encerramento de templos da IURD em Luanda

Um grupo de bispos e pastores angolanos rompeu com a direcção brasileira, mas há matéria para investigação: associação criminosa, fraude fiscal, exportação ilícita de capitais e abuso de confiança.

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Manifestação em Luanda, em Março, em solidariedade com os pastores da IURD, que terão sofrido maus tratos AMPE ROGÉRIO / LUSA

A Procuradoria-Geral da República (PGR) angolana ordenou o encerramento dos templos da Igreja Universal do Reino de Deus (IURD) no país, no momento em que está a ser investigado o conflito interno entre pastores brasileiros e angolanos.

Na capital angolana, foram apreendidas vários imóveis usados como catedrais desta igreja evangélica de origem brasileira, nomeadamente Alvalade, Maculusso, Morro Bento, Patriota, Benfica, Cazenga e Viana, segundo um comunicado enviado pela PGR angolana a que o PÚBLICO teve acesso.

“As apreensões resultam do facto de existirem nos autos indícios bastantes da prática de crimes de associação criminosa, fraude fiscal, exportação ilícita de capitais, abuso de confiança, entre outros ilícitos de natureza análoga”, lê-se no comunicado da PGR angolana. 

A apreensão desses imóveis da IURD decorre no âmbito do processo levado a cabo pela PGR sob suspeita de branqueamento de capitais, fraude fiscal e associação criminosa, numa altura em que a actividade desta organização religiosa em Angola está a ser gerida por uma Comissão de Reforma, desde o fim de Julho.

Numa assembleia extraordinária, a Comissão de Reforma da IURD Angola elegeu como seu coordenador o bispo Valente Bizerra Luís e decidiu também, “por unanimidade, dar por findo o serviço eclesiástico pela IURD Angola dos missionários brasileiros em todo o território angolano”.

 A acta publicada no Diário da República de Angola a 24 de Julho assinala que os membros conferiram poderes à Comissão de Reforma da IURD Angola para gerir todos os programas eclesiásticos televisivos, radiofónicos, de imprensa e plataformas digitais da IURD Angola.

Desde então, os membros brasileiros da direcção foram destituídos, e foram eleitos novos elementos angolanos. Foi igualmente posto fim aos serviços dos missionários brasileiros. 

Mas num comunicado enviado à Lusa e assinado pelo bispo António Ferraz, a IURD Angola prometeu adoptar todas as medidas para reagir à publicação ilícita da acta e pôr “cobro à actuação ilícita daqueles que se intitulam agora de ‘Comissão de Reforma da IURD’”.

A tensão interna na IURD em Angola arrasta-se desde Novembro do ano passado, quando um grupo de bispos e pastores angolanos rompeu com a direcção brasileira, e agravou-se em Junho, quando o grupo dissidente assumiu o controlo da maioria dos templos. Houve troca de acusações sobre a prática de actos ilícitos.

O conflito já deu origem à abertura de processos-crime na PGR de Angola e subiu à esfera diplomática, com o Presidente brasileiro, Jair Bolsonaro, a pedir ao seu homólogo, João Lourenço, garantias de protecção dos pastores brasileiros e do património da Igreja. O chefe de Estado angolano prometeu um “tratamento adequado” do assunto na justiça.

Em resposta, o bispo António Ferraz, vice-presidente da igreja, afirmou que o grupo de dissidentes, promotores da Comissão de Reforma da IURD Angola, “não constitui os legítimos representantes” referindo que alguns foram expulsos devido à prática de “actos ilícitos e a violação do código de conduta da igreja”.

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