Identificada feromona que causa enxames de gafanhotos

Cientistas da China mostram que há uma feromona que faz com que os gafanhotos-migratórios formem e se mantenham em enxame, o que pode resultar em pragas.

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Praga de gafanhotos no Quénia em Janeiro deste ano DAI KUROKAWA/EPA

As pragas de gafanhotos são uma das ameaças à segurança alimentar de muitos países, sobretudo na África Oriental, no Médio Oriente e no Sul da Ásia, devido às perdas agrícolas que provocam. Na edição desta semana da revista científica Nature, uma equipa de investigadores da China anuncia que identificou uma feromona que causa a formação de um enxame de gafanhotos. Espera-se que esta descoberta possa contribuir para o desenvolvimento de novos métodos que controlem pragas de gafanhotos.

Há dois anos, Le Kang (do Instituto de Zoologia da Academia Chinesa de Ciências) e o seu grupo detectaram a presença da feromona 4VA (4-vinilanisol) em animais, incluindo insectos. Agora, conseguiram demonstrar, pela primeira vez, que esta é uma “feromona de agregação potente” nos gafanhotos-migratórios (da espécie Locustia migratoria). Produzidas pelo organismo, as feromonas são sinais químicos que influenciam o comportamento de outros indivíduos da mesma espécie. 

Le Kang explica ao PÚBLICO que esta feromona é um pequeno composto orgânico que é apenas libertado por gafanhotos-migratórios gregários (que vivem com outros gafanhotos) e que é praticamente indetectável pelos gafanhotos solitários da mesma espécie. Contudo, a produção da 4VA pode ser desencadeada quando quatro ou cinco gafanhotos solitários se juntam. Esses gafanhotos solitários também podem começar a produzir e emitir esta feromona. A 4VA pode assim atrair tanto gafanhotos gregários como solitários de todas as idades e ambos os sexos.

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Gafanhoto da espécie Locusta migratoria Axel Hochkirch

Vejamos como funciona. A feromona é detectada por certas células sensoriais encontradas nas antenas dos gafanhotos. Depois, liga-se a um receptor olfactório chamado “OR35”. A equipa realça que os gafanhotos que foram modificados para não ter esse receptor não ficavam tão atraídos pela 4VA. Esta feromona pode atrair populações de gafanhotos nos campos agrícolas.

Portanto, qual o papel desta feromona numa praga de gafanhotos? Uma praga de gafanhotos é causada pela formação de um enxame de gafanhotos, que resulta da junção de grande número de gafanhotos gregários. Esta feromona pode atrair e manter os grupos de gafanhotos juntos, bem como recrutar ainda mais indivíduos para esse grupo. “A 4VA tem um papel importante na formação de enxames de gafanhotos e na sua duração ao longo do tempo, o que resulta em surtos de pragas de gafanhotos”, realça Le Kang.

Como controlar as pragas

As pragas de gafanhotos são das pestes migratórias mais antigas do mundo, estando até entre as pragas bíblicas. Estes enxames podem percorrer longas distâncias e estender-se por um quilómetro quadrado (o que corresponde a 40 a 80 milhões de gafanhotos) ou até mais. As alterações climáticas são apontadas como um dos contributos para que esta situação se agrave. Por exemplo, fortes chuvas seguidas de períodos de grande seca serão ideais para este fenómeno aumente.

Este fenómeno tem afectado sobretudo países da África Oriental, do Médio Oriente e do Sul da Ásia. Este ano, o Quénia teve mesmo o maior surto dos últimos 70 anos. A Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura (FAO) estima que estas pragas de gafanhotos poderão deixar milhões de pessoas em grave insegurança alimentar, devido a um risco acrescido para as culturas e pastagens durante a principal época de colheita.

Estas pragas são sobretudo formadas por gafanhotos-do-deserto (Schistocerca gregaria). Outras investigações já tinham mostrado que esses gafanhotos no auge do seu comportamento gregário têm três vezes mais serotonina (um neurotransmissor) no seu sistema nervoso do que os gafanhotos solitários, o que fazia com que se transformassem em gafanhotos vorazes que formam enxames com milhares de milhões de insectos, originando assim pragas.

Le Kang diz que ainda não se tem a certeza se os gafanhotos-do-deserto também podem libertar a 4VA, porque não foram feitas experiências com eles sobre essa espécie no seu laboratório. Mesmo assim, adianta: “Estudos anteriores revelaram que há perfis a nível do odor semelhantes nas duas espécies.” Além disso, o cientista sublinha que os gafanhotos-migratórios (a espécie analisada neste estudo) também são um problema em África, na China, na Austrália e no Sul da Ásia.

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Praga de gafanhotos no Quénia em Janeiro, a pior dos últimos 70 anos DAI KUROKAWA/EPA

O cientista refere até que esta investigação, além de desvendar alguns segredos sobre esta feromona, tem o objectivo de contribuir para novos métodos que controlem as pragas de gafanhotos. Por isso, primeiro, a equipa sugere que uma versão sintética da 4VA seja usada na natureza para atrair os gafanhotos para armadilhas, onde seriam mortos. Aponta ainda que poderia ser criada uma substância química que bloqueasse a actividade da feromona e impedisse que esta seja libertada. Desta forma, poder-se-ia evitar que os gafanhotos se aglomerassem em massa e migrassem. Por fim, esta feromona poderia ser usada para monitorizar a dinâmica da população de gafanhotos e servir como alarme das pragas. Mesmo assim, ainda é preciso avaliar melhor estas e outras estratégias.

Embora este estudo seja dedicado ao gafanhoto-migratório, Le Kang espera que os resultados possam a vir a ser úteis para controlar as terríveis pragas do gafanhoto-do-deserto e de outros gafanhotos.

Num comentário a este trabalho também publicado na Nature, Leslie Vosshall (neurobióloga da Universidade Rockefeller, em Nova Iorque, e não fez parte do estudo) assinala que a identificação desta feromona como um motor da aglomeração de gafanhotos “pode controlar o comportamento que causa o enxame, e que a descoberta levanta a possibilidade de se usar a própria feromona dos gafanhotos para combater a ameaça” desses enxames. Contudo, a neurobióloga alerta que ainda há muitas questões que devem ser respondidas, como, por exemplo, se a 4VA desencadeia outros comportamentos nos gafanhotos além da junção inicial do enxame.