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Reportagem

O transporte marítimo não tem de poluir. Um veleiro carregado de azeite português é a prova

O De Gallant está a dirigir-se para vários portos europeus onde vai vender mais de 30 toneladas de azeite, vinho, amêndoas, mel e leguminosas de pequenos produtores portugueses, sem poluição. A New Dawn Traders quer ser uma alternativa para uma das indústrias mais poluentes do mundo. “Usamos a energia do vento para transporte. Não sei porque é que as pessoas se esqueceram desta ideia.”

Entre o nevoeiro cerrado, o De Gallant parece um navio fantasma. Um veleiro “saído de um filme de piratas” comentam alguns curiosos a espreitar em São Pedro da Afurada, Vila Nova de Gaia, ao mesmo tempo que mais de 30 toneladas de azeite virgem extra, caixotes de vinho, tremoços, amêndoas, mel, azeitonas, figos secos, feijões catarino (mas também manteiga e frade) e grão-de-bico são puxados para bordo por cordas robustas.

Emília Reigado supervisiona a operação, satisfeita. É a quinta vez que a maior parte da produção da sua pequena empresa familiar de Figueira de Castelo Rodrigo, no Vale do Côa, é transportada por um cargueiro à vela e vendida em portos europeus. “Isto é um descanso. Apercebi-me disso especialmente durante a pandemia. Com as lojas fechadas e as feiras de turismo internacionais canceladas, onde é que eu ia vender?”, pergunta. Emília, o marido Justino e o filho Hugo, candidato ao curso de Agronomia com vontade de continuar o negócio, já conhecem o dono e capitão do barco. Jean-François Lebleu já dormiu em casa da família de Quintã de Pêro Martins e conheceu algumas das oliveiras ancestrais que fizeram dos Reigado candidatos perfeitos para a experiência da New Dawn Traders

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Emília Reigado desce pela primeira vez a bordo do De Gallant Teresa Pacheco Miranda

“Depois de começar a vender para eles aumentei a produção. Este ano, eles perguntaram-me o que tinha, aumentaram outra vez o pedido e assim deu para escoar tudo”, diz. O projecto funciona como uma entrega de cabazes de produtos biológicos e locais — mas que em vez de serem produzidos na mesma cidade e viajarem algumas dezenas de quilómetros em carrinhas, atravessam oceanos, sem emissões. 

“Em 2017, era uma ideia louca. Agora é normal”, comenta Dhara Thompson, director do Sail Boat Project, nome que muitos dos jovens da equipa do navio usam na camisola. O criador da cooperativa e escola dedicada a tornar mais inclusivo o acesso ao mar e à navegação a vela também auscultou os terrenos e métodos de produção da família Reigado. “A esta escala, a escala humana, as viagens continuam, mesmo durante uma pandemia global. Podem achar que o processo é lento, mas é tradicional e tão mais interessante do que pôr tudo num contentor. Na próxima, já levamos arroz.”

Em 2020, é a segunda vez que um dos navios do movimento de cargueiros à vela passa por Portugal. Muitos destes veleiros preocupados em construir uma cultura de comércio marítimo ambientalmente sustentável e assente em métodos tradicionais integram a aliança global Sail Cargo Alliance, criada em 2015. E têm razões para pensar em modelos alternativos: os navios que param nos portos europeus são o 8.º maior poluidor da União Europeia, segundo um estudo divulgado no final de 2019 pela Federação Europeia para os Transportes e Ambiente. Segundo a União Europeia, o transporte marítimo emite cerca de 940 milhões de toneladas de dióxido de carbono todos os anos e é responsável por 2,5% das emissões globais de gases com efeito estufa.

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De Gallant mede 37 metros, tem a bandeira do Vanuatu e transporta toneladas de carga sem poluição. Teresa Pacheco Miranda

Estivemos no De Gallant no dia em que partiam para França, sábado, 8 de Agosto. Desta vez, a viagem deverá durar dez dias. “Mas tudo depende do vento”, diz-nos o capitão francês. Se não houver vento, esperamos simplesmente. Não usamos o motor e chegamos quando chegarmos.” É parte do acordo com os compradores, que encomendam com antecedência para, juntos e com a ajuda de organizadores comunitários, reunirem a quantidade mínima que justifica a paragem num porto (mil litros). 

Depois de França, partem para encontrar clientes em Inglaterra e Holanda. Além de produtos Reigado e de vários vinhos, levam azeite Caixeiro e Passeite, outros dos principais produtores envolvidos na cooperativa inglesa. Em Dezembro costumam estar no meio do Atlântico. Desaguam em Janeiro, nas Caraíbas, de onde trazem café, cacau, rum. O plano é voltar a Portugal na Primavera de 2021. Gostavam de começar a chegar com mercadoria para vender nos portos portugueses. 

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Astrid Kause ajuda nas tarefas a bordo além de aprender a navegar Teresa Pacheco Miranda

As caixas de azeite Reigado já foram todas descarregadas e Emília, pela primeira vez a bordo, trinca um chocolate. Astrid Kause chega da cozinha com um bolo de banana ainda quente, condimentado com rum. “Há que aproveitar enquanto temos geradores”, comenta a investigadora em percepções das alterações climáticas, antes de voltar ao porto para transformar um monte de pallets de madeira em suportes estáveis para a mercadoria. “Não queria sentar-me mais atrás de um computador”, justifica. Juntou-se à equipa com pessoas com ou sem experiência de navegação há duas semanas e meia, diz, quase como se fizesse uma pergunta. “Perdi a noção do tempo.” Não sabe quando volta a pisar terra firme de vez. 

Durante três anos investigou a forma como a ciência da crise climática era percepcionada e comunicada a diferentes públicos. O objectivo da investigação na Universidade de Leeds, Inglaterra, era desenvolver e testar estratégias simples que indivíduos e responsáveis políticos pudessem aplicar em decisões diárias quando postos frente a frente com desafios complexos, como as alterações climáticas. Talvez por isso não seja estranho encontrá-la ali. “É um projecto altamente concreto, é positivo, é simples e muito evidente: usamos a energia do vento para transporte. Não sei porque é que as pessoas se esqueceram desta ideia.”

O veleiro com 37 metros de comprimento tem mais de cem anos. Foi construído em 1916 para ser um barco de pesca de arenque no mar do Norte e quase completamente reconstruído no final dos anos 1980 por uma fundação holandesa que trabalha com jovens com percursos diversos. Em 2017, Jean-François Lebleu comprou-o e criou a Blue Schooner Company.

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Jean-François Lebleu é o capitão do De Gallant Teresa Pacheco Miranda

“Somos basicamente a empresa transportadora”, diz o francês, uma vez que a New Dawn Traders não tem um navio próprio. Mas não sente que tenha um papel meramente logístico: “Eu e o meu sócio éramos navegadores profissionais há 25 anos em cargueiros normais e sempre sonhámos trabalhar de outra forma. Talvez seja um pouco presunçoso, mas queríamos construir outro mundoActualmente, em cargueiros normais, os capitães só trabalham pelo dinheiro e para sustentarem as famílias, já não gostam do que fazem. Posso falar por eles: nenhum gosta do que faz. O trabalho é muito esgotante, emocionalmente.”

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Sonhava com uma solução de transporte marítima descarbonizada, que não passasse por contentores gigantes uns em cima dos outros e que a única memória que deixava era uma mancha de poluição no ar e na água. O transporte limpo é uma das falhas apontadas à credibilidade dos produtos apontados como “mais sustentáveis”. “Agora, fazemos como os capitães faziam há centenas de anos. Em vez de não saberes o que carregas, fazes mesmo parte da cadeia. Quando começamos a trabalhar com empresas grandes, tudo se complica e deixa de ser humano. O que queremos mesmo é continuar humanos. Queremos respeitar tudo, especialmente a terra e as pessoas.” Transparência total, confessa: para aportar na Afurada, em Vila Nova de Gaia, ligou o motor durante 20 minutos.

Era isto que queria Alexandra Geldenhuys quando criou a New Dawn Traders como intermediária de uma rede colaborativa e transparente, em que os clientes podem fazer uma viagem ou ajudar a descarregar a mercadoria. “Podemos não ser a solução para como tudo é transportado no mundo, mas podemos fazer com que as pessoas pensem no que estão a comprar e como lá chega”, diz, citada pelo Guardian, antes de repetir uma das principais ideias no combate às alterações climáticas. ​“É fácil sentirmo-nos desesperados. Mas todos podemos fazer alguma coisa. Não precisamos de uma solução para tudo. Precisamos de mil soluções que possam existir em simultâneo.”

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