A História foi ter com Kamala Harris, a mulher certa na hora certa

Senadora de 55 anos é candidata a vice-presidente dos EUA pelo Partido Democrata. Poucos duvidam das suas capacidades, num momento político em que os eleitores negros podem decidir a eleição de Joe Biden e travar a reeleição de Donald Trump

Kamala Devi Harris tinha começado o seu percurso como procuradora-geral de São Francisco há apenas três meses, em Abril de 2004, quando a sua determinação e capacidade de resistir a pressões foram postas à prova pelos pesos-pesados da política da Califórnia - em público e perante milhares de polícias de todo o estado.

Pouco dias antes, o agente Isaac Espinoza, um polícia de 29 anos admirado pelos colegas por trabalhar numa das zonas mais violentas da cidade, fora assassinado por um membro de um gang no meio da rua, com tiros de uma espingarda automática AK-47.

O caso chocou o país e deixou a então jovem procuradora de São Francisco numa posição difícil: Harris acabara de ser eleita prometendo que nunca pediria a pena de morte para qualquer acusado, e agora teria de reafirmar a sua promessa perante a viúva de Isaac Espinoza, a filha do casal, Isabella, de três anos, e todo o corpo da polícia de São Francisco.

E foi isso que aconteceu. Apenas três dias depois do assassínio de Espinoza, muito antes do tempo que os procuradores costumam esperar para anunciar acusações, Kamala Harris declarou que o seu gabinete não iria pedir a pena de morte para o acusado, David Hill.

Como dissera na campanha, a sua decisão nestes casos seria sempre a prisão perpétua sem possibilidade de liberdade condicional. Agentes de todo o estado tinham acorrido à Catedral de Santa Maria, naquele dia 16 de Abril de 2004, para assistirem ao funeral de Isaac Espinoza.

Sem que ninguém esperasse, a senadora democrata Dianne Feinstein - uma das principais figuras no seu partido e apoiante de Harris nas eleições para procuradora de São Francisco - tirou-lhe o tapete quando se levantou para falar sobre a morte de Espinoza: "Não estamos apenas perante uma definição de tragédia, estamos face à circunstância especial prevista na lei da pena de morte."

Herança complicada

Cada vez mais pressionada e olhada com desprezo pelos polícias com quem teria de trabalhar nos anos seguintes, Kamala Harris respondeu num artigo de opinião publicado no jornal San Francisco Chronicle. "Algumas pessoas exigem que a pena seja a morte. Admito que também eu senti um desejo imediato de vingança", disse a então procuradora distrital.

"Mas eu dei a minha palavra ao povo de São Francisco de que sou contra a pena de morte e vou honrar o meu compromisso, apesar das fortes emoções evocadas por este caso. Ouvi esses apelos com atenção e com cuidado e compreendo e partilho a dor que os motivam, mas a minha decisão está tomada e é final."

Três anos mais tarde, em 2007, David Hilll viria a ser condenado a prisão perpétua sem possibilidade de liberdade condicional.

O caso de Espinoza foi recuperado em 2019 pelos jornais norte-americanos, quando Kamala Harris anunciou a sua candidatura às primárias do Partido Democrata para a escolha do adversário do Presidente Donald Trump nas eleições de Novembro.

Nessa altura, o San Francisco Chronicle antecipou que Harris seria atacada pela sua oposição à pena de morte para um assassino de polícias, se viesse a ser nomeada.

Mas já durante a fase de debates entre os candidatos do Partido Democrata, em Agosto do ano passado, uma das adversárias de Harris, a congressista Tulsi Gabbard, acusou-a precisamente do contrário - de não se opor à pena de morte depois de ter sido eleita procuradora-geral de todo o estado da Califórnia, em 2011.

Há seis anos, Harris recorreu da sentença de um juiz que tinha declarado a pena de morte inconstitucional na Califórnia. Face às críticas dos opositores da pena capital, que se sentiram traídos com o recurso, Kamala Harris voltou a dizer que estava a cumprir uma promessa eleitoral: a de que iria defender a aplicação das leis do Estado, e a decisão do juiz punha em causa "protecções importantes a que os acusados têm direito".

Muitas das suas decisões polémicas como procuradora fizeram dela uma das figuras mais complicadas do Partido Democrata, sobretudo para a ala mais à esquerda e progressista que emergiu nos últimos anos.

Se para uns Harris é um exemplo para as comunidades minoritárias - filha de pai jamaicano e mãe indiana, que se identifica como negra -, para outros é uma política que faz mais compromissos com o centro do que seria desejável quando o partido se entusiasma com figuras como Bernie Sanders ou Elizabeth Warren.

"Ela é inteiramente uma figura do establishment, tal como Biden", notou o New York Times numa análise à escolha de Kamala Harris como candidata a vice-presidente dos EUA. "Há anos que ambos se mantêm perto do mainstream do partido, com incursões à esquerda, mas sempre com um olho no eleitorado mais alargado."

É por isso que, antes de 25 de Maio, Kamala Harris era vista ainda como uma segunda escolha quando se falava sobre o lado B de uma candidatura de Joe Biden à Casa Branca.

Momento histórico

No início de Março, três meses depois de Harris ter desistido das primárias, ainda se admitia que o Partido Democrata nomeasse Pete Buttigieg, um homem branco sem grandes diferenças políticas em relação a Joe Biden.

E se alguma mulher surgia no topo da lista, nessa altura, era Elizabeth Warren, que seria uma ponte entre Joe Biden e o eleitorado mais progressista e desiludido com a derrota de Bernie Sanders; ou Amy Klobuchar, que ajudaria Biden a reconquistar para o Partido Democrata importantes estados do Midwest, perdidos para Donald Trump em 2016.

Mas a onda de protestos anti-racismo nos EUA em reacção ao homicídio de George Floyd por um polícia branco em Mineápolis, a 25 de Maio, operou outra reviravolta num ano de muitos inesperados.

Em poucas semanas, tornou-se evidente que a decisão de Joe Biden de escolher uma mulher, anunciada em meados de Março, teria de ser ainda mais afunilada: com o surgimento de cinco ou seis mulheres negras qualificadas para a função, incluindo Harris, a escolha de uma candidata branca como Elizabeth Warren ou Gretchen Whitmer, a governadora do Michigan, teria de ser muito bem explicada ao eleitorado negro do Partido Democrata.

Em meados de Junho, a senadora Amy Klobuchar, até então candidata à nomeação, já pedia a Joe Biden que escolhesse uma mulher negra para o acompanhar na candidatura à Casa Branca, dificultando também as hipóteses de Elizabeth Warren.

Para além das suas qualificações para o cargo, Kamala Harris é também a mulher certa no momento certo. Num ano marcado pelos maiores protestos anti-racismo nos EUA desde o movimento pelos direitos civis da década de 1960, e depois de a candidatura de Joe Biden nas primárias do Partido Democrata ter sido salva com vitórias esmagadoras na Carolina do Sul pelo eleitorado negro, Kamala Harris passou em poucos meses de ser uma escolha arriscada para ser a candidata inevitável.

Para além de ser a primeira mulher negra candidata à vice-presidência, Kamala Harris é apenas a terceira mulher nomeada para essa função. A primeira foi Geraldine Ferraro, congressista escolhida pelo candidato democrata em 1984, Walter Mondale, numa derradeira tentativa de salvar a sua corrida contra o então Presidente, Ronald Reagan. Seria preciso esperar 24 anos para que outra mulher fosse escolhida pelo republicano John McCain, em 2008: a conservadora Sarah Palin.?

As sondagens têm penalizado o Presidente Donald Trump pela forma como tem gerido a pandemia, e Joe Biden este ano não estava pressionado a equilibrar a sua candidatura com nomes fortes em estados como o Michigan ou o Wisconsin, perdidos por Hillary Clinton em 2016, por isso pôde escolher uma senadora da Califórnia, um estado solidamente democrata.

Sugerir correcção