Ágata Roquette

“Tem de ser como comíamos antes: arroz, massa, feijão, grão”

Já teve excesso de peso, o que facilita a empatia com os doentes e os leitores. A nutricionista já vai no sétimo livro e diz que não tenciona voltar a escrever, embora nunca diga nunca.

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Ágata Roquette é um nome que não é estranho a quem já tentou perder uns quilos a mais. A nutricionista começou a trabalhar há 15 anos e escreveu o primeiro livro em 2012. A Dieta dos 31 Dias foi um sucesso e sete livros depois já vendeu mais de 400 mil exemplares. O seu último título, O Grande Livro da Alimentação Saudável, publicado pela Contraponto, chegou às bancas há uma semana e já ocupa o primeiro lugar das vendas.

Na área das dietas e alimentação saudável, a especialista que na adolescência tinha excesso de peso é a autora de nutrição número um em Portugal. Praticante de kickboxing, ao longo de 300 páginas, Ágata Roquette, que dá consultas em Lisboa, no Atrium Saldanha, no seu consultório no Estoril e ainda colabora com a Accenture, uma empresa de consultoria de gestão, em que elabora programas de nutrição para os funcionários, não se centra só no emagrecimento, mas também abrange várias fases da vida, desde a infância à gravidez, escrevendo ainda sobre diversas doenças.

Para conseguir manter uma boa alimentação a longo prazo, o maior conselho que a nutricionista tem para dar aos leitores é que voltem aos hábitos de antigamente, do tempo dos pais e dos avós, e consumam ingredientes simples, em vez de comidas processadas.

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Passados sete livros ainda há ideias e temas para escrever sobre a nutrição?
Digo sempre que é o último cada vez que escrevo. Dá muito trabalho e escrever um livro é sempre um extra. O primeiro [A Dieta dos 31 Dias] foi uma surpresa. Este é diferente e, se de facto for o último, é geral, ou seja, fala um bocadinho sobre tudo o que se apanha nas consultas.

Por exemplo?
Não apanhamos só emagrecimento, temos imensas doenças. Hoje em dia os médicos acreditam muito mais em nós [nutricionistas] e temos muitos doentes enviados por médicos. Além disso, também é bom transmitir aos leitores que a nutrição não é só emagrecimento. Também me fui baseando nalgumas perguntas e sugestões que os próprios leitores me fizeram. Falei sobre o aumento de massa muscular, aumento de peso para pessoas muito magrinhas, algumas doenças (anorexia, bulimia). É um livro mais abrangente, sobre várias fases da vida.

Ter tido excesso de peso facilita o seu trabalho e a elaboração destes livros?
Sim. Sobretudo no primeiro. Como fiz a dieta exactamente como os meus pacientes a fazem, o que chamou muito a atenção das pessoas foi eu saber que no primeiro dia iam sentir isto, no terceiro dia ia ser o pior dia da dieta, no quarto já se sentiriam muito melhor... Foi uma fase muito complicada, fui superinfeliz durante sete anos da minha vida com 90 quilos. Apanhei a adolescência, a idade mais gira de uma pessoa. Hoje em dia tenho uma boa relação com a comida. Se calhar é mais fácil para mim transmitir isso aos doentes, que é possível mudar os hábitos. Não é de um dia para o outro, mas um dia dá o clique e a pessoa tem de aproveitá-lo. Há 13 anos que mantenho o mesmo peso. Como, não me arrependo de nada e depois compenso. Uma no cravo, outra na ferradura! Quando os meus pacientes conseguem aumentar a auto-estima, ficam mais confiantes e isso é importante, porque não estamos a falar só da saúde em geral, mas da saúde psíquica. 

Não recorre a diuréticos ou a comprimidos?
A dieta equilibrada tem tudo. Não quer dizer que o paciente não pergunte: “Posso tomar um diurético? Acho que estou a fazer retenção de líquidos. Eu digo que pode comprar numa ervanária, mas não obrigo nem falo nisso durante a consulta, só se me perguntarem. Como a alimentação acaba por ter tudo, prefiro que as pessoas vão buscar os nutrientes à comida. A dieta não precisa de mais suplementos do que aqueles que a pessoa come.

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Um dos temas abordados no livro é saber ler rótulos. Qual é a importância?
O exemplo que dou sempre e que está no livro é: há o pão embalado e há o pão normal, fresco, que no dia a seguir está duro que nem uma pedra, mas isso é um óptimo sinal. Um pão alentejano, se formos ver o rótulo, tem água, sal e farinha de trigo. Pão é isso, pão que sempre comemos, de antigamente. Se lermos o rótulo de um pão embalado, tem emulsionantes, intensificadores de sabor e conservantes e por isso é que dura tanto tempo. É superprático, dura uns 20 dias em casa, mas está carregado de químicos. É completamente desnecessário, quando se pode comprar pão fresco e mesmo que não possam comprar todos os dias congelem ou, no dia a seguir, fazem torradas. Para quê comprar pão embalado? Aquilo quase que não é pão, é uma coisa artificial, de fábrica. Cada vez temos mais no mercado os E [aditivos alimentares]. Imensa comida já pré-feita. Cada vez são utilizados mais químicos na indústria alimentar

Foi a primeira vez que referiu uma dieta vegetariana ou vegan num dos seus livros?
Foi. Normalmente ponho sempre uma receita ou outra com tofu ou soja, mas tenho muita gente em consulta que está a querer transitar para a dieta vegetariana. Normalmente os maiores problemas são em termos de anemia, por falta da vitamina B12 que está presente na carne e nas vísceras, mas temos muitos produtos que a substituem: as leguminosas, as sementes, os espinafres. Gosto de escrever sobre aquilo que me acontece na consulta e não andar a divagar. Acho que não vou ser vegetariana ou vegan, mas hoje em dia faço muitos refeições desse estilo e, se calhar, podemos ser todos um bocadinho as duas coisas. O meu cenário ideal de alimentação seria assim. 

Face aos valores da obesidade infantil, o que está errado na alimentação que as crianças têm e como pode ser melhorado?
A nível de pequeno-almoço acho que os miúdos devem comer pão e beber leite, como nós fizemos a vida toda. Não tínhamos mil e um tipos de cereais, embora hoje em dia haja a aveia, que é muito interessante, porque não tem açúcares nenhuns. A nível de almoço acho que as cantinas estão cada vez melhores, é comida normalíssima. Essa é uma questão mais nos adolescentes, que deixam de frequentar a cantina, mas nisso os pais devem mesmo contrariar. À tarde há mais erros alimentares, sobretudo os miúdos que vão para casa mais cedo e estão sozinhos, estão a estudar e recorrem muito às bolachas. É um alimento altamente viciante, supercalórico, não tira a fome. Quatro bolachas têm mais ou menos as mesmas calorias de um pão. Fruta, iogurte, frutos secos, normalmente é isso que aconselho.

E ao jantar?
O jantar é o problema. Trabalhamos muito mais, temos muito menos tempo e é fácil chegar a casa e pôr uma lasanha ou uma pizza no forno. Temos de nos orientar de alguma maneira e não precisa de ser um prato muito elaborado. Tem de ser como comíamos antes: arroz, massa, feijão, grão. O prato mais consumido cá em casa é grão com bacalhau. É fácil e rápido. Durante a semana não podemos ser muito exigentes. É preciso mudar alguma coisa, mas sem complicar muito, senão vamos acabar por não fazer nada bem feito. No livro das crianças [A Comida dos Miúdos cá de Casa] proponho muffins, queques, barritas de frutos secos com fruta e assim sem querer os miúdos estão a comer fruta, uma farinha mais saudável. 

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Neste livro distingue a fome da fome emocional, que está muito ligada à ansiedade.
Como não consigo resolver vidas pessoais, tento arranjar estratégias para que os doentes, nos dias em que notam que é fome emocional, vão directos ao assunto que é o chocolate preto. Está provado que o cacau é ansiolítico. É muito diferente ter fome, porque comemos pouco nesse dia ou comemos mal. A fome emocional não tem nada que ver com isso. Podemos ter comido o dia todo – o que as pessoas sentem é ansiedade. Outra coisa que ajuda imenso é o desporto. Acredito muito no desporto para a parte emocional, acho que libertamos ali muita coisa e fabricamos hormonas boas que nos fazem não precisar tanto da comida. Hoje em dia faço kickboxing e foi das melhores coisas que descobri há dois anos. Devem fazer alguma coisa de que gostem. Temos de tentar outras alternativas, senão vai ser sempre a comida de acesso rápido. E assim, mais cedo ou mais tarde, vamos voltar a aumentar de peso.

Hoje em dia há uma maior consciencialização do que é uma boa alimentação ou, pelo contrário, há tanta informação e alguma até contraditória, que as pessoas ficam baralhadas?
Muito do que eu escrevo no livro as pessoas já sabem. A questão é que não aplicam aquilo que aprenderam. E, sim, há muita informação. A nível da alimentação saudável há muita informação acertada – por exemplo, os frutos secos são saudáveis, mas engordam imenso, por isso, recomendo comer apenas três nozes. A granola tem mel, é saudável, mas para emagrecer é muito complicado, porque tem imensos açúcares. Também falo do abacate, sim, é saudável, tem gorduras muito interessantes, mas tem imensas calorias, não se pode andar a comer abacate de manhã à noite. Em geral, as pessoas sabem o que é uma alimentação saudável, falta-lhes aplicarem os conhecimentos.

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Ser nutricionista é estar em constante aprendizagem?
Hoje em dia sim, vão aparecendo cada vez mais alimentos novos. Gosto sempre de experimentar aquilo que aconselho. A quinoa, o bulgur, o millet, coisas que há uns anos se calhar os vegetarianos já conheciam, mas outros nunca tinham comido. As sementes de chia, de linhaça, os superalimentos, as espirulinas. O que há uns anos não fazia bem hoje alguns estudos mostram o contrário, e vice-versa. Mal ou bem temos de estar sempre informados. 

É a autora de nutrição número um em Portugal. Neste livro, sentiu mais responsabilidade na sua elaboração devido ao impacto que tem junto dos leitores?
Sim. [Pensei:] já que tenho tantos leitores, vou tentar que a minha mensagem seja só sobre alimentação saudável. Já que me lêem, pedir-lhes para que voltem a comer como comíamos antes. Temos uma alimentação mediterrânica tão boa, tão variada. Se eu chegar de alguma maneira a essas pessoas que ainda não conseguiram fazer a mudança, então valeu a pena escrever este livro. Depois deste vai ser difícil escrever outro.

Não podemos esperar por um novo livro?
Acho que para os próximos anos a alimentação não vai mudar assim tanto. Acredito que, se calhar, daqui a uns bons anos já se fale em comer insectos (acho que não vou adoptar tão cedo!); vai haver cada vez mais vegetarianos. Tenho de ter mais experiência, tenho de adoptar um bocadinho mais esse estilo de vida e, por isso, se evoluir, há-de ser mais para aí [que escreverei um novo livro], porque sobre alimentação saudável está escrito. Aquilo que até agora conheço foi o que escrevi. 

Texto editado por Bárbara Wong

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