Editorial

A Champions do nosso descontentamento

Se um anúncio de uma final com estádios vazios justificou tanta pompa e circunstância, que cerimónia devemos fazer para anunciar que a despesa pública e privada em investigação e desenvolvimento já está perto dos três mil milhões de euros?

A ronda final da Liga dos Campeões do futebol europeu anunciada e celebrada por um naipe de altas figuras que incluía o Presidente, o primeiro-ministro, um ministro, o presidente da Assembleia da República e o presidente da câmara da capital chegou finalmente. Para desapontamento de todos os portugueses, o evento que Marcelo Rebelo de Sousa considerou “único e irrepetível”, que “não tem preço” e que serviria de trunfo para o “regresso do turismo nacional”, o evento não passa de uma mão-cheia de nada. Como se esperava, os jogos decorrerão na desolação de estádios vazios; como se antevia, os adeptos dos clubes participantes vão ficar por casa; como se suspeitava, a realização da final da Champions em Lisboa serve apenas para um momentâneo ardor do sentimento da grandeza pátria que, como todos os ardores, passa depressa e raramente deixa rasto.

Não devemos querer mal a António Costa, a Marcelo Rebelo de Sousa, a Ferro Rodrigues, a Fernando Medina ou a Tiago Brandão Rodrigues por terem transformado o anúncio da conquista do mais importante torneio de futebol mundial entre clubes num momento de celebração das façanhas do país com claros contornos de propaganda – a escolha de Lisboa, foi-nos dito, era um prémio pelo sucesso no combate à pandemia. Meses e meses de confinamento, de agruras na saúde ou de dramas na economia justificam o exagero da reunião dos mais altos titulares de cargos políticos do país – ou até as isenções fiscais concedidas aos organizadores. De resto, é evidente que do ponto de vista promocional, lá se hão-de mostrar umas imagens de Lisboa ao mundo entre um pontapé de canto ou um livre indirecto. Não se perde nada, enfim.

Vale, no entanto, a pena pegar neste episódio, porque ele deixa transparecer esse velho vício do país que tende a privilegiar o fogo-fátuo em detrimento do que é duradouro e transformador. Porque se a conquista da final da Liga europeia é “uma vitória antecipada de todos os portugueses”, como fez notar António Costa, o crescimento de 53% do investimento das empresas nacionais em investigação e desenvolvimento nos últimos anos revelado esta terça-feira é afinal o quê?

A política, e isto não é novo, pressupõe um lado lúdico que não existe na percentagem do PIB que o país gasta em ciência. O problema está aí: na infantilização da vida pública que políticos e jornalistas acabam por cultivar. Se um anúncio de uma final com estádios vazios justificou tanta pompa e circunstância, que cerimónia devemos fazer para dar conta de que a despesa pública e privada em investigação e desenvolvimento já está perto dos três mil milhões de euros?

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