Covid-19: o “novo normal” também se aplica ao sexo

Associação lança conselhos para reduzir risco de infecção durante relações sexuais. Porém, o stress pode ser barreira na procura de parceiros.

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Reuters/ALY SONG

Há que procurar o chamado “novo normal” noutros contextos, tais como as relações íntimas. Embora ainda não se conheçam as consequências da pandemia nos relacionamentos sexuais dos portugueses, a psicóloga e sexóloga Joana Almeida considera que o stress causado pelo vírus pode ter afectado a disponibilidade mental para a procura de parceiros. Já a Terrence Higgins Trust, associação solidária do Reino Unido especializada em saúde sexual, lançou um guia de conselhos sobre como gerir os riscos de infecção em tempos de pandemia.

Evitar beijos, usar máscara e escolher posições que não impliquem proximidade cara a cara são algumas das sugestões que, apesar da aparente dificuldade, são práticas recomendadas para que se encontre “um equilíbrio entre a nossa necessidade de intimidade e os riscos de propagação do vírus”, afirma Michael Brady, director clínico da Terrence Higgins Trust, num artigo do site da associação.

“O melhor parceiro sexual durante a pandemia é a própria pessoa ou aquela com quem vive”, começa por aconselhar o guia. Por isso, é sugerida a masturbação, o uso de brinquedos sexuais e sexo via telefone ou online, já que são “as opções mais seguras porque não requerem proximidade com mais ninguém”. Apesar disso, relembram-se as precauções relativamente à partilha de informações e conteúdos como fotografias e vídeos que podem pôr em causa a segurança e a privacidade dos seus utilizadores.

A segunda melhor opção, segundo os especialistas, recai sobre as pessoas com quem se mora. Caso se decida ter relações com alguém com quem não se partilhe a habitação, “é sensato limitar o número de parceiros”, sublinha o guia.

De facto, a sondagem da Trust no Reino Unido indica que 84% das pessoas inquiridas revela que se absteve de ter relações sexuais com parceiros com quem não morava durante o período de confinamento. Essa realidade, segundo Ian Green, director-executivo do Terrence Higgins Trust representa: “Uma enorme oportunidade para quebrar a cadeia de infecções de VIH e aproximar-nos do nosso objectivo de acabar com as transmissões de VIH no Reino Unido na próxima década.” 

Embora o vírus “já tenha sido encontrado em sémen e fezes, aparentemente o sexo não é uma forma comum de propagação”. Ainda assim, “o contacto físico durante o sexo aumenta o risco de contracção da doença”, admite-se no documento, já que o vírus se propaga pelas partículas de saliva, muco ou respiração de quem tenha sido infectado, mesmo que não apresente sintomas.

Não beijar, usar máscara durante o sexo e dar preferência a posições que não impliquem proximidade entre os rostos dos parceiros são dicas que podem ajudar a reduzir o risco de infecção, assim como o uso de preservativo, incluindo durante o sexo oral. O já normal lavar as mãos ou a utilização de um desinfectante com base alcoólica também se aplicam ao sexo, quer antes, quer depois.

A Trust reforça a importância de manter um diálogo aberto com os possíveis parceiros. É importante questionar se sentiram sintomas nas últimas duas semanas ou se estiveram em contacto com alguém que estivesse infectado. “Se o parceiro não se estiver a sentir bem, não tenham sexo”, enfatiza o guia do Trust.

Disponibilidade “para relações sexuais é muito menor"

Em Portugal ainda não se conhecem as consequências da pandemia nas relações sexuais. Contudo, “as descrições dos portugueses vão começar a surgir nos próximos tempos”, aponta Joana Almeida, sexóloga e psicóloga clínica, acrescentando ter havido “algum financiamento e interesse” em produzir estudos e estatísticas sobre a questão. “E ainda bem”, sublinha a membro da Sociedade Portuguesa de Sexologia Clínica.

Embora admita que a pandemia tenha criado “novas dificuldades” à procura de parceiros, sobretudo no que toca a “conhecer e aproximar-se de pessoas”, a psicóloga lembra que as aplicações e sites de encontros online podem ter tido um papel bastante importante” para colmatar o isolamento, “talvez mais numa postura social do que sexual”. De facto, a pandemia levou a que cada vez mais portugueses recorressem aos encontros online.

A especialista sublinha que o contacto humano e social são “partes importantes na nossa saúde mental” e, por isso, “claro que o isolamento tem consequências em termos emocionais”. A psicóloga lembra o caso “difícil” dos jovens adultos “cujas relações íntimas, românticas, ficaram em pausa porque estiveram isolados durante muitos meses”.

A “maior preocupação” de Joana Almeida em termos de saúde mental recai sobre “as pessoas que já tinham alguns problemas emocionais que a pandemia veio amplificar”. Por outro lado, esta pode ter trazido “novos problemas que as pessoas não estavam à espera”, isto porque “têm menos estratégias para lidar com as dificuldades, as estratégias de resiliência estão menos acessíveis”.

Esses problemas podem, inclusive, funcionar como uma barreira no que toca à disponibilidade sexual. “O facto de alguém ter perdido o trabalho nesta altura, por exemplo, é um factor de stress para a saúde mental e, portanto, a disponibilidade para estar com outras pessoas, a disponibilidade para o prazer e para as relações sexuais é muito menor”, explica a terapeuta sexual.

Porém, a covid-19 pode ter facilitado a questão da clarificação no consentimento nas relações sexuais. A sexóloga lembra que “andávamos há muito tempo a discutir o consentimento sexual, de como é que se tem a certeza de que a outra pessoa também quer”. Agora “há um vírus que obriga a comunicar sobre isso e que faz com que as pessoas tenham de fazer essa negociação”. Aquilo que outrora era “uma conversa subjectiva” e “difícil de começar”, apesar de “ter de ser feita”, agora é “obrigatório porque a covid-19 faz parte da conversa”.

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