“Dever moral” de abrir escolas leva Governo britânico a ignorar dados de um estudo sobre a covid-19

Governo do Reino Unido cita estudo que diz que a transmissão do coronavírus é reduzida entre as crianças e insiste no regresso às aulas em Setembro, em Inglaterra. Mas ignora as conclusões do mesmo estudo sobre o efeito do vírus nos alunos do ensino secundário.

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Boris Johnson visitou recentemente uma escola primária em Upminster (Inglaterra) Reuters/POOL
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Primeiro-ministro jogou futebol com as crianças da St. Joseph's Catholic Primary School EPA/PIPPA FOWLES/10 DOWNING STREET/ HANDOUT

O Governo do Reino Unido está determinado em avançar com o plano de reabertura de todas as escolas de Inglaterra no início de Setembro, mas envolveu-se numa controvérsia por causa das ferramentas a que recorreu para promover esse “dever moral” – nas palavras de Boris Johnson.

Gavin Williamson, ministro da Educação, quis reforçar a mensagem do primeiro-ministro e citou um estudo da Saúde Pública de Inglaterra (PHE, na sigla original), agência do Ministério da Saúde para o território inglês, que mostra que o risco de transmissão do vírus SARS-CoV-2 é bastante reduzido entre crianças.

“O último estudo do PHE, que deverá ser publicado ainda este ano – e que é um dos mais extensos estudos do mundo sobre o coronavírus nas escolas – deixa bem claro que há poucos indícios de que o vírus seja transmitido na escola”, destacou Williamson, no domingo.

O estudo em causa teve como objecto de investigação alunos das creches e escolas primárias inglesas, reabertas no início de Junho. Em cerca de 9 mil crianças, apenas seis testaram positivo para o novo coronavírus e não há indícios de que estas tenham sido infectadas umas pelas outras.

O ministro britânico foi, no entanto, criticado por mencionar apenas as conclusões positivas do estudo, de forma a sustentar a posição política do executivo sobre o início do ano lectivo presencial. É que a mesma investigação também refere que os índices de contágio entre os alunos do ensino secundário – entre os 11 e os 16 anos, no sistema de ensino britânico – são muito semelhantes aos das pessoas em idade adulta. Elevados, portanto.

“Os jovens do [ensino] secundário têm mais probabilidades de serem infectados, de terem uma infecção silenciosa, de transmitirem a infecção e de ficarem doentes”, revelou ao Times uma fonte da PHE, familiarizada com o estudo, que sublinha que, partir de uma determinada idade, “os corpos” dos adolescentes já “começam a agir como pequenos adultos”.

“Há uma preocupação genuína de que as crianças do secundário não sejam iguais às crianças da escola primária [em termos de transmissão do vírus]. Assim que o controlo comunitário da covid-19 se perder, poderemos ver surtos nas escolas secundárias”, acrescentou.

Cientistas incomodados

A PHE dividiu os grupos de crianças entre menores e maiores de dez anos de idade e identificou níveis de contágio diferentes – mais elevados no segundo grupo.

Os cientistas da agência inglesa ouvidos pelo Times defendem, por isso, a aplicação de medidas de contenção mais restritivas nas escolas secundárias e assumem ter ficado incomodados com a forma como os ministros britânicos apresentaram as conclusões do estudo à opinião pública. Não só por terem omitido uma parte relevante e importante do mesmo, como pelo facto de terem conhecimento de que a investigação ainda está em curso.

O Governo conservador tem sido regularmente informado sobre as revelações do estudo da PHE, através do SAGE – órgão consultivo em matérias científicas de emergência –, mas os seus resultados preliminares só estão previstos para a próxima semana. Resultados finais só no Outono, já com as aulas a decorrer, uma vez que é necessária uma amostra significativa de alunos.

Pressionada pelas críticas, Downing Street mandatou o secretário de Estado da Saúde, Edward Argar, a esclarecer as palavras do ministro da Educação, junto da imprensa.

Em declarações à Sky News, esta terça-feira, Argar disse que o estudo é “um trabalho importante”, mas assumiu que “ainda não está completo”, pelo que o Governo deve ser “cauteloso” a “retirar conclusões” e a gerir a informação de que dele advém. Ainda assim, defendeu a principal premissa da mensagem de Williamson.

“Com base nos estudos já concluídos e comparáveis internacionalmente, estamos confiantes de que as crianças e os jovens apresentam bastante menos riscos do que os adultos de contrair e de transmitir amplamente esta doença pela comunidade”, afirmou o secretário de Estado.

Na véspera, em entrevista à BBC, tinham-lhe perguntado se o Governo estava a ponderar a realização de testes de rotina à covid-19, para alunos e professores do ensino secundário, ou decretar a obrigatoriedade do uso de máscaras protectoras nos liceus. Argar respondeu negativamente, apesar de não excluir totalmente esses cenários.

“Neste momento entendemos que não é necessário, até porque estamos a criar bolhas sociais com diferentes grupos de turmas, ou de anos”, esclareceu.

Johnson confiante

Se houvesse mais dúvidas sobre a convicção do Governo do Reino Unido em manter o rumo sobre a reabertura das escolas, o próprio Boris Johnson fez questão de as dissipar. 

Confrontado com o estudo da PHE sobre os alunos do secundário, o primeiro-ministro garantiu esta terça-feira que Downing Street vai fazer tudo para evitar novos surtos, mas que não tenciona mudar de planos sobre as escolas de Inglaterra. Até porque, sublinha, está “muito impressionado com a forma como as escolas se puseram prontas” para a reabertura.

“É óbvio que temos de garantir que não temos uma segunda vaga e que fazemos tudo para a evitar”, reagiu Johnson, citado pelo Guardian. “O que é importante as pessoas saberem é que temos de ter as escolas abertas, que vamos ter as escolas abertas e que também vamos manter a nossa disciplina. E as escolas têm planos cuidadosamente pensados para gerir a situação”. 

O Reino Unido tem perto de 314 mil casos de infecção por SARS-CoV-2 confirmados e mais de 46 mil mortos, segundo a Universidade Johns Hopkins. É o país europeu com mais mortes por covid-19.

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