Miguel Manso
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Miguel Manso

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Os bares de praia e o fim do Verão

Com a característica música de discoteca em alto e bom som, muitos são os que se aproximam e entram, ignorando o distanciamento social, entupindo a entrada e saída da praia à custa de inúmeras selfies e fotografias de grupo no idílico litoral.

Tendo a sorte de viver ao pé do mar, ao pé da praia, ao pé do princípio e do fim, ao pé do calor, voltar a casa no Verão não é apenas uma promessa, mas um sonho que insisto em repetir anualmente.

Assim, ao longo do querido mês, não passa um dia sem os pés na areia e a toalha estendida numa praia em tudo distante da realidade anglo-saxónica, ergo salas de jogos, restaurantes atrás de restaurantes, pontões a perder de vista onde moram outras tantas salas de jogos, prédios ou avenidas.

Não. As praias portuguesas, excepção feita a certas partes do Algarve, lá está, destino britânico, têm simplesmente mar, areia e, nem sempre mas regularmente, um bar de praia. Os britânicos chamam-lhes posh beaches, traduzido por “praias para gente fina”. Mas as nossas praias não são praias nem para gente fina nem menos fina, são praias e as praias são para todos.

E não fosse pela chegada da silly season e talvez, só talvez, teríamos algum descanso. Fruto dos tempos que correm, a presença da polícia marítima e das câmaras de televisão tem sido uma constante ao longo da orla costeira de modo a garantir a não-aglomeração de pessoas e o cumprimento da legislação em vigor. 

Tal foi o caso no bar da praia onde, regularmente, damos descanso ao Verão. Veio nas notícias há uma semana, mais precisamente no dia 2 de Agosto. Uma acção de fiscalização da Polícia Marítima chamou a atenção do proprietário ao identificar a ausência de licença para ter um DJ a passar música, bem como o inaceitável volume de som quando apenas é permitido ao bar ter música ambiente. Por inaceitável volume de som entenda-se estarmos ao nível de um concerto ao vivo para quem na praia queira e não queira ouvir a estridente música tecno a bombar de manhã à noite.

O proprietário do bar, não obstante, agradeceu a presença das autoridades, ao mesmo tempo culpando a Câmara Municipal pela falta de licença para passar música. Ou seja, se um bar está a quebrar a lei em vigor pela falta de licenciamento, a culpa é de quem não licencia, assim empurrando os proprietários dos bares para a inevitabilidade da ilegalidade. Mas se calhar, e só se calhar, alguma razão existe para evitar tais licenciamentos, os quais serão o óbvio chamariz das multidões que todos procuramos evitar. Isso, ou então sou eu a ver o mundo ao contrário.

A polícia passou e as câmaras de televisão também e no dia a seguir, segunda-feira, nada, nem DJ nem ruído e muito menos clientes. A calma durou 24 horas. De terça-feira para cá tanto a presença do DJ como o som estratosférico a ecoar pela praia têm sido a nossa companhia de Verão. Incólume, um bar de praia não faz senão estragar o Verão, a praia e o sol a quem procura as paragens à beira-mar, enquanto estica a corda diante dos olhos de todos.

O resultado está à vista: com a característica música de discoteca em alto e bom som, muitos são os que se aproximam e entram, ignorando o distanciamento social, entupindo a entrada e saída da praia à custa de inúmeras selfies e fotografias de grupo no idílico litoral, assim satisfazendo o ego dos instagrammers

Os ajuntamentos assim verificados diariamente não são apenas uma incúria, são um perigo para a saúde pública e, infelizmente, não são caso único. Se queremos ultrapassar a presente crise, tal só será possível em conjunto e enquanto um bar de praia insistir em chamar clientes à custa da surdez dos mesmos, receio serem os nossos esforços em vão.

No fim? No fim seremos os únicos culpados da nossa situação. Haja bom senso. Entretanto já contactei a Polícia Marítima e os responsáveis do bar. A música? A música continua a tocar. E se calhar sou eu que já estou velho, caduco, cota e marreta, saudoso do bar do “Tubarão” de outros tempos na mesma praia, uma simples barraca de madeira com um estrado pintado de areia onde passávamos as tardes a comer gelados, sem outro som para além das ondas ao encontro da praia a embalar-nos de volta ao mar. 

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