Opinião

Avante, camarada! Nem a covid nos pára!

Quando tantos eventos foram adiados, quando se pedem tantos sacrifícios aos Portugueses, quando a economia ameaça colapsar, quando o número de mortos é um triste memorial da realidade, o PCP fala em coragem. Estamos conversados.

O ser humano é, por definição, incongruente. Daí que os partidos políticos, constituídos por elas e por eles, também o sejam. E o salto para as instituições, mesmo abstractamente consideradas, conduz ao mesmo resultado. O problema maior reside nas hipóteses em que essa incoerência mina os alicerces da confiança entre os cidadãos e quem os representa.

O modo como o actual Governo vem gerindo a pandemia merece, em meu juízo, uma valoração em regra positiva. Porém, detectam-se, cada vez mais, incongruências gritantes, sem qualquer explicação racional, mas somente ditadas por ocasionais conveniências políticas e/ou económicas. Já acontecera com o 1.º de Maio, irá suceder com o triste espectáculo do final da “Champions”, cujo anúncio mais se assemelhava a uma proclamação oficial do fim da covid-19, para já não falar no tratamento discriminatório que bares e discotecas vêm recebendo.

Das piores coisas que numa democracia pode acontecer é a percepção de que há filhos e enteados. Já sabemos que os há sempre: os mais próximos de quem está no poder, por filiação ou outros jogos de interesses; e os demais, os que estão longe de Lisboa – afinal, a distância entre o Porto e a capital não é de 300, mas de 3000 km, e para outras zonas do país é quase inultrapassável, mesmo com as auto-estradas cavaquistas; “não é por mal, até chamávamos este e aquele, mas desculpem lá, nem nos lembrámos.” Numa palavra, quem tem o mando ou os seus apaniguados e os demais. O que impressiona são as vezes em que o poder político perde a vergonha das aparências e, por isso, num certo sentido, até merece mais respeito: diz directamente ao que vai.

Como sucede com a festa do Avante, que agora já não é “festa”, mas “evento político-cultural”. Como jurista, conheço bem a subtileza das palavras, tal como estou treinado a ver o conteúdo para além da forma. Do que conhecemos, pouco mudará na Quinta da Atalaia. Nada me move contra o PCP. Aliás, sou daqueles que reconhece o seu inquestionável papel no fim do regime do Estado Novo e a defesa dos direitos dos trabalhadores, considerando-o um partido charneira no nosso espectro político. E se há algo que caricaturalmente se associa aos comunistas é a congruência. Ainda que a URSS colapse, ainda que os tanques estejam em Tiananmen, mesmo que Maduro prenda e mate sem motivação justificável, ainda que o pequeno louco de cabelo esquisito brinque aos foguetões, mesmo que em Cuba não possa existir oposição, o PCP defende as supostas emanações da sua ideologia com uma admirável força que roça a própria negação da realidade.

Ora, mais uma prova dessa coerência: haja ou não risco para a saúde pública, Avante é Avante. Dizia um deputado comunista que é “um acto de coragem”. De quem? Só se for de quem lá vai. Quando tantos eventos foram adiados, quando se pedem tantos sacrifícios aos Portugueses, quando a economia ameaça colapsar, quando o número de mortos é um triste memorial da realidade, o PCP fala em coragem. Estamos conversados, embora, genuinamente, esta posição me deixe triste, pela tal importância que reconheço aos comunistas no concerto dos partidos em Portugal. É evidente que vamos ser intoxicados com exemplos de medidas de distanciamento social, com isto e com aquilo, mas, na verdade, os festivais de música não existiram, os demais partidos não realizaram as suas reuniões magnas, ficámos a dar aulas a partir de casa; tudo se alterou.

E o Governo e a DGS? Bom, esta última é um órgão da Administração Pública directa, pelo que a sua independência é, com qualquer partido, mais aparente que real. A decisão, por isso, é política, embora quem a tome se refugie atrás dos técnicos. Nada de novo – a tecnocracia decisória quando dá jeito. Afinal, o PCP participa na solução governativa, com ou sem papel passado, e o PS desconfia mais do BE que dos comunistas, que julga serem mais congruentes. Afinal, o Avante é a segunda fonte de rendimento do PCP – ai o capitalismo, camaradas! E em Belém também interessa assobiar para o lado – as presidenciais ali tão perto. Nada de novo sob o sol, portanto.

Depois não se queixem do penhasco entre eleitores e eleitos, da abstenção, de que os mais qualificados não vão para a política. Pudera! Com decisões como esta, que, se analisada objectivamente, sem partidarites agudas, é um hino perfeito ao mau-senso. E, como dito, às escancaras, com a população entretida no ganha-pão diário cada vez mais difícil. Enquanto a actuação governamental continuar com buracos de queijo suíço como este em termos de coerência, não se queixe de sermos banidos de corredores verdes, do impacto no turismo. Os estrangeiros também sabem o que se passa cá, e naturalmente que havendo medidas por eles tomadas que são apenas para protecção dos seus interesses, em nada ajudam tiros no pé desta monta.

Avante, camarada!

Nem a covid nos pára!

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