Proprietário de jornal e activista pró-democracia detidos em Hong Kong

É a primeira vez que a controversa lei de segurança nacional visa directamente os meios de comunicação social. Horas depois da detenção de Jimmy Lai, a activista Agnes Chow foi levada pela polícia de Hong Kong.

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Autoridades invocaram lei de segurança nacional para deter Jimmy Lai Reuters/TYRONE SIU
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Agnes Chow compareceu em tribunal na passada sexta-feira. Foi detida três dias depois Reuters/TYRONE SIU

Jimmy Lai, fundador do diário Apple Daily e uma das figuras do movimento pró-democracia de Hong Kong, foi detido esta segunda-feira pelas autoridades da região administrativa chinesa, ao abrigo da lei de segurança nacional que entrou em vigor no final de Junho.

De acordo com o South China Morning Post, Lai, de 71 anos, foi detido na sua própria casa, acusado de “conluio com forças estrangeiras”, “sedição” e “conspiração para cometer fraude”. 

Lai, que também tem cidadania britânica, pode enfrentar uma pena de prisão de três a dez anos, acrescenta o The Guardian. É a primeira vez que a lei de segurança nacional imposta pelo Governo central chinês e aplicada com a anuência do Governo da região visa directamente os meios de comunicação social em Hong Kong. 

“É o fim da liberdade de expressão em Hong Kong. A lei de segurança nacional está a esmagar a liberdade da nossa sociedade, espalhando a política do medo”, afirmou Nathan Law, activista pró-democracia a viver em Londres, no Twitter.

Horas depois da detenção de Jimmy Lai, foi revelado que Agnes Chow, uma das fundadoras do partido Demosito, ao lado de Joshua Wong, foi detida pelas autoridades de Hong Kong, também no âmbito da lei de segurança nacional

Chow, de 23 anos, já tinha sido considerado culpada de incitar protestos considerados ilegais pelas autoridades em Junho do ano passado, durante as manifestações contra a lei de extradição que Pequim quis impor na região administrativa, mas que acabaria por cair.

Além de Jimmy Lai, foram detidas mais oito pessoas esta segunda-feira, com idades entre os 23 e os 72 anos, segundo as autoridades de Hong Kong. Entre os detidos, numa operação que envolveu mais de 200 polícias, estão os dois filhos de Lai, bem como Cheung Kim-hung, director da Next Digital, outra empresa de media do empresário. 

Após as detenções, as autoridades levaram a cabo buscas nas instalações do Apple Daily, um jornal pró-democracia, confiscando documentos. A operação foi transmitida em directo nas redes sociais pelos jornalistas. 

Após a operação, jornalistas de várias organizações noticiosas, incluindo a Reuters, a AFP, Associated Press e a RTHK foram impedidos de participar na conferência de imprensa, noticia o Guardian.

A detenção de Jimmy Lai e as buscas no Apple Daily não foram propriamente uma surpresa, mas estão a ser acompanhadas com grande apreensão em Hong Kong, por constituir o primeiro ataque à imprensa desde que a nova lei entrou em vigor. Lai está também entre os 25 activistas acusados na última sexta-feira por participarem, no passado mês de Junho, numa vigília em memória das vítimas do massacre de Tiananmen, considerada ilegal pelas autoridades.

No passado mês de Fevereiro, juntamente com outros dois políticos pró-democracia, Lai foi acusado de “intimidação” e “manifestação ilegal”.

Lai tem visitado Washington frequentemente, onde se encontrou, por exemplo, com o secretário de Estado norte-americano Mike Pompeo, para pedir apoio para a oposição a Pequim na região administrativa. O jornal estatal chinês Global Times classificou-o como um “traidor dos tempos modernos”.

As detenções desta segunda-feira surgem poucos dias depois de os Estados Unidos terem imposto sanções à chefe do Executivo de Hong Kong, Carrie Lam, por esta “pôr em causa a autonomia de Hong Kong”, pelo que as operações desta segunda-feira estão a ser interpretadas como uma resposta de Pequim a Washington. 

A nova lei de segurança nacional entrou em vigor no final de Junho e foi justificada por Pequim como uma medida necessária para combater o terrorismo e manter a ordem no território. Para a oposição, no entanto, pretende silenciar as vozes dissidentes e acabar definitivamente com o princípio de “um país, dois sistemas”.

A legislação prevê penas que podem ir até à prisão perpétua para crimes de para os crimes de secessão, subversão, terrorismo e conluio com forças estrangeiras. Foi aplicada logo no dia em que entrou em vigor, levando a algumas detenções, e no passado dia 30 de Julho, foi utilizada para deter quatro activistas pró-democracia. No dia seguinte, o executivo de Carrie Lam anunciou o adiamento das eleições que estavam marcadas para Setembro, onde se previa uma vitória da oposição a Pequim, invocando a pandemia de covid-19.