Um morto e 3000 detenções na Bielorrússia. Oposição não reconhece vitória de Lukashenko

Comissão eleitoral confirmou vitória de Lukashenko, com 80% dos votos, mas oposição não reconhece os resultados e garante que tem a maioria do país do seu lado. Milhares saíram às ruas para contestar resultado e a polícia respondeu com canhões de água, gás lacrimogéneo e balas de borracha.

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Svetlana Tikhanouskaia (esq.) com Maria Kolesnikova, representante de Viktor Babariko, candidato impedido de concorrer às eleições Reuters/VASILY FEDOSENKO
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Milhares de bielorrussos saíram às ruas para contestar o resultado de domingo Reuters/VASILY FEDOSENKO
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Pelo menos uma pessoa morreu e dezenas ficaram feridas durante a madrugada de domingo para segunda-feira, em Minsk, na Bielorrússia, depois de a polícia ter recorrido à força para dispersar milhares de manifestantes que contestavam a vitória de Aleksander Lukashenko nas presidenciais de domingo. Segundo a Reuters, que cita organizações de defesa dos direitos humanos no terreno, uma carrinha da polícia atropelou dezenas de pessoas e uma delas não resistiu aos ferimentos. A polícia bielorrussa deteve 3000 pessoas na sequência dos protestos. 

Na manhã desta segunda-feira, a comissão eleitoral bielorrussa confirmou a vitória de Lukashenko, revelando que o líder autoritário que governa a Bielorrússia com mão de ferro há 26 anos conseguiu 80% dos votos. Já a adversária, Svetlana Tikhanouskaia, ficou-se pelos 9,9%, apesar de ter conseguido uma onda de apoio à sua volta nas últimas semanas, tendo chegado a juntar mais de 63 mil pessoas num comício em Minsk. 

Depois de terem sido divulgados os resultados oficiais, Tikhanouskaia não reconheceu a vitória de Lukashenko e pediu a recontagem dos votos nas assembleias onde houve problemas. “Nós já ganhámos, porque superámos o nosso medo, a nossa apatia e a nossa indiferença”, disse a candidata da oposição em conferência de imprensa na manhã desta segunda-feira, citada pela BBC. Tikhanouskaia disse que pretende iniciar conversações com as autoridades para negociar uma transacção pacífica de poder. “Vou acreditar nos meus olhos, a maioria esteve connosco”, reiterou. 

Assim que as primeiras projecções foram reveladas, confirmando o sexto mandato para Lukashenko, milhares de pessoas saíram às ruas de Minsk e de outras cidades do país para contestar o resultado. Ouviram-se gritos de “vitória” e exigiu-se a saída do Presidente do poder.

Os manifestantes agitaram bandeiras e buzinaram em solidariedade com a oposição. A polícia e os militares, que no domingo cercaram as praças em torno dos edifícios governamentais e rodearam os acessos às auto-estradas que conduzem à capital, responderam em força e dispararam canhões de água, gás lacrimogéneo e balas de borracha para dispersar os manifestantes.

Vídeos publicados nas redes sociais mostram filas de polícias com escudos, a avançar sobre a multidão no centro de Minsk, atirando granadas atordoantes. Durante a noite de domingo, foram-se sucedendo as imagens de detenções, com dezenas de pessoas ensanguentadas a serem levadas pela polícia.

Há relatos de manifestações em dezenas de outras cidades do país, como Brest, Kobryn, Zhodino, mas em algumas localidades mais pequenas a polícia recusou entrar em confronto com os manifestantes.

“É certamente o maior protesto que já vi na Bielorrússia desde que Lukashenko chegou ao poder”, disse ao The Guardian David Marples, professor na Universidade de Alberta, no Canadá, e especialista na Bielorrússia. “Em termos de eleições organizadas por Lukashenko, nunca houve nada assim. Parece-me que todo o país está a favor da mudança”, acrescentou.

Svetlana Tikhanouskaia, uma antiga professora de inglês que desafiou Lukashenko depois de o seu marido, o youtuber Syarhey Tikhanouski ter sido detido e impedido de concorrer às presidenciais, pediu aos seus apoiantes para evitarem provocações e apelou ao exército para não atirar sobre o seu próprio povo. “Eu sei que os bielorrussos amanhã [hoje] vão acordar num novo país e espero que haja boas notícias. Por favor, parem com a violência”, apelou.

Na madrugada de sábado para domingo, a candidata da oposição, que congregou à sua volta um apoio nunca antes visto no país, revelou que tinha sido obrigada a sair de casa, depois de vários membros da sua equipa de campanha terem sido detidos na véspera. De acordo com organizações de defesa dos direitos humanos, antes das eleições, foram detidas pelo menos 1300 pessoas na Bielorrússia

Na presidência há 26 anos, depois de alterar a constituição para se perpetuar no poder, Lukashenko enfrentou, pela primeira vez, uma oposição unida. Os comícios de Tikhanouskaia foram descritos pela imprensa internacional como os maiores desde o colapso da União Soviética.

Poucos acreditavam em eleições livres – observadores internacionais não reconhecem eleições democráticas no país desde 1995 – e o facto de mais de 40% dos bielorrussos ter votado antecipadamente aumentou as suspeitas de que o regime poderia tentar manipular os resultados.

Para dificultar a monitorização do processo eleitoral, jornalistas no local reportaram problemas no acesso a redes sociais como o Telegram, o Twitter, o Viber ou o WhatsApp, bem como a sites ligados à oposição.

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