Opinião

A ver os peixes passar

Observar o horizonte acaba por ser quase sempre uma forma de nos escutarmos a nós, ou para lá dos limites de nós, o que ainda acaba por conter os contornos do que somos.

Nos últimos anos era habitual vê-la, num local altaneiro, junto à Igreja de S. Roque, perto de Ponta Delgada, na ilha de São Miguel, debruçada para a imensidão do mar, protegida do sol por múltiplas copas de árvore.

Uma senhora de idade, toda vestida de preto, às vezes sozinha, outras com uma vizinha. Do local onde se posicionavam nem sequer viam o areal da praia por perto, mas era possível observar surfistas que por ali tentavam apanhar-se na onda. Um dia meti conversa. Perceber o que ali fazia.

“É a minha janela”, disse-me. “Há quem goste de ver as pessoas passar, mas eu gosto é de ver os peixes a passear”, riu-se, adiantando que era capaz de ficar ali horas, só a apreciar a vastidão do oceano. E mais me disse, adiantando que vivera num local interior da Madeira, onde raramente via azul, só entendendo aquele fascínio quando se mudara para os Açores.

No Alentejo existe uma expressão, “ir dar fé”, que remete para o acto de ir à janela e ver o que se passa no exterior, sem objectivo específico. É deixar entrar o imprevisível. Uma necessidade de nos abrirmos à vida, sem qualquer préstimo aparente, como faz a senhora de S. Roque.

Pensei nela ao ler, há dias, que Isidre Correa, de 62 anos, internado no Hospital del Mar, em Barcelona, infectado com o coronavírus, tinha solicitado que o levassem à praia contígua, para sentir a brisa e contemplar o oceano. O seu pedido foi aceite e as imagens de um doente deitado numa cama a ver o mar correram mundo. Quando lhe perguntaram do porquê da necessidade, bloqueou, não foi capaz de adiantar razões plausíveis, mas nem por isso deixou de gerar empatia.

É natural. Muita gente diz ficar ansiosa sem o mar por perto. Não é banhar-se, é apenas vê-lo, mas não existe propriamente uma racionalidade nessa circunstância. Quando tentamos justificar-nos, sorrimos com deleite, fechamos os olhos, falamos de libertação, de respirar, de purificar o olhar, ou da vastidão que nos faz relativizar as estreitezas da vida, ou que nos confronta com a nossa pequenez. O mar ondula como a luz ou o som. Parece não ter principio, nem fim, evocando talvez o privilégio de se estar vivo. Não existe uma lógica nele, mas quase toda a gente se reconhece nessas sensações.

Recordo-me do dia em que dei as primeiras braçadas, sem bóia, sem ajuda, só eu e o mar, quando segundos antes o meu pai colocava a sua mão por debaixo da minha barriga de miúdo, auxiliando-me, até àquele momento exacto em que percebi que a mão dele já não estava lá e estava mesmo a nadar, misto de medo, de emancipação e intuição de liberdade absoluta.

O mar é uma necessidade inexplicável. Com o céu, principalmente no campo à noite, quando revela outras profundidades, ou com uma planície a perder de vista, o efeito pode ter contornos semelhantes. Observar o horizonte acaba por ser quase sempre uma forma de nos escutarmos a nós, ou para lá dos limites de nós, o que ainda acaba por conter os contornos do que somos. Sentarmo-nos calmamente no cume de um monte. Pousar os olhos sobre a paisagem. Analisar pormenores, cores, deslocações, silhuetas.

Não existe na contemplação uma utilidade. Mas às vezes é assim que se instala o gosto de compreender, essa coisa da ordem do ilimitado, que nunca se esgota. Vivemos num mundo que foi impondo a ideia de que ter horizonte é viajar e fazer muitas milhas, mas às vezes é apenas aceitar qualquer coisa que está lá sem motivo aparente. Uma realidade que é, apenas. A permanência, o rumor, o estar, a sensualidade de um movimento ínfimo, o abandonar-se, ver ao longe a partir do centro de nós próprios.

Principalmente para quem reside longe dele, e numa altura em que muitos não têm sequer meios para ter férias, observar simplesmente o mar pode ser o propósito mais vital que existe. Bastava vê-lo, aquela luminosidade distinta no horizonte, uma franja azul que se vai desvendando, e ei-lo, mesmo ali, como um mistério intangível, os peixes a passar, o mar.

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