Crónica

Imagine: e se nunca se tivesse visto ao espelho?

A história do espelho tem tudo: vaidade, moral, psicologia, psicanálise, somos nós lá reflectidos. E se nunca me tivesse visto ao espelho? Como saberia como era? Que ideia teria de mim?

Ainda só vou no início do livro, mas já me devia ter posto a contar quantas vezes me vi ao espelho em tão poucas páginas. Sei lá eu, é um gesto tão banal que nem me lembro. É certo que o ambiente de pandemia, com o número de horas que passo em casa, me faz esquecer a minha imagem. Os fios brancos aparecem, a roupa é uma qualquer, e com a máscara que ponho antes de sair de casa, nem me lembro do bâton. Quando vou na rua de óculos escuros e máscara, já tive de acenar muitas vezes a conhecidos para que me reconhecessem. Tempos novos, a nossa imagem mudou. E, claro, também já tirei uma fotografia com a minha filha de dois anos e meio, as duas de máscara prontas para o mundo, que pus no Instagram.

Mas quero voltar ao livro que não é novo, embora só agora tenha tropeçado nele. Chama-se História do Espelho e é um ensaio histórico de Sabine Melchior-Bonnet, com tradução de José Alfaro, editado pela Orfeu Negro. A autora traça um percurso histórico do espelho que não foi sempre tão banal como hoje e abre-nos reflexões sobre a relação que mantemos com a nossa imagem. Aliás, como se lê na badana, “os vários espelhos citados neste livro devolvem-nos o reflexo da própria civilização”.

Vermo-nos ao espelho é, hoje, um acto tão banal que quase nem se dá por ele. Mas não foi sempre assim. Ponho-me a pensar: ao longo dos tempos, terá havido pessoas que raramente se viram ao espelho ou viram-se vagamente em objectos que lhes devolviam imagens pouco nítidas. Hoje não só nos vemos todos os dias em vários espelhos, como nos fotografamos e difundimos a nossa imagem por várias redes sociais. Com máscara, sem máscara, registamos a nossa imagem no nosso tempo pessoal e colectivo. Hoje conhecemos a nossa imagem e devolvemo-la ao outro, aos outros. À espera dos ecos.

No prefácio, Jean Delumeau deixa o aviso: “O espelho pode representar uma armadilha, contribuir para desenvolver — como nos séculos XVII e XVIII — uma arte das aparências, transformar-se em ‘cortesão atencioso’, ‘rival dos amantes’ e ‘conselheiro das coquetes’. Torna-se assim um objecto indispensável numa ‘sociedade de reflexos’ onde ‘o eu, para existir, tem necessidade de ser reforçado por ecos’.”

Agora, estamos tão habituados “a encontrar a cada passo” a nossa “imagem em espelhos, fotografias e vídeos” que “é difícil avaliar o extraordinário impacto que a possibilidade de se ver dos pés à cabeça teve nas sensibilidades, e a revolução que a invenção dos tremós de espelhos desencadeou na percepção do espaço”, escreve Sabine Melchior-Bonnet.

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Exposicão Do outro lado do Espelho, na Fundação Calouste Gulbenkian Ricardo Lopes

Ponho-me a pensar na interrogação levantada pela autora: “Como seria viver com um rosto ou habitar um corpo que, sem o auxílio do espelho, se conhecia sobretudo através do olhar dos outros? Conseguiremos imaginar o espanto daquele que pela primeira vez depara com a sua imagem?”

Mas, infelizmente, tenho de admitir: por mais que tente, não consigo imaginar-me, saber-me, sem saber como sou. Não consigo pensar como é que eu seria se não soubesse como sou. Ou se tivesse apenas uma frágil ideia. Por exemplo, escreve a autora: “À escala da história, o acto de se ver de perfil ou de costas entre dois espelhos é relativamente recente.” O gesto de nos vermos ao espelho deu-nos “também uma nova geografia do corpo, que revela imagens desconhecidas — de costas, de perfil”.

Não se pode, porém, falar propriamente de um antes e de um depois do espelho. A linha não é tão fácil de traçar: “Apesar de o espelho se ter mantido durante séculos um objecto raro e dotado de poderes mágicos, por vezes inquietantes, seria abusivo falar-se de um ‘antes’ e de um ‘depois’ do espelho, já que desde a pré-história o homem se interessou pela sua imagem, tendo usado todo o tipo de recursos, pedras escuras e brilhantes ou tinas de água, para descobrir o seu reflexo.” Porém, ressalva a autora, “teve de esperar séculos para conseguir uma imagem clara, nítida e fiel de si”.

Além disso, não esteve sempre ao alcance de todos: “Em finais do século XVIII, Saint-Simon regista com alguma ironia o exorbitante preço pago por um espelho pela condessa de Fiesque: ‘Tinha, disse ela, uma terra má, que só dava trigo; vendi-a e fiquei com este belo espelho. Não é uma maravilha? Ou o trigo ou este espelho!”

Ainda assim, o espelho, mesmo que agora corriqueiro, continua a ter algo de misterioso, mágico. O dia em que percebemos que um bebé se reconhece ao espelho, a geometria do nosso reflexo, “a mão direita no espelho é a esquerda daquele que se olha”, como lembra Jean Delumeau.

A história do espelho tem tudo: vaidade, moral, psicologia, psicanálise, identidade, somos nós lá reflectidos. Quem nos vê? A quem nos mostramos hoje? Continuo a pensar: e se nunca me tivesse visto ao espelho? Como saberia como era? Que ideia teria de mim? Será sempre mais pelo olhar dos outros que sabemos como somos? Espelho meu, espelho meu, haverá alguém mais como eu?

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