Vida nocturna de Lisboa em “situação dramática”

Apesar da moratória nas rendas até Setembro, os proprietários continuam aflitos. Não houve reduções nos seus valores, e, para muitos, a medida converter-se-á em dívidas para um sector que praticamente não tem clientes nem receitas há seis meses.

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Miguel Manso

“Dramática” é a palavra que Hilário Castro escolhe para descrever a situação actual dos bares e estabelecimentos de diversão nocturna em Lisboa. O presidente da Associação de Comerciantes do Bairro Alto lamenta a incerteza em que muitos destes estabelecimentos vivem. As directrizes da DGS para a região de Lisboa, que devido a aumentos nos casos passou por restrições distintas do resto do país, estipularam que os bares e as discotecas podem reabrir na região, mas só até às 20h. Poderão utilizar espaços exteriores como esplanadas e ocupar as pistas de dança com mesas. Não poderão, contudo, servir refeições mas apenas alimentação ligeira. Quanto aos restaurantes, poderão manter-se abertos até à uma da manhã. 

Dentro destes constrangimentos, a falta de utentes continua a ser um problema. “O grande problema é a falta de vida nocturna. Torna difícil a viabilidade de qualquer negócio. Havia uma grande esperança, primeiro, que a coisa normalizasse dentro do possível. Mas já há quem comece a atirar a toalha ao chão porque não tem capacidade de resposta à despesa”, desabafa Castro. 

Apesar da moratória nas rendas até Setembro, os proprietários continuam aflitos. Não houve reduções nos seus valores, e para muitos a medida converter-se-á em dívidas para um sector que praticamente não tem receitas há seis meses. Os bares que decidirem começar a servir refeições perdem a oportunidade de pedir lay-off, e o problema agrava-se com a falta de clientes, que leva muitos estabelecimentos a trabalharem com prejuízo. “O lay-off ajudou muito, e as moratórias… Mas financeiramente só houve os apoios bancários, que no fundo nem são apoios, são dívida, e é dívida muito cara para pessoas que facturam zero”, indica.

Andreia Meireles é a representante do Grupo de Bares e Comerciantes da Misericórdia e parte de um grupo que se sente desamparado e sem respostas concretas de apoio. “Podíamos ter tido esta conversa em Maio e estava a dizer-lhe exactamente a mesma coisa. Estamos no mesmo sítio”, lamenta. 

Ainda em Junho, fez parte de um protesto de 200 responsáveis de bares e discotecas lisboetas que à porta da Assembleia da República exigiram a reabertura dos estabelecimentos. Na altura, reclamou-se contra o silêncio do Governo face a esta crise.

De acordo com Meireles, a situação não é sustentável e ameaça pôr em risco muito mais do que os estabelecimentos uma vez que outras entidades, como fornecedores de bebidas, também são afectadas. Nesse ponto converge com Hilário Castro, para quem “isto tem um impacto não só na noite, mas na restauração. A restauração não funciona se não existir tudo o resto à volta.”

A representante também refere a hostilidade que diz existir por parte da polícia e da junta de freguesia da Misericórdia. A CML deu luz verde à utilização de espaços exteriores para esplanadas mas a autorização raramente é concedida pela Junta. 

Além disso, alguns bares têm licença de restauração e conta que a polícia os visita com frequência, às vezes minutos antes das 20h, para verificar se o que os clientes estão a consumir é uma refeição. Quando determinam que não o é, expulsam-nos do espaço. “O ambiente é de uma hostilidade muito grande e estamos a trabalhar sem clientes. Questionam se uma salada é uma refeição, por exemplo. Segundo a Polícia Municipal, as pessoas têm todas de comer feijoada ao almoço e ao jantar”, ironiza. 

Aponta também para dois pesos e duas medidas na aplicação das regras de reabertura. “Se um restaurante pode laborar até à uma da manhã, e acho que faz todo o sentido, pergunto-me porque é que um bar não pode. Seguindo as regras [de higiene e de distanciamento social], e a DGS já recebeu inúmeras propostas de inúmeras associações, porque é que continuamos assim? Uma discoteca e um bar abertos até às 20h.... não tenho palavras para uma decisão dessas”, protesta. 

A solução não se adivinha fácil. “No fundo, o que está a acontecer é que as pessoas estão a tentar sobreviver. Estamos em Agosto. Ao que sei, muitas das pessoas com negócios nocturnos receberam [em lay-off] o equivalente ao mês de Março e Abril. Eu pergunto-me como podemos viver, nós e as pessoas que estão a ser dispensadas. Fazem-nos um grande apelo para não dispensarmos pessoas, mas eu pergunto-me como é possível. Quem já está a trabalhar está a ter prejuízo, está a tentar lucrar e salvar o seu negócio e ninguém está a olhar para nós”, diz.

Texto editado por Ana Fernandes