Um festival de piqueniques: nem a pandemia pára a “comida esquecida” do Algarve

As últimas datas do Festival Comida Esquecida decorrem nas próximas semanas, com o encerramento a 17 de Outubro. As novas normas de segurança obrigaram a alterações nos eventos, mas o foco continua a ser o mesmo: destacar os produtos locais de que muitos já não se lembram.

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O Festival Comida Esquecida pretende dar a conhecer produtos regionais deixados de parte Sabrina Ildefonso

Em Outubro de 2019 tinha início a primeira edição de um festival cujo objectivo é fazer renascer receitas e ingredientes perdidos na memória” ou em “extinção da sua espécie, tanto por estarem associadas à pobreza; ou à ruralidade; ou pelo facto de não serem espécies de interesse agrícola actual”, explicou a organização, a Cooperativa QRER,​ em comunicado aquando da inauguração.

Dividido em quatro iniciativas – Piquenique de Charme, Momentum, Colher e Cozinhar e Na Casa da Glória – o Festival da Comida Esquecida deveria ter terminado a 30 de Maio de 2020. Contudo, a pandemia do coronavírus trocou as voltas à organização e os eventos a decorrer nessa altura foram adiados. Voltaram no passado dia 1 de Agosto, com um piquenique na aldeia da Penina, em Loulé.

As actividades tiveram de ser alteradas e adaptadas de forma a cumprirem as normas das autoridades de saúde, refere Ana Palma, membro da associação QRER. Ainda que decorram ao ar livre, a distância de segurança é cumprida, com a colocação de mantas afastadas umas das outras. Não são misturados grupos de desconhecidos – família e amigos sentam-se perto daqueles que conhecem. Todos utilizam máscara e desinfectam as mãos. Estava previsto haver acordeão e corridinho para animar a tarde e levar a uns bailaricos, mas agora só o instrumento tradicional está presente e não há dança para ninguém.

Alguns dos produtos e animais regionais que são dados a conhecer neste festival passam por javali guisado, aguardente de medronho – fruto que “faz parte da vida da serra algarvia”, referiu Jorge Lima em comentário ao PÚBLICO quando visitámos os produtores que integram esta iniciativa -, variados legumes e vegetais, carne de porco guardada em banha e as ovelhas de raça autóctone campaniça, que esteve em vias de extinção. Esta iniciativa passa ainda por dinamizar as zonas do Algarve menos exploradas durante a época baixa, embora este encerramento esteja a ser feito durante a época alta, devido a circunstâncias atípicas.

Nos dias 29 de Agosto e 12 de Setembro vão realizar-se mais dois piqueniques, em Santo Estêvão (Tavira) e Cacela Velha (Vila Real de Santo António), respectivamente. O mote é sempre o mesmo: dar a conhecer os produtos alimentares assim como certas raças de animais esquecidas pela maioria. As ementas são elaboradas por chefs e, em datas anteriores à pandemia, algumas foram feitas pelos habitantes locais com a ajuda dos participantes. Agora, as doses são individuais e foi necessário colocar de lado algumas das preocupações com o ambiente devido à utilização de mais plásticos descartáveis para assegurar a higienização de tudo o que é utilizado.

O Festival da Comida Esquecida vai culminar a 17 de Outubro no largo principal da aldeia de Querença (Loulé) num evento com “características diferentes dos piqueniques”, diz Ana Palma. Apesar de ainda estar em fase de planeamento e de aguardarem pela autorização das autoridades de saúde, está em mente haver um mercado com produtores locais, artesanato, exposições sobre alimentação do Algarve e música.

De momento, a venda de bilhetes encontra-se suspensa enquanto aguardam pelas orientações das entidades competentes. Contudo, assim que estiverem disponíveis podem ser adquiridos pelo valor de 20 euros (gratuito até aos 7 anos).

Texto editado por Luís J. Santos