1943-2020

Fernanda Lapa, uma voz inquieta na defesa do teatro, das mulheres e da dignificação da vida

Tinha 77 anos e era a directora artística da companhia Escola de Mulheres. “Um teatro sem conflito, que não coloque questões e que não ponha as ideias em discussão não me interessa”, dizia ela.

cultura,obituario,teatro,culturaipsilon,
Foto
Miguel Manso

Uma das figuras mais inconformadas do panorama teatral português. A encenadora e actriz Fernanda Lapa morreu esta quinta-feira, aos 77 anos, no Hospital de Cascais, onde estava hospitalizada desde o início desta semana. A notícia foi dada através da companhia Escola de Mulheres. “É com profundo pesar e imensa tristeza que a Escola de Mulheres comunica a morte de Fernanda Lapa, directora artística desta companhia desde a sua fundação, em 1995”, destaca o comunicado.

O Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, enalteceu a “voz interventiva nas questões do teatro, da cultura e da intervenção cívica”, e a ministra da Cultura, Graça Fonseca, classificou-a como uma “figura ímpar do teatro português dos últimos 50 anos”, salientando que, através do seu trabalho, deu “oportunidade, palco e voz às mulheres na representação.” O primeiro-ministro, António Costa, recordou alguém “que respirou liberdade, teatro e cultura a vida inteira”. ”Nunca calou a voz para defender o papel das mulheres contra preconceitos e estereótipos. Vamos sentir a sua falta”, escreveu, recordando que em Janeiro, no Teatro São Luiz, em Lisboa, agradeceu a Fernanda Lapa a homenagem que prestou ao seu pai, o escritor Orlando da Costa, ao encenar a peça Sem Flores nem Coroas, nunca antes representada.

Foi sempre uma lutadora, uma voz inquieta, por vezes até incómoda, no contexto do meio teatral português. Actriz, encenadora, pedagoga, fundadora da Casa da Comédia em 1963, e da Escola de Mulheres em 1995, mãe de três raparigas, combatente, resistente, de esquerda, Fernanda Lapa era uma combinação entusiasmante, na forma de pensar e de estar no mundo, entre teatro e política. “Um teatro sem conflito, que não coloque questões e que não ponha as ideias em discussão não me interessa”, dizia ao PÚBLICO, em entrevista a Tiago Bartolomeu Costa, em 2013.

PÚBLICO -
Foto
Com Isabel Ruth na peça "Marleni - Divas Prussianas, Loiras como Aço", onde fazia de Leni Riefenstahl DR

Nessa mesma entrevista salientava que o enquadramento político e económico era essencial para pensar a condição de mulher. E contava uma história: “Não o percebi logo desde o início. Comecei a despertar para essa injustiça quando ainda era casada e quis comprar um carro e não me deixavam sem a autorização do meu marido, mas ele podia fazê-lo sem a minha. Um dia, ele disse para irmos jogar ao casino. Era moda na altura. Quando tivemos de preencher uma ficha, o senhor [que as distribuía] disse-me: “O seu marido tem de autorizar.” E, quando eu perguntei porque não tinha eu que o autorizar a ele, o senhor riu-se. Foram coisas destas que me fizeram despertar.” 

Pela mão das mulheres

O director do Teatro Nacional D. Maria II, Tiago Rodrigues, vê nela “uma referência enorme do teatro português, que enriqueceu a vida de quem faz e vê teatro e que seguramente continuará a marcar a nossa memória”. O encenador, dramaturgo e actor nunca teve “o privilégio de trabalhar directamente com ela”, mas cita duas particularidades que o tocaram especialmente no seu percurso, que associa à “personalidade combativa”. A primeira é “o trabalho enorme que fez em prol da dramaturgia escrita pela mão de mulheres e pelo lugar da mulher, não apenas no teatro”, mas na sociedade portuguesa em geral. “Devemos-lhe essa capacidade de transformar a sociedade através da arte”, afirma. Outra particularidade, que diz não poder também passar despercebida, é a forma como sempre se “mostrou aberta aos artistas mais novos, não apenas inspirando-os e marcando-os com o seu próprio trabalho, mas também apoiando-os e muitas vezes até colaborando com eles”.

PÚBLICO -
Foto
"Os Novos Confessionários" (1996), com Fernanda Lapa, Cucha Carvalheiro, Isabel Medina, Cristina Carvalhal, Conceição Cabrita, Marta Lapa E Aida Soutullo

Tiago Rodrigues recorda, como “um dos grandes momentos do teatro português” a que pôde assistir, o seu trabalho como actriz, em 2007, na Galeria Zé dos Bois, em Lisboa, na criação da Mala Voadora Desempacotando a Minha Biblioteca, encenada por Jorge Andrade. “Ela tinha aí uma prestação absolutamente incrível”, faz notar, realçando a “generosidade com que deu as mãos a uma companhia jovem, menos experiente, oferecendo-lhe a sua sabedoria e conhecimento”. Tiago Rodrigues afirma que “o teatro português ficou muito mais rico” com a passagem de Fernanda Lapa pelas vidas dos seus intervenientes e reclama a todos “a obrigação de continuar as suas lutas”.

Já o actor e argumentista Paulo Filipe Monteiro lamenta a perda de “uma gigante, seja como criadora, como intelectual, mas também como referência cívica”. Para o também professor da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova, ela era, “além de artista, um ser humano exemplar: leal, vertical como ninguém”. E deixa uma nota: “É imensa a responsabilidade que fica de seguirmos o seu exemplo.”

Estreia como actriz e encenadora

Fernanda Lapa começou a encenar muito nova, num meio dominado por homens, tendo um vasto currículo nos palcos, na televisão e no cinema. Iniciou a carreira em 1962 no Teatro dos Alunos Universitários de Lisboa. Sendo uma das fundadoras da Casa da Comédia, em Lisboa, foi neste espaço que se estreou como actriz na peça de Almada Negreiros Deseja-se Mulher, em 1963. A mesma peça com que se estreará, em 1972, como encenadora, também no mesmo espaço teatral. Desde então dirigiu peças de teatro, teatro-dança e óperas, desenvolvendo paralelamente acções pedagógicas nas áreas do teatro e do cinema.

Em 1979 foi bolseira da Secretaria de Estado da Cultura, na Polónia, onde trabalhou com Szajna e Zigmunt Hubner na Escola Superior de Encenação de Varsóvia. Estagiou no Teatro Laboratório de Grotowski, no Teatro Contemporâneo de Wroclaw e no Teatro Stary de Cracóvia. Em 1995 foi co-fundadora da Escola de Mulheres (ao lado de Isabel Medina, Cucha Carvalheiro, Cristina Carvalhal, Conceição Cabrita, Marta Lapa e Aida Soutullo), de que foi directora artística até hoje, projecto criado por mulheres de gerações e experiências diversas, mas com a consciência comum do papel de subalternidade da mulher no teatro. O objectivo foi sempre o de privilegiar a criação e o trabalho feminino no teatro e promover e divulgar uma nova dramaturgia de temática e escrita femininas, tanto nacional como internacional. 

Ao longo dos anos foi afirmando que era na encenação que se sentia realizada, manifestando activamente o seu interesse pelas questões das mulheres na cultura e não só. Defendia que “o teatro reflecte todas as contradições, avanços e recuos do papel da mulher na sociedade contemporânea”. A Escola de Mulheres nasceu com o intuito de romper com o panorama teatral português em relação à forma como as mulheres eram encaradas — quase nenhum texto de autoria feminina era representado, havia poucas encenadoras e a maioria das peças davam da mulher imagens estereotipadas ou idealizadas, sendo os elencos maioritariamente masculinos. 

PÚBLICO -
Foto
"Mil Olhos de Vidro" (2008) paulo pimenta

Uma espécie de mãe

A actriz e encenadora Cristina Carvalhal, co-fundadora da Escola de Mulheres, chama-lhe “uma espécie de mãe”. Segundo ela, Fernanda Lapa teve um papel determinante na sua vida. Primeiro, quando, após terminar o 12.º ano e numa altura em que “esperava para entrar em Medicina”, se matriculou na Escola de Circo Mariano Franco (precursora do Chapitô), onde Lapa assegurava um curso de Teatro. “Tudo mudou com essa experiência”, diz. Concorreu depois ao Conservatório, acabando por reencontrar Fernanda Lapa já enquanto actriz, em 1991, no Teatro Aberto, na peça A Rapariga de Varsóvia. Dois anos mais tarde voltaria a ser dirigida por Lapa, na mesma sala, em Top Girls, peça de Caryl Churchill — que, curiosamente, Carvalhal encenará na próxima temporada do Teatro Nacional D. Maria II. “Esse foi outro momento marcante”, recorda, “porque foi quando resolvi começar um percurso como freelancer.” Pouco depois, na sequência de novo encontro numas filmagens, juntar-se-iam na fundação da companhia Escola de Mulheres.

“A Fernanda sempre esteve muito ligada à luta feminista e à importância do papel das mulheres na sociedade”, recorda. “A ideia da companhia foi abrir um espaço onde as mulheres pudessem ter voz, dar-nos um lugar de fala nas várias vertentes que o teatro congrega, das técnicas às artísticas.” Depois de espectáculos como As Bacantes, Leituras Maravilhosas, Os Novos Confessionários – Cabaret Sentimental ou Danças a Um Deus Pagão, nos dois primeiros anos de actividade da companhia, algumas “divergências” ditaram o afastamento entre as duas, tendo-se reaproximado anos mais tarde. Apesar dos caminhos divergentes, Cristina Carvalhal reconhece ter ficado profundamente marcada por essa experiência e pela consciencialização “a partir da qual não se pode mais fechar os olhos, nem se pode deixar de olhar para o mundo com esse alerta”. “Ela é uma figura muito importante na minha vida, sem dúvida, mas também na vida do teatro em Portugal. Tinha uma actividade não só artística mas também política, que marcava a sua vida de artista, mas sem deixar de ter um lado muito humano de mulher, de mãe, de filha.” Também por isso, recorda “uma figura muito importante como modelo e referência para muita gente”, lembrando que protagonizou esse papel não apenas na sua vida, mas também na de outras actrizes como Ana Nave, Sandra Faleiro ou Carla Bolito. “Era das poucas a fazerem as coisas como mulher, como criadora. Foi uma pioneira que nos mostrou que era possível e que privou com grandes nomes da literatura e da pintura, estava sempre a contar histórias.”

Respirava teatro

Foi, precisamente, nos convívios com gente do teatro e de outras áreas artísticas no Café Monte Carlo que o actor e encenador Rui Mendes fundou a sua amizade com Fernanda Lapa, como recorda agora ao PÚBLICO. Uma proximidade fundada em “conversas sobre teatro e sobre a vida sindical, porque era muito dedicada à vida sindical”. A experiência teatral mais intensa que tiveram juntos deu-se em 1995, no Teatro Aberto, quando Fernanda Lapa encenou A Morte e a Donzela, de Ariel Dorfman, protagonizada por Rui Mendes, Irene Cruz e João Lagarto. Mendes, que ainda há escassas semanas falara com ela, lembra “uma mulher extraordinária, porque, além de uma grande actriz e encenadora, era uma grande mulher de teatro — respirava teatro e vivia para o teatro”. “Além disso”, acrescenta, “era uma grande cidadã, dedicada sobretudo à causa da dignificação da mulher. E levava essa luta para os palcos, porque normalmente as peças davam mais importância aos papéis masculinos.” A sua marca no teatro português, entende Mendes, está viva na Escola de Mulheres, manifestando a esperança de que “os seus sucessores continuem com a companhia, lutando contra todas as dificuldades que o teatro atravessa”. “Deixa-nos um enorme legado”, resume.

Quem com ela trabalhou, para além da actriz e encenadora, destaca o exemplo cívico. Era uma lutadora, e, por vezes, revoltava-se. Em 2014, quando da estreia da peça Marleni – Divas Prussianas, Loiras como o Aço, exclamava: “Caramba! Chego aos 50 anos de carreira e sou tratada como se tivesse começado agora. E isso é triste. E isso magoa – porque não temos as condições mínimas de trabalho”, salientava, numa referência às condições insuficientes do meio cultural, ao mesmo tempo que chamava a atenção para o facto de não haver muitos papéis desafiantes para mulheres da sua idade. “Não há muitas personagens femininas. Normalmente são as avozinhas, as velhas bruxas. Mas nesta peça temos seres humanos complexos, com desafios, com conflitos. Por isso a achei interessante.” 

PÚBLICO -  "Sonata de Outono" com Ana Bustorff, no São Luiz
"Sonata de Outono" com Ana Bustorff, no São Luiz nuno ferreira santos
PÚBLICO - "Mil Olhos de Vidro"
"Mil Olhos de Vidro"
Fotogaleria
nuno ferreira santos

Apesar de ter estado ligada à Casa da Comédia e à Escola de Mulheres, ao longo da carreira trabalhou com outras companhias, entre as quais A Barraca, Mala Voadora, Novo Grupo/Teatro Aberto, Teatro da Politécnica, Teatro Popular – Companhia Nacional, Teatro Experimental de Cascais ou D. Maria II. Entre muitos outros, levou à cena textos de Almada Negreiros, Paula Vogel, Caryl Churchill, Tadeuz Rozewitz, Jean Cocteau, Lucia Sanchez, Eurípides, August Strindberg, Per Olov Enquist ou Orlando da Costa. Na área da dança colaborou com o coreógrafo e bailarino Francisco Camacho e, no cinema, trabalhou com, entre outros, Margarida Gil, Luís Filipe Costa, Fernando Vendrell, Jorge Paixão da Costa e Tiago Guedes. Em televisão, além de actriz, foi também directora de actores.

Foi, até 2012, professora catedrática convidada e directora do Departamento de Artes Cénicas da Universidade de Évora, para além de leccionar na Escola Profissional de Teatro de Cascais e na Universidade Intergeracional. Leccionou ainda o seminário Práticas Cénicas no Mestrado em Artes Cénicas, que o encenador Paulo Filipe Monteiro coordena na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova. Foi várias vezes premiada e distinguida (em 2005 recebeu a Medalha de Ouro de Mérito Cultural, do Ministério da Cultura). O seu último grande projecto foi a organização do centenário de Bernardo Santareno, que deveria decorrer ao longo deste ano, mas cujo programa acabou por ser interrompido pela pandemia. Insatisfeita com o quase esquecimento a que foi votada a obra de um dramaturgo que, mais do que um escritor que admirava, fora também um amigo, a quem devia o apoio para as primeiras incursões em palco, a actriz mobilizou o meio teatral e académico para garantir uma celebração à altura da sua obra.

Fernanda Lapa e António Martinho do Rosário, verdadeiro nome de Santareno, conheceram-se em 1961, e até à morte do psiquiatra, em 1980, cultivaram uma amizade profunda. Como a própria contou ao PÚBLICO, em 2019, ela leu-lhe manuscritos, e como assistente social, trabalhou com o médico no apoio a mutilados da guerra colonial e aos cegos na Fundação Raquel e Martin Sain, em Lisboa. Nos palcos, os 25 anos da morte do escritor foram lembrados pela Escola de Mulheres com a produção Bernardo/Bernarda, um texto construído a partir de excertos da obra de Santareno com o qual a encenadora pretendia dar o conhecer o lado mais pessoal do escritor.

Em 2020, lembra hoje a Escola de Mulheres, Fernanda Lapa quis voltar a celebrar o autor de A Promessa, “e o seu carinho enorme pelos marginalizados”, categoria em que ele próprio se inseria. Cumprindo a sua vontade, a companhia estreará a 19 de Novembro a versão cénica de Fernanda Lapa da obra O Punho. Já as comemorações de Santareno, essas, prolongam-se por 2021, se o vírus deixar, agora com a coordenação de Domingos Lobo. E com o desaparecimento da actriz, em cada palco haverá, agora, dois nomes para homenagear: o escritor e a encenadora que nos pôs de novo a olhar para a sua obra.

Já este ano, em Janeiro, levou ao São Luiz, em Lisboa, o texto Sem Flores nem Coroas, de Orlando da Costa, ao qual há muito prometera dar vida. Em 1972, o amigo e escritor Orlando Costa (pai do primeiro-ministro, António Costa, e falecido em 2006) fora assistir a um espectáculo seu e disse-lhe que gostava que fosse ela a pôr em cena um texto teatral que escrevera anos antes, situado no contexto da queda dos territórios indianos que, durante mais de quatro séculos, permaneceram sob alçada portuguesa. Também este ano foi autora da mensagem do Dia Mundial do Teatro (27 de Março), a convite da Sociedade Portuguesa de Autores, na qual defendeu que se exija um plano de desenvolvimento teatral com futuro e que se aposte na força do teatro para as transformações que a actualidade exige. “Amar o teatro e o público não é um conceito abstracto; amar não pode ser uma palavra sem conteúdo e, tal como a palavra drama, contém o sentido de acção”, pelo que “homens e mulheres de teatro têm o dever imperioso de lutar por um teatro digno do nosso país e por uma classe teatral dignificada”, defendeu.

Irmã mais velha da também actriz e encenadora São José Lapa, Fernanda Lapa teve três filhas. Além de Marta Lapa, com quem partilhava a direcção artística da Escola de Mulheres, era também mãe de Mónica Lapa, bailarina e coreógrafa que morreu em 2001, e de Ana Lapa.

O corpo estará em câmara-ardente, esta sexta-feira, 7 de Agosto, a partir das 18h, na Escola de Mulheres (Clube Estefânia) na Rua Alexandre Braga, n.º 24 A em Lisboa. As exéquias fúnebres terão o seu início, sábado, 8 de Agosto pelas 16h30, para o crematório no Centro Funerário de Cascais, em Alcabideche. A família agradece, a quem queira oferecer flores, que o valor das mesmas seja dado como donativo à família do actor Bruno Candé Marques para o IBAN PT50 0035 0936 00042511500 87 da CGD.

Com Abel Coentrão, Gonçalo Frota e Sérgio C. Andrade

Sugerir correcção