O que é o nitrato de amónio, a substância que terá destruído o porto de Beirute?

É um fertilizante muito utilizado na agricultura, por fornecer azoto às plantas, mas também é usado para fabricar explosivos.

A explosão "foi como um grande terramoto que atingiu Beirute" Carolina Pescada e Reuters

O Presidente do Líbano, Michel Anoun, revelou que na origem da enorme explosão no porto de Beirute estiveram 2700 toneladas de nitrato de amónio. O primeiro-ministro, Hassan Diab, confirmou esta tese e adiantou mais alguns detalhes: aquela quantidade de fertilizante estava armazenada há mais de seis anos. Diab considerou “inadmissível” que o material estivesse guardado sem as devidas medidas de precaução e prometeu punir os responsáveis.

O nitrato de amónio é um dos fertilizantes mais utilizados na agricultura, fornecendo azoto às plantas. Por si só, não é explosivo – é um oxidante que intensifica a combustão –, mas pode explodir quando entra em contacto com outros combustíveis ou com fontes de calor, daí também ser utilizado no fabrico de explosivos. Julga-se que tenha estado na origem da violenta explosão em 2015 na zona portuária da cidade chinesa de Tianjin, que matou pelo menos 114 pessoas.

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WAEL HAMZEH/EPA

“Quando aquecido a uma temperatura superior a 170 ºC, [o nitrato de amónio] decompõe-se violentamente em óxidos de azoto e vapor de água, sendo por essa razão também usado como explosivo industrial”, explicou ao PÚBLICO, por e-mail, Mário Berberan e Santos, professor catedrático de química-física, materiais e nanociêncas do Instituto Superior Técnico (IST).

“Ele não explode sozinho. É preciso um gatilho muito grande para que uma explosão ocorra. No caso do Líbano, se foi isso que aconteceu, acredito que a explosão possa ter sido causada por um incêndio que tenha ocorrido antes”, acrescentou Reinaldo Bazito, professor do Instituto de Química da Universidade de São Paulo à edição brasileira da BBC.

O que terá originado a ignição que levou à explosão é, até ao momento, uma incógnita. Certo é que, devido às suas características, o fertilizante necessita de muitas precauções e regras rígidas no seu armazenamento, devendo ficar afastado de combustíveis e fontes de calor. “Os armazéns precisam de ser feitos de maneira a que não haja acumulação de nitrato de amónio. É preciso garantir que não haja pontos quentes no material armazenado, evitando a decomposição térmica”, acrescentou Bazito.

Quanto à cor alaranjada e vermelha que se viu após a explosão, Mário Berberan e Santos explica que “um dos óxidos de azoto, o NO2, dióxido de azoto, é alaranjado e confere essa cor às nuvens da explosão”. Em relação às consequências para a saúde, o docente do IST alerta que “alguns óxidos de azoto são tóxicos e atacam fortemente as mucosas e o aparelho respiratório (caso do NO2)”.  No entanto, sublinha, “tratando-se de uma explosão em espaço aberto, são diluídos pela explosão e dissipados pelo vento, uma vez que se trata de gases”. 

Outra questão que está a levantar dúvidas é o motivo de uma quantidade tão grande de fertilizante estar armazenada no porto há tanto tempo. “Quem precisa de 2750 toneladas de nitrato de amónio?”, questiona, citada pela BBC, Lina Khatib, responsável pelos programas da Chatham House, em Londres, para o Médio Oriente e o Norte de África.

A explosão terá tido origem num armazém de pirotecnia na zona portuária da capital libanesa Reuters/AZIZ TAHER
Os edifícios nas imediações da explosão sofreram danos estruturais, como mostra a fachada deste prédio Reuters/AZIZ TAHER
O porto, situado junto à baixa da cidade, ficou totalmente destruído Reuters/MOHAMED AZAKIR
O armazém continha 2750 toneladas de nitrato de amónio, um componente químico utilizado no fabrico de foguetes e explosivos Reuters/AZIZ TAHER
O exército foi convocado pelo governo local para ajudar nas operações de combate ao incêndio que deflagrou no local da explosão Reuters/ISSAM ABDALLAH
Militares saíram à rua para ajudar nos trabalhos de limpeza e de resgate Reuters/AZIZ TAHER
Os edifícios circundantes ficaram totalmente destruídos, dificultando as operações de resgate às equipas presentes no local EPA/WAEL HAMZEH
Habitantes da cidade de Limassol, no Chipre, a cerca de 240 quilómetros do local da explosão, relatam ter sentido o abalo EPA/WAEL HAMZEH
Testemunhas no local afirmam haver automóveis lançados para o topo de edifícios de três andares EPA/WAEL HAMZEH
Até ao momento, não há registo de portugueses entre as vítimas da explosão Reuters/AZIZ TAHER
Os soldados patrulham as ruas enquanto os trabalhos de limpeza e resgate decorrem na cidade Reuters/AZIZ TAHER
Os populares tentam ajudar as autoridades na limpeza dos estragos causados pela explosão Reuters/AZIZ TAHER
Existem danos em diversos edifícios e serviços da capital libanesa Reuters/AZIZ TAHER
As causas do acidente ainda estão por apurar, mas investigações preliminares apontam para negligência Reuters/MOHAMED AZAKIR
Estima-se que existam 4000 feridos, mas o real número de vítimas ainda não é claro Reuters/MOHAMED AZAKIR
A explosão, que terá alastrado a um navio atracado no porto, teve origem no edifício ao centro da imagem EPA/WAEL HAMZEH
Durante a manhã de terça-feira, ainda existiam alguns incêndios no local da explosão EPA/WAEL HAMZEH
Diversos países já se disponibilizaram para disponibilizar ajuda médica e humanitária, incluindo a Turquia, que já colocou voluntários de uma ONG no terreno Reuters/IHH
Os hospitais, que já se encontravam lotados devido à pandemia de covid-19, temem não ter capacidade para dar resposta às vítimas do acidente Reuters/IHH
De entre os edifícios afectados, estão alguns hospitais, que foram evacuados, tendo alguns feridos sido tratados em parques de estacionamento da cidade Reuters/MOHAMED AZAKIR
O custo total dos danos materiais causados pela explosão ainda está por apurar EPA/WAEL HAMZEH
Os edifícios portuários foram os primeiros a sofrer com a onda de choque da explosão. Há, inclusive, relatos de navios que afundaram EPA/WAEL HAMZEH
Também o Irão enviou ajuda humanitária através da ONG Crescente Vermelho, que colocou voluntários no terreno para ajudar as equipas no local Reuters/WANA NEWS AGENCY
A República Checa enviou para Beirute membros de equipas de busca e salvamento Reuters/DAVID W CERNY
As equipas checas são compostas por binómios cinotécnicos (humano + cão), e têm como objectivo ajudar a procurar vítimas nos escombros Reuters/DAVID W CERNY
As operações de limpeza e salvamento nos escombros da explosão na zona portuária continuam EPA/NABIL MOUNZER
A explosão fez com que habitantes da cidade ficassem desalojados EPA/NABIL MOUNZER
Os habitantes dos bairros de Mar Mikhael e Gemayzeh, próximos da zona portuária, procuram, agora, realojar-se noutro local EPA/NABIL MOUNZER
França é outro dos países a enviar ajuda humanitária para Beirute, com equipas de busca e salvamento, pessoal médico e material de primeiros socorros EPA/BERTRAND GUAY / POOL
Na cidade, multiplicam-se os esforços populares para ajudar nas buscas EPA/NABIL MOUNZER
Segundo os responsáveis libaneses, existem mais de 4000 feridos e 100 mortos. No entanto, estes números devem subir nas próximas horas EPA/NABIL MOUNZER
A ONG iraniana Crescente Vermelho tem enviado ajuda humanitária para a região, à qual se junta, agora, o apoio do governo de Teerão EPA/STR
O presidente iraniano, Hassan Rouhani, decidiu apoiar o Líbano e vai enviar mais ajuda humanitária para a região nas próximas horas Reuters/WANA NEWS AGENCY
Também edifícios governamentais ficaram danificados, como o palácio presidencial e embaixadas de outros países em Beirute EPA/WAEL HAMZEH
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Um armazém de material pirotécnico explodiu esta terça-feira em Beirute, causando pelo menos 100 mortos e mais de 4000 feridos.

“É sabido que esta substância é utilizada para fabricar explosivos e também é sabido que o Hezbollah, o grupo armado libanês, faz contrabando desse material para o Líbano através do porto. Por isso, é plausível que o Hezbollah possa ter alguma ligação, apesar de ainda ser muito cedo para saber”, afirmou Lina Khatib.