Relações fortes na idade adulta não “reparam” os efeitos dos traumas de infância

Estudo em babuínos mostrou que os animais que tiveram traumas na infância têm níveis mais elevados de hormonas do stress na vida adulta.

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Para este estudo, foram tidos em conta dados de 192 babuínos fêmea Stacy Rosenbaum/Universidade do Michigan

Perder a mãe na infância. Viver num grupo com uma elevada densidade populacional. Ou nascer num ambiente de pobreza. Será que os efeitos destas adversidades podem ser compensadas com relações fortes na vida adulta? Um grupo de cientistas dos Estados Unidos e do Quénia decidiu esclarecer esta questão através de babuínos fêmea. Concluiu-se que, quando têm traumas no início da vida, os babuínos ficam com níveis mais altos de hormonas do stress na vida adulta. Isto acontece mesmo se os seus laços construídos já na idade adulta forem fortes.

Elizabeth Archie, uma das autoras deste trabalho, começa por contar que há muito tempo que se julgava que a ligação entre as adversidades encontradas no início da vida e a resposta ao stress quando se é adulto poderia estar relacionada com a falta de apoio social na vida adulta. “Contudo, aquilo que encontrámos neste estudo é que os efeitos a longo prazo de dificuldades enfrentadas na infância são mais poderosos do que os efeitos a curto prazo do apoio social – mesmo que essas dificuldades tenham acontecido há muitos anos”, refere a cientista da Universidade de Notre Dame, nos Estados Unidos.

Portanto, de acordo com este estudo publicado esta segunda-feira na revista científica Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS), os efeitos das adversidades que ocorreram na infância não são necessariamente reparados pelo apoio social na vida adulta.

Para tirarem estas conclusões, a equipa utilizou informações de 192 babuínos fêmea do Projecto de Investigação de Babuínos de Amboseli, no Quénia. Neste projecto segue-se o comportamento de babuínos selvagens durante cerca de 50 anos e desde o seu nascimento. Relembremos que os babuínos são animais evolutivamente próximos dos humanos e partilham, em média, uma semelhança genética de 94%. Tal como outros primatas, os babuínos são altamente sociais e vivem em grupos que podem ir dos 20 aos 150 animais.

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O Projecto de Investigação de Babuínos de Amboseli, no Quénia, acompanha o comportamento de babuínos selvagens durante vários anos Stacy Rosenbaum/Universidade do Michigan

Foram identificados seis tipos de adversidades no grupo de babuínos fêmea analisados: nascer durante uma seca; ter um irmão mais novo quase da mesma idade que compete pelos recursos e pela atenção da mãe; viver num grupo com uma elevada densidade populacional; perder a mãe numa idade precoce; ter uma mãe em baixo na hierarquia; ou nascer de uma mãe que está isolada socialmente. Também se analisaram as relações sociais dos babuínos, nomeadamente quem era amigo de quem ou quanto tempo estes animais passavam a seduzirem-se uns aos outros.

Além de se considerarem estas adversidades e relações, mediram-se os níveis de glucocorticóides – hormonas que regulam funções fisiológicas como o metabolismo ou que moderam a resposta do corpo ao stress. As amostras foram recolhidas de fezes de babuínos fêmea adultos.

Verificou-se que, se os babuínos fêmea tivessem tido uma ou mais adversidades quando foram bebés, os níveis de glucocorticóides eram 9% mais elevados do que os dos babuínos fêmea sem quaisquer traumas. Já se os babuínos tiveram duas ou mais adversidades, os níveis dessas hormonas eram 14% mais altos do que os animais que tinham tido um trauma. Por fim, os níveis desta hormona em babuínos com dois ou mais traumas podiam ser 21% superiores em relação aos babuínos que não tinham enfrentado nenhuma dificuldade.

Combate logo na infância

Também se constatou que o impacto directo das adversidades na infância nas concentrações de glucocorticóides na idade adulta era 11 vezes mais forte do que o impacto dos laços sociais nessas hormonas, refere-se no artigo. Embora os animais com traumas tivessem laços sociais ligeiramente mais fracos do que os animais sem traumas na infância, os autores indicam que ser ligeiramente menos social (e ter menos laços ou menos fortes) em adulto tem apenas um pequeno efeito nos glucocorticóides. Viu-se ainda que os animais com laços sociais mais fortes tinham os níveis desta hormona mais baixos, mas apenas ligeiramente mais baixos. Desta forma, a equipa concluiu que as relações sociais não têm força suficiente para explicar porque é que há animais com concentrações de glucocorticóides mais elevadas.

“Os laços sociais podem ter um efeito importante na saúde, no stress e na sobrevivência dos adultos, mas não compensam os efeitos das adversidades na infância”, realça Elizabeth Archie, acrescentando que isto significa que combater a adversidade logo na infância é crucial para melhorar a saúde na idade adulta.

Por tudo o que foi observado, a equipa concluiu que condições adversas no início da vida dos babuínos é uma causa fundamental do stress na vida adulta. “Desregulações em hormonas do stress ou na resposta ao stress são grandes factores de risco para a depressão, a ansiedade, a inflamação crónica e outros problemas de saúde. Pensa-se que a vivência de adversidades no início da vida contribua para desequilíbrios na saúde global”, frisa Elizabeth Archie.

Quanto à aplicação destes resultados em humanos, Stacy Rosenbaum (autora do artigo e cientista da Universidade do Michigan, nos Estados Unidos) diz que é muito difícil estudar em humanos o impacto das adversidades da infância na vida adulta, bem como se as relações construídas pelos adultos as podem compensar. “Os humanos vivem muito tempo, e depois há muitas questões relacionadas com a sua privacidade, é mesmo difícil estudar este fenómeno em humanos”, reforça. 

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